Painel do Eduardo Kobra na rua Oscar Freire, em são Paulo.

O Brasil não é 1º mundo mas você pode ser

Por Gera Gonçalves

A pessoa volta a Europa enumerando os porquês de preferir morar no primeiro mundo mas não percebe que o que mais diferencia os europeus da gente não é a arquitetura, a comida, ou o clima, mas a atitude.

A real é que adoramos elogiar o joie de vivre europeu, fruto de revoluções que já rolavam por lá enquanto a gente ainda andava pelado por aqui, mas na hora de abrir mão das mordomias classe-medianas corremos para o conforto do carro, da empregada, do dinheiro e do jeitinho brazuca.

Quebrar esse ciclo que - na nossa cabeça - representa a vida boa e invejável que aprendemos com os nossos pais e pais dos nossos pais, não é fácil. Há uns dois anos para cá mudei a chavinha e resolvi tentar.

Em tempo, não tive nenhuma revelação, não virei budista, tampouco minha start up faliu, só realizei que estou ficando velho e que um pouco de condições (aka qualidade de vida) não iria me fazer mal.

Há quem chame isso de maturidade mesmo eu não concordando com essa classificação. Pelo menos não relacionado a minha pessoa. A seguir, conto um pouco dessa experiência:

A questão do transporte público.

Não dá para discutir o quanto o transporte no país é ruim. Fato. Mas, acredite, existem lugares em São Paulo que ele funciona, o metrô chega, o ônibus passa e você não leva mais de uma hora dentro de um coletivo.

No final de 2015, depois de ficar preso num engarrafamento só para sair do prédio da empresa, decidi tentar algo diferente. No começo do ano a empresa mudou para o bairro Vila Olímpia, próximo de uma estação (de trem, a Berrini) e resolvi trocar meu vale-estacionamento pelo vale-transporte.

Primeiro de tudo, planejar é preciso. Isso porque todo carro é uma célula de transporte que além de isolar a gente do ambiente exterior, também permite a locomoção de uma série de coisas (guarda-chuva, mochila, carregador, tênis) que a gente só se dá conta que existem quando passamos a carregar.

Também é preciso aprender sobre bilhete único, baldeações, terminais, conexões e sobretudo, a lidar com milhões que estão ali dividindo o serviço com você. Mas os benefícios são enormes. Além da economia de grana e tempo, troquei o estresse no trânsito por um dos meus maiores prazeres: ler.

A relação com a cidade.

Na Europa passeamos por praças, parques, ruas onde acontecem atos e fatos maravilhosos. É um violoncelista incrível numa esquina, uma lojinha bacana na outra, um graffiti num beco, uma adega discreta onde se toma uma taça de tinto bom por dez reais.

Pois é amigo, tudo isso tem na cidade de São Paulo. Acontece que a gente não vê porque vivemos de casa para a garagem, da garagem para o trabalho, do trabalho para o valet do restaurante. A boa notícia é que uma coisa leva a outra e quando você passar a dirigir menos, também vai se conectar mais com os espaços urbanos e a cidade.

Na contra-mão você também passa a ser mais impactado pelo ambiente, pelos movimentos urbanos, a mídia out of home, a street art, a autenticidade das pessoas na rua. Para quem trabalha com comunicação é um ganho referencial importante.

Claro, você também pode ter tudo isso navegando pelo Pinterest, por exemplo, mas a meu ver o aprendizado também está na troca, e esse tipo de experiência a internet (ainda) não te dá.

O tema reciclagem.

Nunca fui econazi. Na verdade me falta habilidade para lidar com radicalismos de qualquer tipo, mesmo os compreensíveis.

Mas reciclar é algo que considero essencial para a vida por motivos de: os recursos do planeta estão acabando meu jovem. Eu já tinha vontade de fazer isso há algum tempo mas esbarrava na questão do condomínio, que não tinha coleta seletiva. E claro, na minha própria preguiça.

Soube que mesmo indo para um lixão a separação ajuda na triagem e resolvi começar. Comprei no Camicado um lixo especial só para o acondicionamento, bati um papo com iniciados (para saber quando lavar a pet, abrir ou não o pack) e pronto. Algum tempo depois o condomínio adotou o processo naturalmente, que nada teve a ver comigo mas que me deixou feliz.

A opção bicicleta.

Com o perdão do trocadilho o mundo dá voltas, viu. Antes de começar a deixar o carro na garagem jamais considerei bicicleta como transporte. Um dia, num engarrafamento na Avenida Faria Lima, me peguei invejando os bikers pela ciclovia. Eles curtindo a brisa enquanto a gente em nossa bolha fazia o que podia para driblar o tédio e o chateação.

Decidi ressuscitar minha bike que já estava até anunciada no Mercado Livre. Com o tempo arrumei as marchas, comprei luzes, capacete (sim amigo, ambos necessários) e hoje é mais uma possibilidade de locomoção. Só não uso nos dias muito quentes por motivos de: ficar ensopado.

