Esqueça essa confusão de esquerda e de direita. Escute o Papa! OU Nem capitalismo, nem socialismo. Só a natureza pra salvar a política.

(Papa Francisco e Ban Ki-moon — Secretário Geral da ONU)

Atualizado em 30 de junho de 2015

Você sabia que já estamos pra lá da segunda metade da década? É verdade. Já faz quase 200 anos que a revolução industrial invadiu a rotina dos trabalhadores europeus e se disseminou pelo mundo.

Os avanços tecnológicos advindos da revolução industrial afetaram diretamente a vida da população do século XVIII e XIX. Enquanto a sociedade burguesa de classe média começou a ter um maior espaço de crescimento econômico, a classe trabalhadora sofreu, e ainda sofre — Engels explicita minunciosamente as condições de vida do proletariado inglês no meio do século 19.

Mas os "avanços" não pararam por aí. A revolução industrial possibilitou também o desenvolvimento de teorias políticas e econômicas que até hoje são responsáveis por confusões pequenas, médias, grandes, e gigantescas:

· Pequenas: criam discussões no nível papo de boteco sem fundamento algum. Sobre ser a favor ou contra o programa Bolsa Família, por exemplo — não que essas discussões não tenham importância, estou falando aqui das superficiais. Sem embasamento.

· Médias: responsáveis pelo fim de amizades — que nunca foram amizades verdadeiras, porque se fossem não teriam terminado.

· Grandes: capazes de levar populações a manifestações nas ruas e/ou capazes de causar desinteresse político nos jovens.

· Gigantescas: capazes de causar conflitos políticos em uma nação, ou no mundo — Veja essa!

Pra evitar mergulhar em teorias políticas e econômicas sobre esquerda e direita, recomendo que você assista esse encontro de Marx e Adam Smith simulado pelo EJA alguns anos atrás (ou então que vc Leia "O Capital" e "A Riqueza das Nações").

Em seu pronunciamento de ontem no Senado Federal, o senador Cristovam Buarque disse que a esquerda precisa se encontrar. Mas não é somente no Brasil. De acordo com o Senador "a esquerda está muda". Destaco os seguintes pontos da fala do Senador: "A crise de mudez é muito mais profunda do que o que está acontecendo com o governo. (…) Temos que trazer um discurso novo, em defesa do público. Seja em mão privadas ou em mão estatais. (…) A esquerda hoje é anti-povo. Não é contemporânea. Não está sintonizada com o novo. (…) Não temos mais como continuar crescendo com o consumo desvairado vendendo mais automóveis que é possível colocar nas ruas". Paro aqui! Se você quiser assistir o discurso do Senador se liga no link.

O Papa Francisco, publicou recentemente a sua segunda Encíclica Papal e, de forma divinamente racional, descreveu os problemas que a nossa sociedade deveria se debruçar sobre — muitos dos quais a direita e a esquerda fingem resolver. O Papa falou de tudo o que importa em nossas vidas, mas não damos a devida importância— pelo menos quando tentamos nos posicionar em relação a problemasa cotidianos embasados com argumentos de esquerda e de direita.

Sabe qual a coisa mais importante para a vida? O ar. Sem ele morremos em alguns minutos.

Sabe qual a segunda coisa mais importante para a vida? A água. Sem ela morremos em alguns dias.

Sabe qual a terceira coisa mais importante para a vida? Alimentos — de qualidade. Sem eles morremos em mais uns dias — ou então adquirimos diabetes, cânceres, obesidades, … , bleh.

O Papa falou da importância da biodiversidade, e escreveu sabiamente:

“É preciso investir muito mais na pesquisa para se entender melhor o comportamento dos ecossistemas e analisar adequadamente as diferentes variáveis de impacto de qualquer modificação importante do meio ambiente. Visto que todas as criaturas estão interligadas, deve ser reconhecido com carinho e admiração o valor de cada uma, e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros. Cada território detém uma parte de responsabilidade no cuidado desta família, pelo que deve fazer um inventário cuidadoso das espécies que alberga a fim de desenvolver programas e estratégias de proteção, cuidando com particular solicitude das espécies em vias de extinção.”

E ele não parou por aí. Foi direto na espinha dorsal do discurso político — da esquerda e da direita. Falou do crescimento descontrolado das cidades, dos problemas de mobilidade e transportes, da privatização dos espaços públicos. Falou da exclusão social das populações mais pobres e do crescimento da violência. Assim como fez Thomas Piketty no livro “O Capital no Século XXI”, o Papa escreveu que o crescimento dos últimos 200 anos, “não significou um progresso integral e uma melhoria da qualidade de vida”. O Papa reforçou o argumento que Schumacher apresentou em “O Negócio É Ser Pequeno (1973)”, Meadows publicou em 1972 com "Limites para o Crescimento", e o Senador Cristovam Buarque defendeu em seu livro “A Desordem do Progresso”.

O Papa falou do problema das dívidas externas, “que tem se tornado instrumentos de controle” sobre os países em desenvolvimento, e claramente separou os resultados negativos do forte aumentos populacional com os resultados advindos da fome por crescimento econômico. Diretamente relacionada ao crescimento do consumo exacerbado.

A busca pela riqueza ainda governa os valores individuais, comunitários, locais e globais. E estamos nos destruindo. O homem parece que se esqueceu que ele é fruto da natureza. (Sério?) Somos fruto da evolução das espécies. Somos puramente feitos e moldados pela natureza. E agora estamos tentando dominá-la. Estamos tentando dominar a nossa origem. Se em algum momento conseguirmos dominar a natureza, estaremos perdidos.

De acordo com a Encíclica Papal: “Não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada.”

Sabe qual é o pior? Não estamos reagindo. E nem adianta tentar achar a resposta em partidos de esquerda. Nem na “esquerda” democrata americana do Barack Obama, nem na esquerda — high growth — chinesa de Xi Jinping. Nem na “esquerda” liberal do Brasil, e muito menos na “esquerda” negociadora do Syriza — mesmo que os discursos do Varoufakis tenham sido os mais bonitos da história das reuniões do eurogrupo [ERRATA! Depois do calote de hoje da Grécia no FMI, talvez possamos remover essa parágrafo daqui]. Nem preciso falar da direita imperdoável que vai expremer dos gregos todo o suor dos trabalhadores em prol de financiamentos de dívidas a longos prazos, para que o retorno dos investidores não se perca.

A questão não é mais política. A política hoje está sendo sugada pelo aspirador econômico, e não se fala mais de política sem falar de crescimento econômico. Os problemas ambientais e sociais que estamos vivenciando, são terciários. Longe da nossa lista de prioridades.

Ah, mas quem vai dar importância para isso que eu estou escrevendo aqui? Afinal de contas, isso é conversa de esquerda. Não, amigos. Nem de esquerda, e nem de direita. É papo do Papa.