Acabou a crise, continue trabalhando (até morrer!)

Parte dessa escrita iniciou hoje, durante uma aula sobre relações de trabalho. Estava ali, tentando digerir o que vem acontecendo nas últimas horas, dias, meses… Imersa nos meus pensamentos e sentimentos, um pouco perdida. Enquanto a professora explicava como se fazia diagnóstico organizacional, me surgiram várias perguntas. A primeira, diante do cenário brasileiro atual, era como lidar com o que virá nos próximos dias, meses e anos após esse golpe hoje sofrido. Dentre tantos desmanches que o governo — antes interino, agora assumido ilegitimamente — já realizou (há pouco, conversando com uma colega, descobri que o Disk 100, aquele para onde eram direcionadas todas as denúncias de violação de direitos, negligencias, maus tratos, etc., foi misteriosamente extinto), me ocorreu que as relações de trabalho (o tema da aula em que me encontrava apenas de corpo presente), já tão complicadas historicamente, vão sofrer talvez o maior de todos os golpes: a dominação de um modo de governar, política e economicamente, neoliberal que culminará na provável retirada de boa parte dos direitos trabalhistas conquistados com muito sangue, suor e lágrimas.

São tantas as perguntas que me ocorreram e ficaram entaladas na garganta, que é quase impossível colocar em palavras. Mas é por isso que escrevi isto no bloco de notas do celular, durante a aula. E não estava conversando no WhatsApp. Estava me questionando de que vale aprender sobre as relações de trabalho se, muitas vezes, na própria sala de aula, no processo de aprendizagem de um exercício profissional, somos silenciados. Se em nossos próprios locais de trabalho somos silenciados. Por sujeitos com pouca disposição ao diálogo. Nos dizem que precisamos falar, que não devemos ficar quietos. Mas quando nos colocamos a falar, nos ignoram. E mal sabem o esforço que é reunir as palavras e forças necessárias para dizer do que nos incomoda, do que nos causa dúvidas. Mais esforço ainda para reconhecer e entender o que nos incomoda. Porque, na maioria das vezes, a angústia é indizível.

Voltando as indagações, me pergunto: como a Psicologia (profissão que escolhi e na qual estou prestes a colar grau) vai escutar os sujeitos que chegarão nas salas das organizações de trabalho, nos consultórios, nos CAPS* e CRAS** (se ainda existirem num futuro próximo, é claro), nas escolas, hospitais e em tantos outros campos de trabalho dxs psicólogxs? Diante dessa realidade sombria, vai escutá-lo com sua neurose, psicose, ideação suicida, compulsão, individuais? Ou irá compreende-lo conectado a uma série de aspectos, num contexto em que estamos inseridos e somos produzidos por forças econômicas, políticas, ideológicas, sociais, históricas, territoriais, psicológicas… objetiva e subjetivamente?

No último dia 29, uma família foi encontrada morta no Rio de Janeiro. Na notícia, a suspeita de que o homem assassinou a esposa e os filhos e teria cometido suicídio em seguida. O motivo: instabilidade financeira e desemprego. O sujeito deixou uma carta perturbadora afirmando suspeitar de sua possível demissão. Esse caso me lembrou um outro ocorrido em 2009, aqui na cidade vizinha, Novo Hamburgo/RS. Uma mulher, empresária, assassinou o marido, a irmã e a sobrinha e tentou suicídio. O motivo? Dívidas e insustentabilidade financeira. O que ambos os casos têm em comum? O temor da falência, da demissão. A ruína financeira. Quantas questões envolvidas… a concepção patriarcal do “provedor familiar” (ainda que, no caso da empresária gaúcha, tal lugar fosse ocupado por uma mulher), a centralidade do trabalho na vida dos sujeitos em nossa sociedade, o temor a instabilidade econômica, para citar algumas.

A quem serve esse medo? Quem se beneficia desse sofrimento que leva sujeitos — aparentemente tranquilos, adoráveis e bem sucedidos — ao assassinato e suicídio? “NÃO PENSE EM CRISE, TRABALHE!”. Quem é que lucra com esse tipo de lógica política, econômica, de vida, tão perversa e devastadora?

Então… há algumas pistas que levam até as respostas provisórias dessas perguntas. Não irei tratar delas hoje, quem sabe num próximo texto. E não é assistindo ao Jornal Nacional que chegaremos a elas. Diante desse cenário decadente, procuro encontrar forças naquilo que me fortalece cada dia mais: a Educação, o conhecimento. Essa é minha maior fonte de energia. E enquanto houver livros e pessoas dispostas ao diálogo e ao compartilhamento do conhecimento, vou me sentir ativa e fortalecida para lutar pelo que eu acredito: uma sociedade que faça jus ao nome científico da espécie humana (homo sapiens, do latim “o homem sábio”). Porque, para mim, sábio é aquele que sabe o quão transitório é o momento e que tudo se transforma. Ainda que pareça estarmos revivendo os anos 90, temos de inventar outros modos de enfrentar a situação que hoje se coloca diante de nós. E, como diz uma frase corriqueira de Facebook: se der medo, vamos com medo mesmo.

*CAPS — Centro de Atenção Psicossocial e **CRAS — Centro de Referencia de Assistência Social.

P.S.: Pra rir um pouquinho… Recado do ET Bilu.

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