Se não puder ler, tente de novo.

“Eu preciso esquecer que sofri.” Caminhemos

Sempre que eu quero sofrer, pego a primeira dose do melhor ou pior resíduo etílico que esteja nas proximidades, chamo Dalva e Herivelto — dois velhos amigos que pouco se bicam — e resolvo ouvi-los.

Há uma dor na voz de cada um, sabe? Uma dor que não é igual a que sinto, mas a minha pele se arrepia todas as vezes que qualquer frase deles desperta um sussurro que soa como: “você passa por isso”. E não é que entre os acertos fonéticos eles acabam me deixando uma reflexão?

Quando estou passando algum nervoso inevitável, essa dupla me vem à mente e eu automaticamente penso que existe um recado ali a ser passado. E foi numa hora dessas que eu pensei em te chamar.

Tomei um gole da cerveja de trigo e continuei a pensar em convocá-lo para esse reduto musical sem muita expectativa. Você sabe que eu escrevo e filosofo melhor quando a amargura já ocupou todos os meus órgãos. Você sempre soube que essa psicografia que a gente recebe quando está meio alto é que vale cada comanda perdida e rabiscos na porta do banheiro do bar.

Escrevamos mais.

Peguei uns amendoins e pensei que fosse um banquete, mas só petisquei. Eu prefiro devorar com certa rapidez somente as palavras. Quando elas combinam entre si, eu as mordo e saio batendo os dentes sedenta pela história que ela será capaz de construir. Dalva grita de um lado: “Não deixe que males pequeninos venham transtornar os nossos destinos”. Olho de canto, pego meu copo, acompanho o raciocínio. Seguro o telefone e tento te ligar, como sugeriu da última vez. Paro de digitar, falseio um movimento com o polegar em busca dos números. Eles fogem.

E descrevendo assim me recordo de Graciliano Ramos, e até me acho um tanto quanto parecida no estilo. Será que ele conseguiria me explicar a tristeza envolta numa trama imaginária? Será que realmente piou a coruja no topo da igreja como ele havia dito, enquanto as sombras das árvores se assemelhavam a massas negras no vidro da janela?

Acho que você seria capaz de explicar. Na verdade, você bem que poderia calar o Herivelto que já ensaia logo ali mais um dedilhado em Mi Maior. Será que seríamos tão bons nesse negócio de composição, assim como ele foi um dia?

Tentemos.

Eu apenas volto meus tímpanos à discussão do casal e resolvo silenciá-los. Certamente, eles voltarão para cobrar o conhaque que sempre misturam às melodias. E nós? Nós vamos retomar nosso dueto que inspira todo ânimo que o desânimo constrói com paredes de desaforo. Será que eu seria a musa certa para isso? Engraçado pensar que você pensa assim. Mas pensar, de certa forma, é a melhor coisa que fazemos.

Pensemos, pois.

Esse texto é uma resposta a “Se não puder ler, leia. Mais uma vez.

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