Galo de raça e luta

Grupo de mulheres atleticanas se une para combater o machismo no futebol

Belo Horizonte, 15 de fevereiro de 2016. O Atlético lança seus novos uniformes, confeccionados pela Dryworld, e de quebra, apresenta Robinho, a principal contratação do time para a temporada, viabilizada com ajuda da empresa canadense. No entanto, a noite que prometia ser apenas de festa, ficou marcada negativamente por ter modelos seminuas apresentando as camisas. Então, um grupo de atleticanas incomodadas com a situação acabou sendo formado no Twitter, e lançou uma nota de repúdio condenando a postura das partes envolvidas.

Publicado no blog CAMikaze, o texto logo gerou uma série de comentários negativos e ameaçadores de alguns torcedores. Nascia ali a “Grupa”, um coletivo de mulheres que visam “torcer sem machismo, homofobia e racismo”. As discussões, que ocorriam apenas em um grupo de mensagens diretas no Twitter foram ampliadas, e o movimento passou a contar com um perfil próprio no site, o @GrupaCAM. “Não dá pra dizer que é fácil, mas nos fortalecemos com isso. Para as ameaças, as providências de registros de boletins de ocorrência resolveram. Para os xingamentos, preferimos nem rebater porque entendemos que não vale à pena”, comentam, quando perguntadas sobre o processo de formação do grupo.

Unidas pelo Galo: juntas, elas vão aos jogos do time e dão apoio incondicional ao clube. (Foto: Daniel Teobaldo)

Apesar das barreiras enfrentadas no começo do ano, elas dizem que enxergam uma mudança no pensamento de parte daqueles que foram contra o nascimento da iniciativa: “Percebemos que muitos que nos criticaram na época do desfile, hoje, se ainda não concordam com nossas posições, pelo menos, nos respeitam”, relatam. Mesmo assim, existem aqueles que pensam se tratar apenas de uma forma de “promoção individual” em cima da imagem do clube, ignorando as nuances preconceituosas presentes no futebol.

Juntas, elas vão aos jogos do Galo e apoiam os jogadores durante os noventa minutos, sem xingamentos ou vaias. Apesar dos constantes olhares de estranhamento, as componentes do movimento afirmam nunca terem passado por acontecimentos embaraçosos. “O objetivo da grupa é exatamente esse: inibir assédio ou violência contra a mulher em um ambiente majoritariamente masculino que não costuma ser muito receptivo com as mulheres. Normalmente, nesse espaço, a mulher é vista como intrusa ou como objeto de agrado para o homem. As manifestações agressivas de intolerância ocorrem apenas no mundo virtual”, completam.

Sobre a escolha do nome, as integrantes contam que tudo surgiu de um trocadilho, com o termo “grupo”: “Tentavam nos ironizar dizendo que éramos um ‘grupinho’ de mulheres, como se isso fosse pejorativo. Somos bem-humoradas e resolvemos levar isso para a brincadeira, com isso nos denominamos uma ‘Grupa’”, elas explicam.

Seleção Feminina e apoio de rivais

Recentemente, a Confederação Brasileira de Futebol anunciou Emily Lima como técnica da equipe nacional. A ex-volante é a primeira mulher a assumir o cargo na seleção principal. Para as atleticanas, a escolha de Emily pode ser encarada como “um passo interessante a ser comemorado”.

A relação do movimento com torcedores de outros clubes também é um ponto interessante: “recebemos inúmeras mensagens de torcedoras e torcedores de outros times, são sempre elogiosas, de apoio e incentivo”. dizem. E, sempre que mensagens do tipo chegam ao conhecimento da Grupa, os membros fazem questão de respondê-las, incentivando a criação de organizações parecidas sob as bandeiras de todas as cores.

A confraternização com torcedores adversários é marca registrada antes das partidas. (Arquivo Pessoal)

*As perguntas elaboradas para a construção da matéria foram respondidas coletivamente pelas integrantes do movimento.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Guilherme Peixoto’s story.