[conto] o pacto

o novo prefeito, dr. vinhaes, havia feito gorda doação para a paróquia, em ação de graças. promessa de campanha que cumpriu com zelo porquê a deus e aos santos não se engana. e, por conta do donativo, a igreja estava linda: toda pintada de azul e com bancos novos. cheiro bom de madeira! nos seus pedestais, os santos pareciam sorrir, pensando nas danças e comidas da festança: a quermesse ia ser boa!

e tem quem diga que nosso senhor não gosta de festa. ora, como não havia de gostar, logo ele que tornou água em vinho? gostava demais! e as gentes da cidadezinha também. ainda mais festa de igreja, feita dentro dos respeitos a deus.

foto: gerson c (2014)

quem não parecia animado era o zeca, moço bom, respeitador e trabalhador. seu nico, pai do zeca, é quem tinha feito o filho desgostar de comemoração. entre uma pinga e outra no balcão da vendinha, anunciou para quem quisesse ouvir que o filho era o melhor tocador de viola da região. com tanto elogio, o padre jeremias, que estava ali pra tomar um aperitivozinho pra abrir o apetite e esquentar o peito (recomendação do dr. vinhaes, “santo homem!”), resolveu que o zeca tocaria na festa.

talvez fosse pelo nervoso; ou talvez zeca não fosse tão bom como o pai dissera (pecado nenhum!): o que sucedeu foi que ele não tocou nada direito. errou na afinação e nas modas e ninguém dançou. quando a festa ia pro fim, antes dos caldos e da cachaça, ramiro e joão apareceram. não eram da cidade mas, como muitos ali, chegaram para as comemorações. não demorou e ramiro estendeu a viola na altura do peito enquanto seu irmão dedilhava manhosamente a sanfona. subiu poeira como há muito não se via. na ocasião, foi dito que até o padroeiro saiu da igreja e dançou, misturado ao povo. depois disso, zeca amuou. escondeu a viola e era visto apenas no armazém do pai, a carregar sacos e empilhar caixotes, sempre calado. à missa, quase não ia mais.

mais perto perto do dia da festa, chegou por ali o petrônio, revólver na cinta e muitas mortes nas costas. sempre que aparecia num lugar, alguém morria de morte matada. nos anos de eleição era fácil adivinhar o defunto. mas dr. vinhaes ganhou com muitos votos e honestidade. médico jovem e caridoso, caiu logo nas graças do povo. não se via motivo pro pistoleiro estar ali.

foto: gerson c (2014)

petrônio entrou no armazém do seu nico e pediu uma dose. sempre de poucas palavras, encostou no balcão e, indicando o que queria com o gesto de indicador e polegar, foi logo atendido. uns fizeram o pelo-sinal. o homem alisou o cabo do punhal e disse, com voz rouca, de bicho:

- cês fiquem nos seus lugares e bebam em sossego. vim pra festa e só.

deu notícias das outras partes e disse quem havia vencido a política nos arredores. comentou ainda, com seu vocabulário pobre, que a quermesse era aguardada. tudo por causa de um tal zeca violeiro. zeca, que juntava umas mercadorias num canto, engasgou. levantou, timidamente, o pescoço, pra ouvir melhor; sentiu um fogo na cara, o suor empapar a camisa. petrônio deixou uma nota grande no balcão e saiu.

zeca foi logo atrás e correu direto pra igreja. ia confessar e pedir a benção do padre jeremias: queria morrer de bem com deus. afinal, o tal pistoleiro só podia estar de troça com ele, que ia morrer por causa da vergonha do ano passado. logo na entrada, deu de cara com angélica. cabelos pretinhos, pretinhos, e olhos como grandes favos de mel. pertinho da boca pequena e vermelhinha, a pinta, delicada e perfeitamente circular, que tantas vezes tinha sugado a mente do zeca, como um buraco, passagem pra um mundo de perdições e sabe-se mais o que, tão desejados e assustadores que davam calafrios no pobre moço.

- oi, zeca! animado pra festa?

o coração acelerou. a boca secou. as orelhas arderam. e a cabeça pifou:

- tô animado demais! e prometo que juro procê que esse ano eu vou tocar de verdade e todo mundo vai dançar, queira deus ou não queira deus! com a sua licença!

e disparou porta afora, suando como tampa de chaleira, revendo a conversa e se maldizendo.

