Imagem: Keystone/Getty Images

23 de agosto de 1954

ou O dia em que conheci Getulio Vargas

O celular não despertou e acordei sobressaltado. Apalpando sobre o criado mudo, encontrei o aparelho e pulei da cama ao ver que já passava de nove da manhã. Tinha um compromisso formal às dez e não podia chegar atrasado de maneira alguma. Repeti meu ritual matinal de sempre: café com leite, misto frio, mamão papaia, banho, escovar os dentes e me vestir. Escolhi um terno azul marinho, camisa azul clara e gravata bordô, assim não tinha erro. 9h30. Peguei o celular para chamar o taxi. Sem internet. Tirei o modem da tomada, liguei de novo. Sem internet. Fui telefonar pra Santaxi. Sem sinal. Não tinha telefone fixo há anos. Saí correndo pra pegar o bonde.

Desci as escadas voando e cheguei rápido à rua. Chegando ao Curvelo, fui surpreendido por um flashmob, uma dessas coisas estranhas que é costumeira em Santa Teresa. Homens de ternos de variados tipos e cabelos bem penteados, mulheres de saias pelos joelhos e vestidos bem cortados. Me diverti e mais uma vez achei gostoso morar naquele bairro. Haveria outra coisa parecida no Brasil? Eu desconhecia. Estendi umas moedas ao cobrador, me acomodei no bonde — que, para minha sorte, estava ali parece que me esperando, tirei o livro que estava lendo da pasta e fui focado na leitura até a Carioca.

O bonde chegou à estação central em pouco menos de quinze minutos. Enfiei o livro de volta na pasta e quando dei por mim todas as pessoas em volta vestiam ternos, tailleurs, vestidos… homens de chapéu! Seria possível que todos que trabalham na Cidade houvessem aderido ao flashmob? Quando levantei a cabeça, minha pressão caiu e minha vista escureceu ao perceber que o Lélio Gama, sede do Banco do Brasil, com frente pela Senador Dantas, não estava ali. Procurei rapidamente um banco pra sentar, tirei o lenço do bolso, sequei o suor da testa, fechei os olhos e respeirei profundamente por alguns minutos. Tive a sensação de estar maluco. Talvez eu estivesse sonhando, só podia ser isso. Permaneci sentado ali por mais um tempo, de olhos fechados, tentando me acalmar.

Quando estava melhor, tomei o próximo bonde e voltei para o Curvelo. Reparei cada detalhe no percurso: de cima dos Arcos, a Lapa parecia a mesma, mas o prédio do IHGB não estava lá. O Circo Voador não estava lá. Meu Deus! Não havia aterro. A água batia na mureta da Beira-Mar. O livro que eu estava lendo se passava no Rio da década de 1950, eu devo ter me impressionado e produzido esse sonho. Era isso! Bem mais calmo, fui apreciando aquela oportunidade onírica de reviver uma cidade perdida que eu conhecia tão bem na teoria. Foi aí que uma ideia me ocorreu. Se era um sonho, eu podia explorá-lo melhor; por que voltar para casa justo agora? Talvez eu acordasse. Mas e se estivesse na hora de acordar? E a reunião? Não, não dava para perder aquela oportunidade. Quando o bonde chegou no Curvelo é que fui reparar que ele era verde, e não amarelo; a mudança de cores só ocorreu na década de 1970. Rindo do detalhe que minha mente foi capaz de lembrar, saltei e fui esperar no outro sentido. Voltei para a Carioca.

