COMO CONQUISTAR LEITORES EM 2015?

Antigamente (mas sem exagero, eu não sou tão fóssil quanto aparento), a estrutura do texto da imprensa mainstream ou underground (o mundo na época era dividido em apenas dois sub-gêneros de universo, sendo permitido o uso do hífen), era completamente diferente e inimaginável frente ao que se observa hoje.

É claro que tudo era diferente, afinal, estamos nostalgiando o passado, mas a evolução da estrutura do texto, da qualidade da crítica, da reflexão do colunista e, arrisco provocar, a seriedade dos editoriais, encontrava-se em fina classe. Talvez a tecnologia esteja providenciando de fato a evolução do texto para o vídeo, talvez o excesso de oferta de conteúdo gratuito tenha multiplicado o desinteresse dos leitores fiéis, talvez acreditar na existência de leitores fiéis seja uma pretensão cruel nos dias atuais, e absolutamente tola.

Sendo assim, por que escrever? Ou melhor, por quem escrever?

Sobretudo é preciso esclarecer para registro que o ato de escrever é um grande e nobre prazer; e a falta da contínua escrita me faz alguém vazio, frio, mesmo ciente de que hoje, os adoráveis fiéis leitores, encontram-se isolados em quase extinção. Tenho o exercício de escrever como a materialização do pensar, e no atual surrealismo imprevisível presente, o pensar é provavelmente a maior transgressão que existe.

Antigamente… Muitas vezes uma boa crítica tornava-se uma aula. Um novo filme era examinado em detalhes, o resgate histórico da carreira do diretor era devidamente pontuado, destacava-se as influências presentes em sua nova obra, os méritos de seus novos atrevimentos e experimentos artísticos, o fascínio de efeitos empregados e as performances memoráveis… Mínimo de 2000 caracteres ou sequer atreva-se tentar. Hoje celebramos e analisamos o trailer, que inacreditavelmente em si, já entrega todos os méritos da trama, assim como as percepções em um resumo vago de expressões repetitivas, porcamente divididas em cento e quarenta caracteres.

Hoje prova-se a música em pequenas individuais amostras, sem qualquer constrangimento quanto ao desconhecimento do álbum por inteiro, como uma obra sólida e proposta ambiciosa, a qual acostumava-se ser.

Exposições tornaram-se palco de selfies. Livros são substituídos gradualmente por vídeos descritivos, baseados em sinopses de livrarias on-line.

Talvez eu seja um fóssil. Talvez eu seja aquele que agora desconheça a nova dinâmica do mundo.

Talvez hoje o leitor esteja em um processo de transformação, abandonando o peso e o desconforto do volume da escrita impressa, para ter a sua disposição uma infinita biblioteca em um diminuto dispositivo eletrônico, muito mais prático, elegante, definitivamente moderno e ainda ecologicamente correto. Válido.

Talvez a dimensão do papel tenha se adaptado a limitação da tela, e assim limitado, o texto antes generoso se transformou em uma objetividade pálida, desértica.

Talvez a amostra seja tudo o que agora importa, restando imaginar a profundidade do prazer sem comprometer-se com o mergulhar.

E em um mundo ansioso por grandes e incríveis novidades superficiais, perde quem por último registrar o que amanhã ninguém irá de fato se lembrar.

Assim acabamos por nos tornar consumidores crônicos de uma proposta fast-food intelectual.

Mas de certa forma, tenho certeza, iremos nos encontrar. A escrita não concederá vitória fácil, e mesmo que utilizando-se do apelo moderno — como fotos de gatos — ela encontrará admiradores para se multiplicar.

E adaptando-se aos novos tempos, mesmo nostalgiando dias passados, a escrita — nossa escrita — perpetuará.

Artigo publicado em 19/08/2015.

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