- zeca, seu besta, seu mula! isso é coisa que se diga? se antes a chance era nenhuma, agora é que perdi de vez… ah, boca aberta e sem-freio! bem-feito! e, ainda por cima, ofendi a deus… pois tô até vendo meu castigo: petrônio vai me matar! e agora por ordem de nosso senhor! ai, meus santos, me acudam…

foto: gerson c (2014)

no armazém, deu com o pai que conversava com uns fregueses. nem os cumprimentou. foi direto pro quartinho dos fundos, onde ficava a tranqueira. gostava de sentar ali, escondido, e conversar com o avô: abraçava o porta-retrato e desabafava pro velho sorridente na foto. homem bom! valente, honesto e trabalhador! cristão fiel, da melhor cepa! bom aconselhador e melhor ainda contador de piada e causo. gostava muito quando o avô contava a história de um moço que tinha conhecido há bastante tempo, quando tudo ali era mato. ruim de mira que só ele, mas bom, muito bom violeiro. ali, naquele fim de mundo, ou o sujeito era bom no tiro e ou bom tocador. e esse, quando pegava no instrumento, fazia a mata silenciar. os passarinhos paravam de cantar pra ouvi-lo. até o riacho desacelerava pro barulho da correnteza não atrapalhar. dizia o tal caboclo que pra tocar bem a viola, era só arrumar um galo preto, cozinhar o bicho vivo até os olhos despregarem da cabeça e oferecê-los pro coisa-ruim. em troca, o tinhoso ensinava a tocar. dizia o avô que esse tal tinha morrido morte muito feia: esfaqueado por um marido que o flagrou fazendo serenata pra sua mulher. com a garganta rasgada a faca, seu quase-grito era medonho, um barulho rouco e gorgolejante. sangrou até a morte e, como tinha feito pacto, não foi enterrado no cemitério. um arrepio correu a espinha de zeca. ouviu o pai chamar:

- parece que a história chegou pro petrônio meio atravessada. devia estar muito ocupado com a matação. ano de voto é assim, muito trabalho. e daí que ele não sabe que quem tocou a festa foram o ramiro e o joão.

- pois que esse ano vou ser eu, pai. o senhor e o povo da cidade vão ver!

seu nico olhou pro filho, com um meio sorriso. botou a mão sobre seu ombro e o abraçou. zeca perguntou:

- a história do moço que fez pacto, a que o vô, que deus o tenha em bom lugar, contava: é de verdade?

- seu vô era chegado numa história e numa cachaça. num sei. pelo sim, pelo não, acho que parte dela é verdade.

- que parte?

- uai, o tal caboclo conquistou sua mulher cantando moda na janela. mas até onde sei, ele morreu de doença no pulmão. nada com faca.

- então era bom violeiro?

- dos melhores. tanto que…

zeca não deixou que o pai terminasse e se encaminhou pra porta da rua.

- vai aonde?

- pelo sim, pelo não, preciso conferir se parte dessa história é verdade, pai.

e saiu.

lá foi zeca atrás de galo preto. pulou muros de quintal e, por pouco, não foi visto. não achava o bicho. como ia fazer? quase chorando, viu uma galinha d’angola. “vai que serve”, pensou, e enfiou-a num sac. na igreja, rezou e rezou e rezou. os santos pareciam virar o rosto pra não vê-lo. os anjinhos nas paredes pareciam reprova-lo. pediu perdão aos santos, mas ia precisar de um reforço. nem que fosse vindo de lá de baixo.

