crônica do 25 de março

foi há 20 anos: o sr. gerson soares partiu em sua última jornada. tinha iniciado sua travessia há pouco mais de 40 anos.
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antes dessa viagem, a definitiva, fez outras. mas a que possivelmente mais o marcou foi a que empreendeu ainda nos anos 1960. moço (“…também se chamava estrada”) deixou o sertão de minas. o chão duro e seco e vermelho deu lugar aos arranha-céus da cidade grande. trocou a fome sertaneja pelo medo urbano. encontrou outra sertaneja, também em travessia, e se uniram. dessa união brotamos meu irmão e eu.
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às vezes tenho a impressão de que o sangue que carrego nas veias é o misto das lágrimas desses dois retirantes com o pó das estradas. é tinto de terra, é salgado e ferroso, mineral mesmo, por conta do chão que pisaram. pra chegar a essa conclusão, precisei eu, também, fazer a minha viagem.
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era 2007. o sr. g. soares havia partido há 12 anos e eu contava 25. parti. juntei meus poucos trens e panos, uns livros e fui, no sentido oposto: enquanto o sr. g. soares partia do sertão em direção à cidade, eu ia da capital em direção ao sertão. por dois anos, uma cidadezinha mineira me acolheu. não sabia bem porque ia. apenas fazia a travessia, pro interior do estado. pro interior de mim. “sertão é dentro da gente”.

na primeira noite sozinho, cercado por quatro paredes nuas, eu olhei o céu limpo e estrelado. pensei em quantas vezes, o sr. gerson olhou aquele mesmo céu e tentou adivinhar seu destino. chorei. e pensei em quanto choro ele derramou antes de mim. naquele momento, eu entendi o sr. gerson soares. fomos, num curto instante, o mesmo homem. dividimos os mesmos medos e esperanças.
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após dois anos pisando a terra ancestral, comendo a alface que meus alunos e eu plantamos e colhemos no quintal da nossa escolinha, voltei pra belo horizonte. a cidade me recebeu bem. mas trouxe comigo um silêncio, um “banzo”. olhar pra dentro de si é perigoso. “viver é muito perigoso”. descobri coisas.
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o homem a quem chamei de pai está morto há 20 anos. mas o pai simbólico vive. é presente na memória e na experiência, presente na minha formação como homem. partilhamos o nome. o sangue. partilhamos a travessia.

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