Reflexão: zuL — em busca do novo nível

Texto-embrião do Projeto zuL.

Quarta-feira. 23 de agosto de 2017. Eu, Gersiney Santos, homem preto, analista do discurso e doutor, respiro fundo e dou mais um primeiro passo para novas universidades. Sou de Aracaju, Sergipe, vivo no Brasil. Sentindo todas as circunstâncias de ser um jovem adulto — para alguns, um millennial, um representante da Geração Y, o que seja… — em um país da América Latina cheio de particularidades, em uma cidade que precisa ser (re)pensada.

Pensando em como dar início a este texto — que será longo… um famoso ‘textão’ — , considerei não voltá-lo a mim, mas, percebo, é impossível. Afinal, tudo é sobre mim, tudo é sobre você, que me lê neste momento: tudo é sobre nós. Tudo somos nós. Tudo. Nós.


Falar sobre “nós” é, portanto, aspecto central do que este texto prenuncia. Este é uma espécie de convite, de chamamento. Lembro-me que, por ocasião de um evento sobre cultura, educação e arte, ouvi, certa vez, de Ellen Oléria uma fala forte sobre o quanto é preciso colocar-se disponível para o saber, para conhecer cada vez mais. Nós todos, assim, por meio dessa possibilidade, poderíamos chegar ao que entendi como uma espécie de novo nível, reorganizar a realidade, dentro de cada limite, obviamente. O foco, assim, em minha interpretação da fala, deve ser não nos limites — apesar de ser extremamente necessária encará-los -, mas nas possibilidades: um não se calar, que passa por diferentes níveis, resvala em determinadas esferas e consolida-se na ação propriamente dita (e feita). Nós, povo, a quem é constantemente demonstrado um mundo tão simulado, precisamos acessar informações outras e, para além disso, comunicá-las, expandi-las.

O parágrafo anterior mostra-se familiar. Muito provavelmente, você já deve ter ouvido que precisamos agir. Neste tempo de estratégicas polarizações, os polos ação versus silêncio também precisa ser constantemente relembrada. ‘O mundo está uma &%#$’, mas o que estamos fazendo em relação a ele? Há que repetir: as coisas não são desconectadas, tudo o que se faz (ou não se faz) implica resultado(s). A proposta é refletir… fazer… buscar resultados…

Este texto introduz a minha reflexão sobre o que seria a ação (tanto, tanto mencionada). Começo pelo que considero fundamental, o que tem a ver com uma proposta de filosofia, dita há tempos: o conhecimento é o maior tesouro que existe, tomemo-lo, pois, para nós e, avancemos; compartilhemos esse desenho, essa janela para o novo nível. Muitos/as de nós têm refletido sobre isso:

“Ir atrás do saber era, para mim, liberdade, o direito de declarar a própria curiosidade e procurar satisfazê-la em todos os tipos de livros. Eu era feito para a biblioteca, não para a sala de aula. A sala de aula era uma prisão, para os interesses de outras pessoas. A biblioteca era aberta, sem fim, livre”

Quem fala isso é o jornalista norte-americano Ta-Nehisi Coates, em seu livro “Entre o Mundo e Eu”. Eis, então, uma dessas possibilidades: a leitura, o conhecimento eternizado na palavra. Como disse, ler é um dos exemplos para mudar. Ainda assim, ler por ler não se estrutura para o que entendo por Ação — não, se o conhecimento não toca a vida que a gente vive, e aquela que a gente desconhece também.

Eu e você vivemos em uma comunidade há muito encantada pelo efusivo, pelo rápido e pelo espetacular: todos/as nós, desde aquele smartphone que acabou de ser lançado (e eu pareço querer desesperadamente comprar) até mesmo aquele protótipo de ser social que é defendido como ‘maravilhoso’. Sim, somos afetados/as porque não se trata simplesmente dizer que acha errado, injusto, bobagem; tais coisas são bombardeadas desde a hora em que despertamos até a hora em que deitamos. Assim, cabe aceitar que as coisas, mesmo sendo estranho, são. Entretanto, aceitar que as coisas são de determinado modo não nos isenta de refletir sobre elas, pois, assim como somos afetados, também afetamos nosso entorno com o silêncio (inclusive) frente a essas coisas. Elas — ainda que expressamente negadas — passam a constituir nossas mais diversas visões de mundo.