A primeira coisa que tive vontade de fazer foi explorar o Centro, ver se seria capaz de recriá-lo fidedignamente. Seria fantástico caso fosse possível! Decidi começar pela Galeria Cruzeiro. Ali estava a Leiteria Mineira original! Um dos donos em 2014, então garçom, abriu a porta gentilmente e eu me sentei. Pedi o de sempre: misto frio, chocolate frio e coalhada com ameixa. Continuava com o mesmo sabor do futuro. Enquanto comia devagar, satisfeito, pedi ao garçom um jornal; ele me perguntou se a Tribuna ou a Última Hora; tremi. Escolhi a Última Hora. Quase engasguei ao me deparar com a foto de Getúlio ao lado da frase “Só morto sairei do Catete!”. Aquilo me gelou a espinha. Paguei a conta — por sorte meu dinheiro estava convertido, o sonho era completo — e rumei para o Tabuleiro da Baiana.

Sem pensar muito no que fazia, tomei um bonde para o Catete; agora prestando mais atenção às pessoas em volta, percebi que a briga entre lacerdistas e getulistas era acirrada e onipresente. Senhoras, moços, executivos, todos na rua falavam disso com os ânimos exaltados. Saltei quando o bonde parou em frente ao Palácio. Admirei a elegância que o Catete perderia no futuro e suspirei, lamentando. A cidade era bonita demais naquele 1954, e mesmo preservando muito daquela beleza, muitos daqueles prédios e mobiliário urbano, um certo encanto se perdeu no meio do caminho. Era um dia de céu azul, e um vento fresco vinha da praia. Pela Silveira Martins, fui dar na mureta que separava a Praia do Flamengo do mar. Respirei fundo, aspirando o cheiro marinho que sempre associei a saúde, alegria, vivacidade. Encostei-me na mureta e mirei os jardins do Palácio. Em menos de vinte e quatro horas, o Presidente suicidaria com uma bala no coração. Capitularia, humilhado pelas circunstâncias.

Desde criança, o suicídio de Getúlio me causava um pesar profundo e solene. Tinha uma certa obsessão por ele, e coleciovana suas fotografias coloridas da revista Time. Via seus vídeos no youtube, “trabalhadores do Brasil”, com aquele sotaque tão característico e familiar, que era o mesmo dos meus avós paternos. Aliás, minha própria família vinha de São Borja e arredores, onde meus ancestrais foram sesmeiros primitivos ao lado dos ancestrais dos Dornelles — ambas as famílias oriundas de Taquari, de origem açoriana. Certamente se conheciam. Getúlio era como um tio-avoengo, bonachão e grandioso. Precisava entrar no Palácio e ter com o Presidente. Fechei os olhos e tentei influenciar os rumos do sonho; me transportar para a ala residencial, no terceiro andar, onde ficava o gabinete privativo. Nada. Tentei outra vez, e nada. Fiquei com medo de acordar, e decidi entrar pelo portão dos jardins. Não correria nenhum risco, afinal era um sonho. Entrei pelo portão como se fosse habitué da Presidência — essa técnica costumava funcionar no futuro, quem dirá em 1954. Em tempos de normalidade, acho que teria passado, mas a crise era grave e o Palácio estava cercado de soldados da PE por todos os lados. Quando um dos soldados me abordou, eu disse que era assessor do Ministro Osvaldo Aranha. Ele me mediu da cabeça aos pés, e pediu minha identificação funcional. Disse que tinha vindo apressado do Itamaraty e que precisava transmitir uma mensagem do Ministro ao Presidente.

Fui conduzido por um funcionário do Palácio e por esse mesmo guarda à recepção do segundo andar, o que significava que acreditaram em mim. O soldado me revistou e se retirou; o funcionário pediu que eu aguardasse um minuto que chamaria o assessor pessoal do Presidente. Pela porta da recepção, que dava em um amplo hall, espiei o major Hélio Dornelles, ajudante de ordens do Presidente, chegando ao elevador que levava ao terceiro andar.

- Major! Sou sobrinho do coronel Hortêncio Rodrigues, de São Francisco de Assis. Ele me encarou com admiração, e antes que respondesse mencionei: Estou trabalhando como assessor do Ministro Osvaldo Aranha há duas semanas, um parente de Alegrete que é amigo do Ministro me recomendou. Meu tio pediu que lhe transmitisse suas recomendações caso lhe encontrasse aqui na Capital.

