O discurso da política contemporânea

Precisamos de mais verdades

Pareceria épico se eu iniciasse o presente texto discorrendo sobre um mito de tempos remotos. No entanto, eu prefiro o cotidiano, típico assunto da crônica. O que tenho visto demanda, ainda assim, que retornemos alguns séculos. Uns 25, para tentar ser minimamente preciso. Naquele tempo, os oradores se dividiam entre sofistas e socráticos.

Aqueles, dotados de um rebuscado e pomposo discurso, pretendiam apenas o êxito da abordagem. Estes falavam com propriedade, defendiam e praticavam a lógica. Em outras palavras, os sofistas usavam um belo conjunto de frases vazias, dando relevância ao desimportante, com vistas a desviar o pensamento do ouvinte e mantê-lo ao lado.

Já os socráticos prezavam pelo entendimento, queriam formar um grupo unido pela compreensão e pela razoabilidade. Se eu puder ser ainda mais sucinto, os sofistas persuadem sem se preocupar com a verdade perseguida pelos socráticos. Acredito que cheguei aonde queria.

Quando me vejo perante um discurso político brasileiro de qualquer ordem, penso ser eu um socrático defronte de um sofista. E antes que o leitor traga à tona a primeira forma de defesa política, qual seja, a minha classificação na direita ou na esquerda — discussão esta que pode, inclusive, ser facilmente utilizada para os propósitos sofistas, esgotando o tempo do interlocutor –, afirmo com todas as letras, e despido de qualquer interesse, que me refiro à política brasileira indistintamente.

Nós, brasileiros, não gozamos de um minuto da segurança dos ensinamentos de Sócrates e de seus sucessores. Sempre paira aquela dúvida no ar. Permanecemos cidadãos perambulantes, ouvintes de discursos filtrados. A verdade nos falta. E ela está longe de compor com relevância a agenda e os programas políticos da situação e da oposição.

Seria maravilhoso se um dia lêssemos a seguinte manchete: “Políticos aumentarão o número de verdades”. Como também seria esplendorosa a campanha política que asseverasse: “– Lançaremos o pacote de verdades!”. Entretanto, e o mais importante dos fatos por nós tão ansiado, seria surpreendente se estas proposições fossem socráticas, e não sofistas como costumamos ver rotineiramente em nosso país. Se eu as presenciasse, desconfiaria.

Afinal, somente percebo sofistas quando recebo as mensagens no íntimo de minha casa, pelas janelas da televisão, pelos recados do rádio e pelas cartas dos jornais. Quantos séculos ainda precisaremos?