Imagem de Viacheslav Vystupov’s

Nosso mundo é uma fábrica de fracassados.

Sobre a luta desnecessária entre produtividade e bem estar.

“Trabalhe pesado e seja persistente”
“O único responsável por você não ter sucesso é você mesmo”

Provavelmente você já ouviu estas frases ou algum derivado delas em algum discurso motivacional sobre empreendedorismo e como alcançar seus sonhos. Está tudo ao seu alcance, basta querer. Se você não conseguiu ainda, é porque está fazendo errado. A culpa é sempre sua. Mas e se a culpa não for importante?

Era uma vez uma época onde tudo que importava era a linha de produção. As pessoas viviam enfurnadas em fábricas enfumaçadas, trabalhavam em turnos exaustivos com mais de 10 horas e a única métrica de sucesso era a velocidade com que as coisas eram produzidas. De lá pra cá, mudou muita coisa. Mas parece que levamos a fábrica para dentro de nós mesmos.

Está aí esse mundo hiperconectado que tanto falamos. A velha história das fotos lindas no face e no insta que todo mundo posta porque é muito bem sucedido e só você que não é. As notícias sobre as pessoas que são premiadas por seus projetos ou tiveram sua startup comprada por milhões sempre com um comentário silencioso que diz “Veja o que você ainda não conquistou. Você está perdendo esse jogo chamado vida, hein?”.

Hoje uma amiga, que adora ler e aprender coisas novas, que sempre ajuda os amigos com dicas muito úteis sobre o que vive pesquisando, faz viagens onde descobre mil coisas novas e trabalha num escritório criativo super foda comentou como estava decepcionada com a própria produtividade, e que descobriu que consegue fazer menos atividades por semana do que imaginava. “Nunca vou ser rica” — disse por fim. Fiquei pensando como que uma pessoa que admiro tanto e considero tão foda se sente assim.

O mundo em que vivemos, onde acumulação de dinheiro parece ser a única métrica para sucesso, é feito para nos afastar de nós mesmos. Abdicamos de nos conhecer melhor, aprender a ter relações mais saudáveis com as pessoas, conosco e com o mundo, em prol de uma produtividade maluca, desenfreada, onde a palavra crescimento que dizer, na verdade, acúmulo de dinheiro.

Nós trocamos bem-estar e auto conhecimento por status, aplauso e dinheiro — as únicas métricas capazes de dizer sobre ‘sucesso’. Não importa se você tem uma relação ótima com sua mãe, ou se você é a pessoa mais satisfeita quando vai cuidar das suas plantinhas de manhã ou praticar aquelas voltas no pole dance. Se não houveram mais de 70 likes no face, muitos retweets ou se não virou notícia no Buzzfeed, você é ainda vai ser a pessoa mais fracassada da face da terra.

Existem até TED Talks falando para as pessoas que elas devem “assumir a culpa pelo próprio não-sucesso”, enquanto as entrelinhas associam o dito cujo estritamente à esfera profissional da vida, e ao dinheiro. Mas e se não existir culpa, nem de você nem dos outros, pela ausência de rios de dinheiro e fama? E se por acaso, para além do esforço de cada um, o fato de alguém aparecer na lista do Top 10 Empreendedores da Forbes não tiver nada a ver com competência e esforço? E se o fato de uma atriz não ser indicada ao Oscar não tiver nada a ver com o talento e atuação dela?

As cifras no banco e os as curtidas na rede social são mais produto da loteria do destino do que de qualquer coisa que você irá fazer por si mesmo. É resultado da cagada de nascer com a etnia certa, a identidade de gênero certa, a condição social certa, a sexualidade certa. E ainda estar no lugar certo, falar a coisa certa e uma série de outros fatores incalculáveis que vão do clima até o humor de quem estiver por perto.

E faz o quê agora? Senta e chora?

Bom, dá pra começar a repensar o que é sucesso de verdade. Mudar a própria perspectiva. Será que as conquistas de uma pessoa tem que estar atreladas a essa tríade da grana, atenção e fama? Ou será que a vida é feita dos processos que a gente vive?

Certa vez, o chefe de uma outra amiga minha ensinou para ela um método de gestão de tarefas inusitado: ele anota no fim do dia tudo o que realizou, ao invés de anotar no início o que tem para fazer. Um truque besta, mas que consegue mudar o olhar da ausência para a abundância.

Dá pra largar a mão de ser eternamente infeliz e insatisfeito se buscarmos nos conhecer um pouquinho melhor. A questão é nos perguntarmos a cada dia o que realmente nos dá satisfação, o que traz bem estar e aquele pico ocasional de felicidade. É entender o real significado das coisas pra gente, buscar aquelas que esquentam o peito simplesmente porque estamos fazendo ela, e não porque alguém reparou.

Receber aplauso e ficar rico nunca vão deixar de ser bem vindos, afinal todo mundo gosta. Mas conseguir largar mão deles como métrica de sucesso pode ser empoderador, já que nenhum deles depende inteiramente da gente. Aí abrimos espaço para o dinheiro ser um meio para conseguir as coisas, e o aplauso — se vier — uma consequência de já estarmos satisfeitos com o que vivemos.

O poder de mudar a perspectiva, às vezes, é tudo o que nós temos. E a única coisa que importa mesmo.