- Mas este mundo é mesmo pequeno! Lutei duas revoluções ao lado do Hortêncio, ele é um bom amigo. Se houver qualquer coisa que eu possa fazer por você, não se faça de rogado. Tome aqui o meu cartão, pode me ligar a qualquer hora. Um sobrinho do Hortêncio é um amigo. E me estendeu seu cartão, com o brasão-de-armas da República e os dizeres: Major Helio Dornelles de Mello — Ajudante-de-Ordens do Presidente da República.

- Major, agradeço sua disposição e digo o mesmo, conte comigo quando precisar. Mas tem algo que o senhor pode fazer por mim agora mesmo.

- Pois diga. Se estiver ao meu alcance, será um prazer.

- Tenho uma mensagem urgente do Ministro ao Presidente. Foram chamar o assessor do Presidente, mas é um desejo antigo meu conhecê-lo pessoalmente. Será que o senhor me ajudaria?

- Olha, guri, hoje não é o melhor dia. Como você deve saber as coisas estão complicadas por aqui. Mas eu vou tentar te ajudar, desde que você me prometa ser breve. Posso contar com isso?

- Sem dúvida.

- Vem comigo, então. Aliás, como é teu nome?

- Carlos Bento Rodrigues.

Segui o major Dornelles, de fato um correligionário de meu tio-avoengo Hortêncio nas revoluções de 1923 e 1929/1930, sem dar palavra. Ele me pediu que esperasse, e com três batidas entrou no gabinete particular do Presidente. Em pouco tempo me convidou a entrar também.

- Presidente, este é o senhor Carlos Bento Rodrigues, dos Bento Rodrigues de São Francisco. Ele foi há pouco nomeado assessor do Chanceler Aranha. O Presidente se levantou da cadeira, veio em minha direção e me apertou a mão.

- Prazer, guri. Conheço muito tua família, gente corajosa. Deves saber bem que lutamos algumas revoluções juntos. Eu estava paralisado; ele estava ali, baixinho e gigante. Melancólico, derrubado, sem aquele viço que parecia ter nas fotos mais antigas. Mas era o próprio Getúlio Dornelles Vargas. Uma aparição recriada nos mínimos detalhes. Deu uma risada e continou: esses teus parentes não têm dó de degolar! Tu sabes o que significa o apelido de vocês, Mixinga? Ri também; aquele era um apelido pejorativo, mas queria ouvir da boca do velhinho.

- Não sei senhor Presidente, o que é?

- São aquelas moscas varejeiras que empesteiam o campo depois de uma batalha. Varejeira de cadáver. Teus parentes não têm esse apelido à toa. E riu-se com gosto. Esse ramo da minha família não tinha, de fato, a melhor fama…

Alguém bateu a porta. O major Dornelles, que assistia satisfeito à cena, por conseguir trazer um riso ao rosto do Presidente, atendeu e saiu apressado, pedindo licença. Me olhou rapidamente como que confirmado nosso trato: que eu não demorasse. Assenti. Quando ele saiu, tranquei a porta e o Presidente levou um susto, protestando.

- Mas o que é isso guri, estás louco?

- Presidente, eu sei o que senhor pretende. Em algumas horas o seu gabinete vai se reunir com o senhor e pressioná-lo a se licenciar; quando o senhor assentir, a contra-gosto de D. Alzira, eles vão comunicar à República do Galeão e os milicos vão sair por aí divulgando que foi negociada sua renúncia. Carlos Lacerda vai festejar, a classe média golpista vai às ruas comemorar. O senhor não vai aguentar a traição do povo por quem deu sua vida e às 8h30 da manhã de amanhã, 24 de agosto de 1954, vai honrar a frase que está estampada na Última Hora de hoje e vai dar um tiro no coração. Sairá do Catete morto.

- Mas o que é isso, guri? Você está me assustando. Você é algum tipo de entidade? Já falei para o Gregório que não mexesse mais com isso, que me deixasse em paz! Só quero paz!