Claro que Brasil não é Europa e São Paulo não é Amsterdã, por isso, bom senso é algo que existe para ser usado. Eu aconselho bicicletas como transporte somente se o seu caminho tiver mais de 50% de ciclofaixas ou ciclovias. Fora disso, infelizmente não aconselho.

Os parques públicos.

São Paulo possui parques tão bacanas quanto um Tiergarten (Berlim) ou Hyde Park (Londres), mas que já operam na capacidade máxima, principalmente nos domingos. Não é praia, não é mato, mas é o que tem para o paulistano.

Particularmente sempre frequentei o Parque do Ibirapuera, por ser o mais próximo de casa. Além da praticidade e dos museus, adoro este parque sobretudo pela beleza. Ano passado estreitei a relação me matriculando no @wemove_brasil, um grupo que pratica exercícios funcionais e prega um estilo de vida saudável.

Foi uma das melhores decisões em 2015. Além de fazer uma coisa que eu gosto muito, que é atividade física, hoje treino no meio da natureza. Bem diferente da rotina de puxar ferro na academia. Além disso, a galera é bem animada e tem os benefícios estéticos (aka diminuição da barriga de chope) que te dão aquela motivação extra para manter a frequência.

Cultura acessível.

Sempre que ouvia alguém falar de ter assistido tal show em tal lugar por preços ótimos, ou até de graça, eu duvidava, da mesma forma que duvidava das pessoas que acham promoções áreas por 10% do preço.

Me perguntava, que diabos elas têm de diferente da gente? Hoje, eu mesmo respondo esta pergunta: boa-vontade e planejamento.

Não dá para falar que São Paulo não tem cultura. O que rola é que esses programas ou são caros, ou cheios demais. E é aí que entram os diferenciais acima. Hoje, com a internet, é muito fácil criar um feed de informações culturais que te avisam com anos luz de antecedência um evento, show, peça, festival ou o que for que você curta.

E se engana quem pensa que isso fica restrito somente as unidades do SESCs da vida, que são notoriamente difíceis de conseguir ingresso. Eu tive o privilégio de assistir o Gil com a filarmônica da Bahia no Teatro do Ibirapuera (projeto do Niemeyer que por si só vale a visita) por dez reais. Sim, dez reais.

Ainda existe a opção mais fácil e barata de trazer mais de cultura para a sua vida, que é ler. Um livro pode quebrar seu galho no metrô, fila do banco, espera do médico e às vezes, é melhor companhia numa noite fria que muito traste por aí. E para orçamentos apertados vale dizer que São Paulo é uma das cidades com mais sebos do Brasil. Se eu tivesse que escolher entre todas as dicas aqui neste post, seria esta: leia mais amigão. Leia sempre.

A relação com a comida.

Na Europa, no geral, fico com a impressão de que as pessoas são mais imediatistas em relação a comida. Compram para o dia, no máximo para a semana. E o fato de usarem menos carro também dificulta as compras de mês.

Não acredito que seja necessário ir todos os dias ao supermercado, mas que tal optar por alimentos mais frescos para serem consumidos em menor tempo? Escolher a fruta, selecionar o legume, lavar as verduras. Isso estreita a relação com o alimento. De onde vem, quanto custa, qual a melhor opção, são informações consideráveis que a gente só valoriza quando passa a ter.

Esse é um hábito um pouco mais difícil de criar, mas depois de começar você não vai querer para mais. Se você mora em São Paulo pode até não saber, mas com certeza numa proximidade tolerável da sua casa existe um mercadão, hortifrúti ou feira livre. Da Google e vê se eu estou mentindo.

Eu moro próximo do Sacolão da João Moura e do Mercadão de Pinheiros. Ainda tem a feira livre da Oscar Freire, mas desaconselho porque é a feira mais cara da cidade. Gosto mesmo é ir aos sábados no Mercadão Municipal, no centro. Aprendi com minha mãe a escolher frutas, queijo, castanhas e hoje sou cliente da Galeria do Bacalhau, onde tem tudo e com um atendimento nota dez. Todo amigo gringo que vem me visitar faço questão de levar até lá.

Não sei onde vai dar isso tudo e não estou lá muito preocupado, pelo menos não nesse momento. Só quero levar uma vida numa boa, curtir os amigos, tomar minha cervejinha de final de semana e tentar uma simbiose maior com a cidade. Não quero me ver daqui há xis anos amargurado, deixando textão no Facebook que a vida no Brasil é uma merda e na Europa maravilhosa, ou então pranteando a vida de caiçara que eu não tive.

Sobre o que aprendi e venho aprendendo nessas aventuras, talvez a maior delas tenha sido entender que única revolução possível é dentro de nós. Então se você quer mudar algo, comece pelo seu mind set. Isso sim é difícil. O resto é fichinha.

E se você pensou, porra, cheguei até aqui para ver este cara citar esse clichê do Gandhi? Bom, não fique bolado, posso tranquilamente finalizar com alguma frase de efeito do Paulo Coelho.

;)