A interminável reforma de Interlagos

Texto e fotos: Guilherme Longo

Fazia muito sol no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. As equipes da Superbike Brasil se empenhavam para deixar as motos prontas para as primeiras sessões de treinos livres que começariam em poucas horas. Os mecânicos limpavam as peças, organizavam as rodas que seriam utilizadas ao longo do dia. Os pilotos, se concentravam ou repassavam estratégias com os chefes de equipe.

Tudo pronto. Bandeira verde. Treino liberado. Os pilotos começavam a sair. Mas algo estava diferente. Ao invés do paddock e dos boxes bastante conhecidos das transmissões de televisão, tendas improvisadas garantindo quase nenhuma estrutura para as equipes. Caso a famosa chuva da represa de Guarapiranga chegasse ao Autódromo, nada estaria protegido.

Essa é a real imagem de Interlagos durante sua interminável reforma.

Tendas usadas como boxes das equipes do Superbike Brasil

Diferentemente do visto ano passado durante a transmissão do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, a reforma do Autódromo não está nem perto de ser concluída. E a condição vista durante o final de semana da primeira etapa do Superbike Brasil, levanta a dúvida se a obra estará concluída até novembro desse ano, quando o país receberá mais uma vez a categoria mais importante do automobilismo mundial.

Para quem olha por fora, tudo parece certinho. A pista está impecável depois do recapeamento total de 2014 (que chegou a ser criticado por pilotos da Fórmula 1 por estar bom “até demais”). Os boxes estão completos e limpos. A nova sala de imprensa e torre de controle, pronta e funcionando desde o ano passado. As arquibancadas, cobertas e as populares, renovadas, modernizadas e com setores dedicados especificamente a deficientes físicos. Mas então, onde está o problema?

Uma das maiores obras, a torre de controle e sala de imprensa já estão prontas, mas não podem ser utilizadas

O atraso da reforma, que deveria ter sido concluída em outubro do ano passado, a tempo de sediar o GP do Brasil, se deve ao espaço que era o foco das reclamações da FIA e de Bernie Ecclestone, chefão da Fórmula 1: o paddock. O paddock é o local de circulação das equipes, onde são guardados os equipamentos, jogos de pneus, onde mecânicos e pilotos fazem suas refeições e descansam. Fora da pista, representa o espaço mais importante de um final de semana de prova.

O paddock era foco das reclamações de Bernie porque estava fora dos padrões de modernização da Fórmula 1. E as equipes também davam suas opiniões: com as mudanças de regulamento da categoria ao longo dos anos, o espaço disponível para cada time e a organização se tornou muito pequeno.

Foi necessário um ultimato de Bernie Ecclestone para que a situação mudasse. Em 2013, o dirigente da categoria chegou a se reunir com um empresário catarinense para discutir a possibilidade de construir um novo autódromo na cidade de Penha. Era a última cartada do inglês: ou a prefeitura de São Paulo reformava o autódromo ou a capital paulista perderia o evento que traz a maior movimentação financeira para a cidade no ano.

Por fora, os boxes mostram uma obra pronta. Mas por trás, a situação é bem diferente

A partir daí teve início a segunda maior reforma da história do autódromo. A maior foi a realizada durante a década de 80, que modificou o traçado da pista, reduzindo o circuito de 7 para 3 quilômetros.

A previsão inicial apresentada pela SPTuris, empresa ligada à prefeitura de São Paulo que faz a administração do autódromo, era de que a reforma fosse concluída até outubro de 2015. Mas ao longo do ano, diversas razões foram apresentadas para justificar o atraso na reforma. Por algum tempo chegou-se até a questionar se Interlagos seria capaz de sediar o GP do Brasil, seu evento mais importante do ano, mas com algumas obras de emergência, a prova aconteceu, terminando com vitória de Nico Rosberg, da Mercedes. O que surpreendeu a todos foi a reação de Bernie, que rasgou elogios à reforma.

Passado o Grande Prêmio, foi iniciado a última etapa da reforma, com a destruição do paddock antigo para a total renovação do local. Mas a imagem vista hoje mostra que praticamente nada mudou em cinco meses. A estrutura ainda está praticamente no chão. E isso afeta profundamente as categorias nacionais, como o Superbike. Diversos campeonatos de nível nacional optaram por não realizar etapas em São Paulo ou colocar a cidade entre as provas finais do ano.

Maior obra da reforma, o paddock ainda está praticamente no chão

Mas quem tem sofrido mais são os campeonatos paulistas, que dependem inteiramente do autódromo. Segundo o presidente da Federação Paulista de Automobilismo, José Aloísio Cardozo Bastos, a relação da FASP com a SPTuris, que já não era das melhores, piorou muito no ano passado.

Para realizar o campeonato mais importante e abrangente do estado, o Paulista de Automobilismo, a FASP precisa de dez datas ao longo do ano. Ano passado, a SPTuris disponibilizou apenas quatro datas, inviabilizando o campeonato, o que trouxe grande prejuízo para o esporte. A Federação usou as quatro datas para a realização de uma Copinha, mas teve um grid esvaziado. Dos 150 competidores do Paulista de Automobilismo, apenas 27 conseguiram participar da Copinha. A grande maioria não conseguiu fechar patrocínio, já que a SPTuris anunciou a liberação das datas muito em cima da hora.

Em 2016, a FASP já conseguiu sete datas. Abaixo do necessário, mas já torna possível a volta do Paulista de Automobilismo, que teve sua primeira etapa no início de abril. Mas a falta de estrutura tornou o campeonato muito mais caro, já que a Federação e as equipes são obrigadas a bancar uma estrutura temporária várias vezes ao longo do ano.

Enquanto isso, a situação na obra não parece andar. No final de semana da etapa inaugural da Superbike Brasil, era possível ver os trabalhadores parados assistindo aos treinos livres das categorias durante o horário de trabalho. Questionada sobre a duração da reforma e a utilização do autódromo como um todo, a SPTuris preferiu não responder.

Por enquanto, a reforma segue, aparentemente a passos lentos, comprometendo o automobilismo nacional. Resta esperar para ver se as obras serão concluídas até o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 desse ano, marcado para 13 de novembro.

Mesmo com todos os problemas, o automobilismo ainda se esforça para utilizar o Autódromo

Este trabalho foi desenvolvido para a disciplina de Jornalismo Online do curso de Jornalismo da UFSC no primeiro semestre de 2016

Texto e fotos: Guilherme Longo

Orientação: Maria José Baldessar

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