Iron Chef Japan

Gerhard Brêda
Nov 3 · 6 min read
Iron Chef Japan: O cult classic pronto para explodir

Hoje em dia é bem comum gostar de assistir programas de comida. Ainda que eu não seja o maior fã de Masterchef, talvez o carro chefe nesse gênero aqui no Brasil, eu assisti uma boa parcela desses programas, com as mais variadas premissas. Alguns eram absolutamente elevados, instigantes e criativos, como “Sem Reservas”, do Anthony Bourdain, ou até mesmo o brilhante “Larica Total”. Outros, como quase todas as produções da Food Network, por exemplo, são bem mais estúpidos e formulaicos, mas ainda assim divertidos. Em outra categoria está “Ryōri no Tetsujin”, mais conhecido como “Iron Chef Japan”. Produzido pela Fuji TV e exibido originalmente de 1993 a 1999, esse é o melhor programa de comida de todos os tempos e genuinamente uma das produções televisivas mais fascinantes que eu já assisti. Nesse zeitgeist de apreciação de programas de comida, Iron Chef está, mais do que nunca, pronto para se tornar um cult classic.


Iron Chef Japan, na superfície, não é diferente de muitos programas do gênero: uma disputa entre dois chefs profissionais que se desenrola em um espaço determinado de tempo, com um ingrediente temático por episódio e um painel de jurados que escolhe o vencedor. Esses elementos, inclusive, foram transferidos para a (inegavelmente inferior) versão americana do programa, produzida pelo Food Network. O trunfo do programa está na incrivelmente carismática localização em inglês — competente, mas com algum nível de tosqueira charmosa — que, sobreposta aos elementos culturais japoneses do programa original, elevam a simples competição culinária a um misto de cobertura esportiva com anime.

Muito disso vem da interação entre a equipe de transmissão, formada por Kenji Fukui (dublado brilhantemente por Bill Bickard), o narrador, e Dr. Yukio Hattori (Scott Morris), o comentarista técnico. Fukui San, como é mais conhecido no programa, é quem dita o ritmo frenético, com metáforas esportivas (geralmente beisebol) e pedidos de replay de cenas relevantes (como uma salteada no azeite ou algum prato saindo do forno), sempre interrompido pelo repórter de campo Shinichiro Ohta (Jeff Manning), que traz detalhes sobre o que está acontecendo na arena. A transmissão ainda conta com dois dos convidados que, ao fim do episódio, integrarão o júri que decide o vencedor, e é em geral composto por políticos, artistas e outras figuras da sociedade japonesa, com o ocasional estrangeiro, como a atriz francesa Julie Dreyfus.

Chen Kenichi, o chef chinês, com seu tradicional uniforme amarelo e um ajudante da Kitchen Stadium

Com o passar dos episódios, é fácil captar algumas piadas ou comentários recorrentes, como Fukui demonstrando que é um sujeito da classe trabalhadora e sempre torcendo para sobrar alguma coisa para ele comer, ou alguns convidados abertamente zoando cortes no orçamento do programa ao menor sinal de algo sair do esquadro, um comentário que se torna ainda mais hilário considerando que o programa é marcado por uma agressiva opulência, com os chefs usando e abusando de lagostas, trufas, barbatanas de tubarão e toda sorte de ingrediente caríssimo para o preparo de seus pratos.

Outra característica única é a presença de trama, uma espécie de lore que contextualiza a disputa culinária e que é distribuído ao longo dos episódios, criando uma dimensão dramática absurdista que não tem pares nesse tipo de programa, geralmente limitado a um formato competitivo com elementos de reality show. Em Iron Chef, um gourmand obcecado com a busca de novos sabores e novas fronteiras para a culinária japonesa, Takeshi Kaga (o único personagem que não é, na maior parte dos episódios, dublado em inglês, algo extremamente peculiar), funda a Gourmet Academy e contrata um grupo de chefs, com várias especialidades e uniformes de cores diferentes, praticamente os Power Rangers pilotos de fogão, e desafia outros chefs a uma batalha pela honra da vitória na arena conhecida como Kitchen Stadium. Chairman Kaga, como é conhecido no programa, geralmente apresenta o ingrediente temático, participa da degustação (algumas vezes com comentários hilariantes, mas sem voto na hora da decisão) e anuncia o vencedor de cada episódio com um discurso curto, mas sempre estranhamente épico, considerando as circunstâncias.


