Turma de Comunicação e Multimeios 2013 da UEM

Sempre há tempo para recomeçar

Perto de completar o Ensino Médio não tinha muita certeza do que queria ser quando crescesse, dali a cinco anos. Na infância nunca tive aqueles sonhos profissionais, do tipo “quero ser médico”, nem os mais malucos que a pouca idade dá brecha para termos, como “quero ser astronauta”.

Nesse purgatório, acabei prestando vestibular para os dois cursos onde gente que não sabe o que quer fazer da vida se concentra em grandes quantidades: Administração e Direito. Optei por Direito. “Vou tocando aqui até me decidir”, pensava, até ter aquele momento eureka onde a minha paixão afloraria e, aí sim, passaria a estudar o que me fizesse feliz, realizado e de preferência com um bom contracheque no fim do mês.

Isso foi há quase dez anos.

Até hoje ainda não sei ao certo o que quero fazer da vida.

Mas tenho uma vaga ideia do que seja. Sempre, desde a época do Direito, flertei com o jornalismo ou algo próximo disso e, hoje, posso dizer que tenho um emprego, se não dos meus sonhos, muito próximo dele. Durante toda a última década me vi envolvido nessa área, começando por um hobby e terminando em alguns empregos. Tive épocas boas e ruins, altos e baixos, situações comuns, imagino, a qualquer profissional. Em paralelo, não parei de estudar. (E demorei um tempão para aceitar que escrever sobre smartphones e notebooks era, afinal,a minha vocação.)

Dois anos depois de me formar bacharel em Direito, sem vontade alguma de trabalhar com leis, comecei outro curso, de Sistemas de Informação. Não gostei e larguei. Recentemente, mais um recomeço: Comunicação e Multimeios. Estou gostando. Por enquanto.

Em Comunicação, às vezes, seja numa aula cheia de conselhos de algum professor, seja entreouvindo conversas dos meus colegas, todos recém-saídos da adolescência, noto que as nossas perspectivas para o que aquilo vai dar são um tanto diferentes. E vejo, em alguns deles, entre um comentário e outro, coisas que no início da graduação de Direito eu falava e pensava e que, mais tarde, a vida tratou de me mostrar que não eram bem assim.

A principal? A graduação não define o que você fará para o resto da vida.

Sim, é loucura estudar seis anos de Medicina e acabar vendendo enciclopédia de porta em porta. Mas impossível? Não. Não vale a pena se martirizar por uma escolha de curso que acaba se mostrando diferente do esperado. Sempre dá para mudar.

Se não acertar de primeira, você poderá fazer uma segunda, terceira, quarta faculdade. Você contará com o apoio de gente querida e em último caso terá um emprego quebra-galho para se dedicar ao seu sonho. Na turma de Direito tinha um senhor de mais de 70 anos na sua quinta graduação; não é um exemplo a ser seguido (feliz quem acerta de primeira!), mas é um exemplo de que dá.

Outra verdade-clichê é que dinheiro, per se, não traz satisfação. Ele desbloqueia alguns achievements muito legais, e ter independência financeira é realmente uma delícia. Mas se isso não casar com um trabalho que você goste, as alegrias que o salário proporciona passam a ser um pontinho isolado na frustração rotineira. Direito dá muito mais grana que jornalismo e teve um tempo em que fantasiei a ideia de virar advogado e/ou tentar algum concurso público. Nunca tive nisso sequer um tiquinho do tesão que uma pauta divertida ou desafiadora que cai no meu colo me dá.

Aproveitei mal a minha primeira graduação em todos os níveis possíveis, mas não me arrependo dela. Sobraram alguns amigos, a derrota da timidez de falar em público e um diploma — além de uma ou outra curiosidade jurídica que ficou gravada na memória. Estou tendo outra chance e acho que dessa vez vai. Se não for? Paciência. Sempre há tempo para recomeçar.


Quase desisti de publicar este texto porque sei que para muita gente a graduação é uma oportunidade única, a chance de mudar de vida e, sob essa perspectiva, dizer que dá para fazer dois, três, quatro cursos universitários pode soar… arrogante? Não quero passar essa impressão, especialmente porque admiro demais a galera que sai do nada e, com um curso universitário, dá saltos gigantescos em todas as áreas da vida. Vocês são incríveis.

Mas aí pensei em outro grupo, também grande, daqueles que antes mesmo de chegar à maioridade se veem tendo que tomar uma decisão que, acham, é para o resto da vida e depois, por quatro ou cinco anos, se censuram e sofrem em silêncio por uma escolha mal feita precoce e forçadamente. Este texto é para vocês.