- nosso senhor me perdoa, mas até o senhor teve que ter seu contato com o coisa-ruim…

em casa, esperou o pai dormir e preparou a pobre galinha. deixou-a na panela e enfiou os olhos no bolso, dentro dum saquinho de tecido. as pernas bambeavam, mas não podia desistir: foi.

embaixo de uma árvore, numa rua isolada, onde ficavam as casas das damas, zeca sentou e esperou, com a viola no colo. observou o movimento dos homens na rua. achou até que reconheceu alguns vultos. ficou com medo de ser visto, mas pensou “o que perco eu? sou jovem e solteiro. e já vi uma meia dúzia de casados”. meia-noite: nada de diabo. meia-noite e meia: nada… será que não vinha mais? será que estava ocupado? será que não existia? claro que existia! senão, quem teria tentado cristo no deserto? senão, pra que servia cristo? pra salvar os fieis do que, senão havia diabo? e não existia, os santos também não. e não via os santos na igreja, olhando pra ele? de repente, o maldito não veio porque não foi avisado do encontro. mas o avô nunca não falou nada sobre avisar…

mais pelo frio e pela fome do que pelo medo, resolveu ir embora. quando se levantou, viu um vulto. gelou. a mancha escura em forma de gente vinha na sua direção. zeca começou um pai-nosso engasgado, atropelando as palavras. a mancha era o petrônio. teve mais medo ainda. tremia tanto que mal conseguia sair do lugar.

- tá fazendo o que aqui menino? não sabia que ocê era desses que vinha pra esse lado de cá — riu, zombeteiro.

sua mente se iluminou: o trem-feio sempre aparecia com a cara de alguma coisa que tivesse medo. aquele não era o petrônio! era o capeta disfarçado!

- vim fazer pacto com o senhor.

- comigo mesmo é que não! me respeite, moleque!

- eu sei que o senhor é o diabo! se não é, anda perto dele…

petrônio fez um barulho, um resmungo…

- tô tão junto dele quanto qualquer outro. nessas minhas andanças vi muita gente que acende vela para santo mandar matar e encomendar missa pela alma do morto. eu só faço o serviço encomendado.

se não tinha pacto, não ia tocar. e se não tocasse, não cumpriria a promessa que fez pra angélica. chorou.

- seja homem! e o que tem no bolso?

- olho de galinha d’angola…

petrônio riu, a boca vazia de dentes e fedendo a cachaça.

- mas foi por isso que satanás não veio! se não for olho de galo, tem que ser rabo de cascavel! e cadê a galinha?

- na panela, lá em casa…

petrônio chegou perto. mas, bêbado e após carinhos de mulher, parecia menos ameaçador. apontou o dedo pra zeca:

- seu pacto é comigo agora. amanhã eu quero a galinha pra almoço.

- e como explico pro meu pai o senhor comendo na nossa mesa?

- do mesmo jeito que ia explicar sua vinda pra esse canto da cidade: te vira!

petrônio era bom violeiro. ensinou truques pra um zeca apavorado mas talentoso. quando se deram conta, o sol apontava. foram embora.

poucas horas mais tarde, petrônio apareceu no armazém. zeca o convidou pra entrar, mesmo com a cara de medo de seu nico. mas o homem disse que tinha desistido da festa e ia partir porque não se arriscava a ficar muito tempo perto de alguém que, na real, tinha coragem de fazer acerto com o demo. zeca fez uma matula com a galinha e deu a petrônio.

na noite da festa, a praça da igreja estava um mimo, com muitas bandeirinhas e fogueira. o cheiro das comidas era tentador. as maçãs do amor, vermelhinhas, brilhavam nos tabuleiros. o quentão fumegava e as crianças se lambuzavam com doces e corriam pra todo canto. por enquanto, só se ouviam os risos e os estouros de rojão. mas logo chegaram os músicos: zeca à frente, com roupas coloridas e muitas fitas presas à viola, em honra aos santos; logo depois, zabumba, acordeão, triângulo, violões. quando a música subiu e encheu ouvidos, as pernas não podiam mais parar. o povo dançava, pulava e ria, alegre, solto, satisfeito. como deveria ser da vontade de um criador tão bondoso. perdida entre o povo que dançava, estava angélica: os cabelos pretíssimos presos em tranças, a boca e a pinta. na mão, uma maçã.

zeca tocou como nunca havia feito. e quando parou para tomar alguma coisa e se esquentar, ramiro e joão, apareceram, sabe-se lá de onde. zeca não entendeu como aqueles dois sempre apareciam assim, de repente e no momento certo. aliás, nunca entendeu muita coisa acontecida naqueles dias. mas entendeu que era hora de tirar angélica para dançar e que devia uma doação para os santos e para cristo, nosso senhor. que, com certeza, estava ali também, transformando água em quentão e dançando.

foto: gerson c (2014)
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