I
e quando o silêncio impera
e percorre todos os cômodos
da minha casa de paredes rachadas
me lembro de ti
e de todos os poemas que te escrevi
me lembro
dos mais simples haikais
aos versos longos e quentes
que se arrastam por
páginas-e-páginas
me lembro também
daqueles poemas que não escrevi
uma única linha
mas que ouvi
palavra-por-palavra
quando deitei a cabeça
nos ossos que moram entre teus seios
II
entre uma batida do coração (tão grande a ponto de explodir)
entre os farfalhar de flores e assas dentro de ti
entre o som agudo do sangue correndo pelas veias da tua pele tão clara
PUDE OUVIR
(assim mesmo, como um grito)
um milhão de poemas
III
não escrevi uma linha
desde então
afinal
ainda nem sei
se teu corpo me gritou poemas
ou se quando te abraço
meu corpo é quem os declama
sei que me lembro de ti
quando o silêncio impera
e percorre as paredes rachadas de minha casa fria
aqui,
no inverno,
não existe vazio entre você-eu e nossos poemas