Os acasos da vida

Esse texto explica um dos motivos pelos quais eu adoro andar de transporte público. Ele nos conecta com a sociedade.

Depois de perder um jogo de futebol nos penâltis em um domingo as 11:30 da noite, um amigo me deu uma carona até a estação de metrô. Cheguei na hora certa. A hora que desci as escadas, o trem da linha vermelha se aproximava da plataforma. Entrei no vagão que estava na minha frente, e sentei ao lado de um senhor latino com um balde cheio de rosas. Brancas, vermelhas e rosas. Estranhamente, o trem esvaziou. A simpatia que emanava o rosto do senhor me forçou a puxar assunto. Hablamos na língua da América Latina, espanhol — pra mim, o português e o espanhol são línguas providas de um sentimento difícil de descrever. Percebemos que o trem estava parado, e vazio. Nisso, o condutor entrou e nos avisou que teríamos que pegar o ônibus.

Apesar de ser um domingo, 11:30 da noite, confesso que naquele momento, eu não tinha nenhuma pressa. Eu estava feliz com a companhia de Abel. Subimos pacientemente a escada rolante. Ele me disse que morava em Los Angeles. E vender flores era um dos trabalhos que ele tinha, dentre outros pequenos trabalhos. Mora sozinho. Em um quarto na mesma casa que mora a irmã. Me disse que estava vendendo flores no domingo porque acabou comprando demais. Precisava acabar com o estoque antes que as flores murchassem.

Ele perguntou de mim. Compartilhei a minha vida também. Depois de responder a suas perguntas, não pude conter o meu interesse. Ele me disse estar aqui nos EUA por 30 anos. E que fracassou na vida. Disse que perdeu os melhores anos da sua vida, e não conseguiu construir uma vida completa. Não construiu uma casa, não casou e não teve família.

Abel me disse que vive hoje com 300 dólares pelo aluguel de seu quarto, 50 dólares para a eletricidade, paga também o celular e a comida. Gasta por volta de 450 dólares por mês. Ele sorriu, e me disse que era feliz. Me disse que apesar de não ter tido uma vida de sucesso, o melhor dia é o dia de hoje. Estranhamente, senti que o amor que trocamos através de palavras não eram suficentes, e decidi dar o que eu tivesse na carteira pro Abel. Dei a ele os meus dois dólares, e ele pediu pra eu escolher uma flor. Depois de eu escolher, ele me disse que eu deveria escolher uma mais bonita. Colocou a flor de volta no balde, e me deu uma que ele escolheu.

Fui embora pra casa pensando nas pessoas que vi em Nova Iorque comendo refeições que poderiam pagar pela vida do Abel por um mês, e que muitas vezes não são felizes como o Abel.

Como disse Mujica, no filme Humans (2015): "Ou você é feliz com pouco, ou não é feliz nunca."