Fumaça branca da paz em Montevidéu

Uma dose de sensatez no Uruguai sem os danos da guerra contra o tráfico

O valor da democracia é medido a passos largos na cidade com mais qualidade de vida da América Latina. Na praça onde a independência representa a conquista de um povo, as liberdades individuais coincidem com a consciência coletiva da formação de um país livre. Caminhar por um dia nas esquinas da Cidade Velha de Montevidéu, e cruzar sua porteira histórica, é simbólico, é ir em direção ao exemplo de convívio pacífico.

O cenário em movimento permanente é o palco para os personagens da cidade viverem suas aventuras pessoais sem invasão de espaços ou rompimento dos contratos sociais. Em um dos extremos da Praça da Independência, dois homens fumam um cigarro de maconha sentados no gramado verde e limpo. Um deles está de terno, é hora do almoço. O segundo carrega um lanche para comer depois.

A cena acontece a poucos metros de um policial. Vestido com o tradicional uniforme, está ali para garantir a ordem das coisas, que inclui o direito ao consumo da erva. O cheiro alcança a outra calçada, onde há um protesto diante da Torre da Presidência. A fumaça e os manifestantes se misturam.

Com cartazes, gritos e palavras de ordem, os uruguaios protestavam contra a má gestão do Plan de Vivienda. Denunciada a corrupção de um fiscal que cobrava propina de empresas construtoras de habitações para a classe trabalhadora, a juventude foi às ruas.

Liberar o consumo de maconha não parece ter deixado os jovens do Uruguai em estado de torpor. O país, e sobretudo Montevidéu, acelera em direção ao futuro mais liberal entre todas as cidades coirmãs do continente. E sem violência no horizonte.

Prova da crescente diluição das proibições relacionadas ao comércio de maconha nas cidades uruguaias é a recente medida da Junta Nacional de Drogas, a JND, que libera a venda em farmácias 24 horas a partir de julho.

Ao mesmo tempo em que os cafés vendem todos os tipos de parafernália para o consumo, suas vitrines exibem placas que situam o turista desavisado que não há, ali, comércio de marijuana. Em breve, as drogarias farão este serviço.

Será possível comprar maconha durante 24 horas em qualquer cidade. Mas as farmácias interessadas em vender a droga só o farão para consumidores com registro.

Uma grande dose de sensatez sem os efeitos colaterais da guerra contra o tráfico, que afoga o Rio de Janeiro no sangue de vítimas inocentes.