[conto] abismo

- força! não solte a minha mão! não solte!

desesperada, ela gritava. o calor assava suas costas. sentia a aspereza da montanha rasgando seus músculos. deitada na pedra quente, à beira do abismo, segurava com força a mão dele.

olhava e não via o fundo: apenas escuridão. enquanto ele a encarava calado e segurava a mão dela frouxamente, como num passeio no parque.

não conseguia se lembrar de como foram chegaram à montanha e naquela situação absurda. por que ele estava ali, pendurado, à beira da morte? o que faziam naquele lugar, vazio? a indiferença dele a irritava, o que fazia com que gritasse cada vez mais alto e com raiva:

- não larga a minha mão, porra!

resistir havia se tornado impossível. seu braço não suportaria o peso dele por mais tempo. os dedos escorregavam por causa do suor.

- não aguento mais… - disse ela, ofegante e com voz embargada.

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ele abriu os dedos e soltou a mão dela; deixou-se cair, sem mudar a expressão, enquanto ela desabava num choro convulsivo. viu-o sumir nas trevas do abismo… e acordou, soluçando como criança.

havia perdido as contas de quantas vezes esse pesadelo maldito havia se repetido. no último ano estava cada vez mais frequente. sempre acordava assustada e encharcada de suor e lágrimas. tateava os lençóis em busca dele. e, quando achava, agarrava-o e colava o ouvido ao seu corpo para ter certeza de que respirava. a oscilação suave do tronco e o ronco baixo e leve tranquilizavam-na e faziam com que adormecesse de novo.

quanto a ele, mal se mexia. por mais que ela o abraçasse e chorasse, que secasse as lágrimas em seu corpo, suas reações não passavam de um ligeiro resmungo ou uma coçada. nada mais.