Por último e, talvez, mais importante, os próprios Iron Chefs são fundamentais para o formato. Originalmente um trio, (Rokusaburo Michiba, especialista em culinária japonesa; Chen Kenichi, especialista em culinária chinesa; e Yutaka Ishinabe, especialista em culinária francesa), os Iron Chefs receberam reforços e baixas com o passar do tempo, com destaque para Hiroyuki Sakai, também conhecido como o Delacroix da cozinha francesa, substituto de Ishinabe a partir da primeira temporada e Masaharu Morimoto, um jovem chef japonês que ajudou a popularizar o sushi em Nova York no final dos anos 80, trazendo ao programa um elemento muito forte de desafio às tradições da culinária japonesa.

Morimoto, Sakai (em um uniforme diferente do normal), Kaga, Kenichi e Masahiko Kobe, o mais jovem dos Iron Chef, especializado em culinária italiana

A personalidade dos Iron Chefs era construída a cada episódio. Michiba, o chef japonês mais velho, tinha um comportamento mais rabugento. Já Morimoto, bem mais jovem e com uma visão ocidentalizante da culinária japonesa, era mais ousado e arrogante. Além disso, tal qual em um jogo de luta ou anime shonen, cada um tinha um punhado de técnicas lendárias, usadas com extrema frequência e devastadoras. Kenichi, filho de Chen Kenmin, um lendário chef chinês que atuou no Japão, não pensava duas vezes antes de usar uma famosa receita de camarões picantes do pai para conquistar o juri, enquanto Sakai, fazendo jus ao apelido, era especialista em coloridas composições para os pratos, levando em conta não apenas os ingredientes e molhos, mas também uma grande variedade de louças.


Mais do que uma disputa por um prêmio ou uma batalha com espírito de competitividade, típica dos realities culinários norte-americanos, Iron Chef Japan conseguia aspirar a algo maior que isso, por mais esquista, brega e datada que seja sua apresentação. A trilha sonora, hilariamente épica, ajuda a criar um universo onde realmente parece que a honra dos chefs está na linha, por mais amistosa que seja a disputa. Em um dos episódios, após algumas derrotas consecutivas dos Iron Chefs, Kaga abandona seu posto e, lá pelas tantas, é visto se esgueirando nas sombras (lurking in the shadows, no original), para verificar a performance de seus guerreiros de perto, um exemplo de como a trama, por mais estapafúrdia e esparsa que seja, contribui para o ritmo do programa.

Iron Chef Japan chegou a ser exibido no Brasil, muitos anos atrás, pelo canal Sony, mas sem fanfarra, sendo exibido em diversos horários na programação. Precedeu o timing, já que alguns anos depois os programas de culinária se tornariam um fenômeno nas redes sociais. Gerou, como disse acima, uma versão americana, Iron Chef America¹, que, apesar de contar com Morimoto no elenco e uma pequena ligação na trama (o apresentador, interpretado por Mark Dacascos, seria sobrinho de Takeshi Kaga), que, apesar de emular o formato, jamais alcançou o charme do original, sendo mais uma produção enlatada da Food Network. No Youtube, você consegue achar boa parte dos episódios, uma evidência do status cult do programa, já que, nos últimos 10 anos, eu já vi vários canais diferentes armazenando e tentando preservar a maior parcela deles possível na plataforma.

Se você chegou até aqui e nunca assistiu Iron Chef Japan, eu agradeço e espero que você dê uma chance ao programa. Se você é um fã e, por algum milagre SEO, aterrisou nesse texto, eu o saúdo. Você não está sozinho e esse texto é pra você. Allez cuisine!


¹ Antes de Iron Chef America, o canal UPN lançou, no fim de 2001, Iron Chef USA, com William Shatner como o Chairman da Kitchen Academy. Essa encarnação durou apenas dois episódios, mas é uma adaptação muito mais divertida do original japonês, compreendendo o elemento de transmissão esportiva que sempre fez parte do programa. Shatner é uma escolha perfeita para o papel, por mais insano que isso possa parecer, e brilha com comentários alucinados, como quando apresenta o Iron Chef especializado em culinária asiática como o “samurai of the stir fry” e o chef italiano como “Italian scallion”. Não supera o japonês, mas é esquisito e interessante. Se quiser conferir:

Gerhard Brêda

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É simples: Eu só não aceito a estupidez humana. Nem a minha própria.

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