Foto: Bruno Pinheiro

Veja, querido/a leitor, eu mesmo, falo afetado pela perspectiva do discurso, da Análise de Discurso Crítica (a ADC), uma abordagem que conheci há cerca de sete anos e que me fez entender que a linguagem não é brincadeira: os textos (escritos, visuais, musicais etc.) influenciam diretamente nosso modo de vida, de percepção e ação diante dos aspectos que compõem nosso dia a dia, nosso mundo social. Assim como entendi em algum tempo de minha vida, boa parte de nós sabe: eu quero “desesperadamente” o aparelho porque alguém me convenceu de que aquele objeto é essencial para minha vida ser mais (mesmo que seja em um momento exato dela); assim como a ideia de ‘maravilha’, de ‘beleza’ e de ‘possibilidade’ também me foram ensinadas.

Quando percebo que uma mulher negra de minha família diz que Bruna Lombardi é maravilhosa e não fala o mesmo de Zezé Motta, quando ambas aparecem no mesmo dia na televisão, eis um exemplo do que já sabemos, mas que ainda se perpetua. Convém, portanto, repetir: somos ensinados a entender determinada coisa como ‘boa’ ou como ‘fundamental’, em contraposição a outras que não são definidas assim. A língua(gem) constitui essa formação. E, acredite, tudo isso passa pela linguagem — mais especificamente, pelo discurso — , uma vez que ela regula e permeia as práticas sociais, ou seja, as relações que construímos com as pessoas a nosso redor, dia após dia.

Cabe dizer que também sou afetado por uma visão decolonial do mundo. O que seria tal visão? Em linhas (bem) gerais, ela faz parte de uma reflexão sobre desconstrução de modelos e estruturação de redes; é uma orientação para repensar as teorizações que estabelecem povos fora da Europa (e de países economicamente privilegiados) como necessários de uma voz que não a deles próprios. Assim, a proposta decolonial tem a ver inclusive com protagonismo, e esta é uma palavra que, por sua vez, tem a ver conosco: temos voz, podemos usá-la em primeira pessoa, e vamos cada vez mais fazer isso. Eu desejo demais por em prática uma noção de protagonismo que, hoje em dia, nomes como Marco Antonio Fera (e seu canal no YouTube “Pretinho Mais Que Básico”) tem lindamente desenvolvido em seu espaço. Não farei, aqui, uma explicação intensiva da Decolonialidade, mas — assim como acontecerá com a ADC — trarei o que, de fato, interessa ao propósito do Projeto que tenho em mente: senhoras e senhores, estou pensando no Projeto zuL.

Projeto zuL logotipo

O Projeto zuL está conectado com hoje, com o novo nível, como novo dia, o dia depois do dia da injustiça. As discriminações e as violências, muitas vezes, estão associadas à ignorância, a uma manipulada falta de conhecimento; assim sendo, a mudança sempre pode ser incentivada: é preciso, ou melhor, é urgente o reforço para a busca pelo conhecimento, pela percepção crítica referente ao mundo em que vivemos. Mostrar que existe em todos/as nós uma película opaca cultivada cuidadosamente em nossos olhos: coberta dessa forma, nossa visão vislumbra formas e tende a aceitar certos moldes como os representantes da realidade.

A realidade, entretanto, não pode ser encaixada, ela é ampla, espalha-se e alcança espaços inimagináveis. A possibilidade de expansão faz parte da constituição essencial de nós, homens e mulheres de vozes sequestradas neste País. Isso é lindo. Isso também é perigoso, para alguns, é bastante perigoso.

O Projeto zuL, então, vem com essa proposta. E volta-se para quem somos, pelo que representamos como força, pelas vozes todas que carregamos conosco e que nos constituem. O Projeto zuL vai além de mim: quer-se coletivo, aberto a quem vê na representação uma maneira apropriada de sentir sua força no mundo; ele quer-se uma plataforma para vozes e olhares críticos sobre o mundo onde vivemos; ele quer-se um espaço no qual nos ergamos a fim de expor para o mundo a beleza que existe e pulsa; ele quer-se uma possibilidade de, mesmo não fechando os olhos para as injustiças, focar nos aspectos positivos de sermos quem somos; além disso, quer-se uma força a mais no fortalecimento do novo nível de acesso a um Novo Tempo.

Bem, este é o texto introdutório do zuL, deste espaço, do trabalho nas mídias, nas redes; os próximos passos — assim como as próximas ações — estarão alinhados com o que penso para o Projeto. Ele começa com minha voz, mas é polifônico, ele busca mais, uma vez que estão por aí. É um convite à formação de um novo coro, um de alto nível, que ruma ao novo nível.

Interessou-se? Entre em contato no Facebook, no Twitter e no e-mail: zulprojeto@gmail.com.

Estamos juntos/as.

Seguimos!