A DIVISÃO DE DUVIVIER

Para algumas pessoas o mundo pode ser dividido em dois. Existem pessoas A e pessoas B. Existem lugares A e lugares B. Existem refeições A e refeições B. E gradativamente acaba-se por concluir que existem opiniões A e opiniões B.

Em um universo dividido em dois, resta aos ambidestros decidir se prefere a direita popular dos destros ou a excentricidade elegante dos canhotos, mas que não se atreva a ser mais uma irritante minoria a clamar por seu próprio espaço, uma vez que a maioria acaba por se unir para isolar e perseguir mais uma possibilidade de ruptura, contra quem se atrever a não se filiar. Talvez a única forma de unir um universo dividido em dois, é propor dividi-lo em mais possibilidades, talvez.

No Brasil muito tem se especulado quanto a corrupção, mas até que o veredicto seja anunciado, somos por fim todos inocentes. E muitas vezes a nossa inocência é tão ingênua, por vezes cega, ao ponto de tornar óbvio que algo precisa mudar em nosso julgamento, mas se a regra é clara quanto a inocência proclamada por um veredicto, talvez por fim todos somos integrantes de uma corrupção maior que aceita um julgamento desonesto, por um ato que irá afligir a maioria de nós. E graças a ironia dos Deuses, em um jogo de poder egocêntrico, o poder concedido a quem decide cabe a nós, a maioria infligida.

Imagine a improducência de quem aceita ser guiado por um motorista incapacitado. O risco de vida que concede a sorte, a sua própria vida, em um banco passageiro aceito frente a uma confiança cega comprada, por um sorriso familiar muitas vezes embriagado e ensaiado. Imagine agora a imprudência de quem permite um incapaz dirigir sozinho, a imprudência com a vida de quem guia e com toda vida ao redor alheia, qual eventualmente pela falta de sorte pode vir a acabar. Um egoísmo muito comum e recorrente, e repleto de vítimas fatais.

Imagine o amor de uma torcida fanática, um amor quase indescritível em palavras e a imprudência de quem incentiva as diferenças entre torcidas rivais. O Brasil é um grande campeonato de futebol, mas onde o bom senso deveria exaltar o bom jogo, o honesto jogo, muitas vezes acabamos por apenas incentivar uma rivalidade mortal. Uma imprudência quase infantil, na qual não se comemora um bom e merecido vencedor, mas a derrota alheia de quem não soube jogar uma obscura ganância por poder. E o poder é tão efêmero quanto uma boa noite de sono, cada vez mais rara.

Gregorio Duvivier é o que considero uma pessoa de poder. Sua fama lhe construiu exposição e, com certeza merecidamente, na comédia ele já tem o seu nome gravado na história nacional. É genioso, e além da comédia se posicionou muitas vezes em diferentes frentes, com sucesso e repercussão. Admiro homens e mulheres de opinião, me excita o fervor de boas discussões, mas me entristece o frívolo de incentivadores de torcidas rivais.

O Brasil das últimas centenas de anos permanece um país de torcidas rivais. Mas todos nós sabemos que existe muito mais do que apenas duas grandes paixões, muito mais do que apenas duas representativas escolhas, em um país tão rico em opções ignoradas e orgulhoso por se declarar plural. E o fervor por um jogo honesto, um julgamento justo, acaba por se perder em uma troca de provocações infantis de quem muito poderia influenciar o espírito de quem preza por uma história sem vítimas, uma real ordem e progresso.

Em suas colunas recentes, Duvivier preza pelo universo dividido em dois. Pelo troca de provocações motivadas por sua geniosa opinião, e provavelmente, o seu amor cego. Eu nunca serei aquele quem cala a opinião de quem se posiciona a se declarar ter, mas cansado desse jogo de provocação eleitoral, eu me sinto livre para também defender que talvez incitar a torcida adversária, não irá resultar em uma evolução necessária no atual jogo de extremo poder. Talvez diferente de Duvivier eu seja ambidestro, mas sequer a direita ou a esquerda está interessada no que tenho a dizer. O bom e honesto jogo acaba na próxima provação desnecessária que irá prevalecer.

Artigo publicado em 19/10/2015.

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