túnel de luzes amarelas

Quando era criança, eu adorava túnel. Sim, desses que a gente passa quando vai pra praia. Desses que são longos, escuros e só tem aquelas luzes amarelas no teto.

Todas as vezes que ia viajar com a família e no caminho, tinha um túnel, eu ficava extasiada. Podia estar dormindo ou até mesmo pegando no sono e era acordada com um leve cutucão da minha mãe dizendo “filha, olha o túnel!” Eu acordava na mesma hora! Me ajeitava no banco do carro, endireitava as costas e ficava preparada pra entrar naquele túnel de concreto com suas luzes amarelas. Até gritava de empolgação e grudava o rosto na janela.

Sempre ficava empolgada e com muito medo dentro do túnel. Era demais, tinha as luzes, os carros, a rádio que sempre parava de pegar. Tinha a risada da minha mãe ao fundo de ver aquela coisica pequena com o rosto grudado na janela por causa de um buraco de concreto colocado no meio de uma estrada. Tinha a voz do meu pai no meu ouvido dizendo “imagina quantas coisas não tem em cima desse seu túnel?”. Por alguns poucos minutos, eu imaginava todo um mundo diferente em cima daquele túnel. Nem sentido aquilo fazia.

Quando eu via que estava quase chegando ao final do túnel, que dava já pra ver a luz do dia e os carros sumindo na neblina toda a empolgação ia por água a baixo. Eu queria mais daquela aventura mirabolante que criei na minha própria cabeça, uma diversão sem sentido porém tão pura. Era bom se empolgar com coisas poucas e simples. E logo acabava. Vinha a luz, os carros sumiam, minhas luzes amarelas ficavam pra trás. Eu encostava de novo a cabeça no banco e voltava a dormir.

Hoje, depois de tanta coisa ruim e boa ao mesmo tempo, depois da montanha russa de emoção que foram os últimos dias eu passei num túnel. Que não me levava pra praia, que não tinha meus pais no carro, não tinha uma risada e muito menos aquela empolgação por estar entrando nesse túnel.

Fico me perguntando o que tinha de tão mágico ver algo começar, ser tão bonito e terminar tão rápido.

O túnel da cidade não é assim. Prefiro as minhas luzes amarelas e aquela imaginação infantil de que o túnel nunca vai acabar.

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