- Eu vim do futuro. De 2014. Presidente, se o senhor agir com pulso firme e punir o Gregório, o Benjamin e o Lutero e for ao rádio e fizer um comício, tudo volta à normalidade. Quando o senhor morreu, tudo virou ao contrário e o povo foi às ruas aos milhões chorar sua morte. O povo nunca lhe esqueceu.

- Que conversa de maluco! Getúlio se jogou na cadeira e a girou, encarando a parede. Me dê uma prova de que você veio do futuro, ele pediu. Eu então catei nos meus bolsos o aparelho celular e dei play em uma música da Madonna. Espantado, ele tomou o aparelho da minha mão: Mas que diabos é isso! Que música tenebrosa. Você é soviético, menino? Algum alemão que fugiu? Que diabo de tecnologia é essa? Essa música é pra tortura?

- Isso é uma música muito popular em 2014, Presidente. Aliás, a União Soviética vai acabar em 1991. O velhinho me olhava de cenho franzido e olhos arregalados; não sabia no que acreditar. Mas parecia que eu tinha acertado no alvo e lido seus sentimentos mais íntimos. Para terminar de vez com as dúvidas deles, comecei: “Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.”

O Presidente pulou da cadeira: Meu Deus! Ou o Maciel é um grande de um traidor, ou que diabos é você?

- Já lhe disse, Presidente, vim do futuro. Ele olhou de novo o aparelho, pensou, sentou-se. Por fim afrouxou a gravata.

- Meu filho, seja lá quem você for ou de onde venha, já que já chegamos até aqui… Um grito do major Dornelles o interrompeu. Está tudo bem major, volte em dez minutos. E continuou: já que chegamos até aqui, saiba que perdi o gosto pela vida. Estou velho. Tenho 72 anos. Que horizonte eu tenho? Que futuro? Dei minha confiança ao Benjamin e ao Lutero, sangue do meu sangue, e ao Gregório, em quem eu não apenas confiei mas confiei cegamente. Eles me traíram, me apunhalaram. Acredite, guri, eu nunca levei um centavo nesses anos todos, sou rico, você deve saber, porque meu pai também era e me deixou muitos bens; mas meu irmão e meu filho não se contentam, querem mais e mais, e o Gregório sempre teve medo de ser descartado e quis fazer a forra enquanto podia. Eu não tenho coragem de punir essas pessoas que são donas da minha afeição, dignas do meu carinho. Eles erraram, sim, mas quem não errou nessa vida? E agora o povo nem quer saber de nada, querem minha caveira, minha cruz, e isso me tira a vontade de lutar. Mas fico contente que tu tenhas vindo até aqui, sabe Deus de onde, pra me dizer tudo isso, acredite. Vou levar um pouco de alegria pra tumba em saber que o povo me redimiu. Mas me diga, você é mesmo dos Bento Rodrigues de São Francisco ou é história?

Embargado, posei a mão no ombro do Presidente e assenti.

- Então vou te contar umas histórias da tua gente que talvez ninguém mais, lá no teu tempo, vá se lembrar. Quem eu primeiro conheci da tua família, quando eu era criança, foi o tenente João Bento Rodrigues, ele deve ser o que, teu bisavô?

- Tetravô.

- Teu tetravô. Casado com a D. Josepha Alves de Campos, que eu também conheci bem. Eles eram vizinhos da fazenda do meu tio Serafim…

E assim passei aquela tarde com o Presidente Getúlio, sabendo de detalhes da história de meus antepassados e tios-avoengos que, de fato, nem mesmo meu avô deve ter conhecido. O carisma dele, mesmo tão abatido, era admirável; seu jeito de falar e contar histórias, profundamente envolvente. Lá pelas tantas, o major Dornelles bateu na porta. Abri. O Presidente ria da história de um tio dele que roubou um cavalo dos meus trisavós. O major respirou aliviado. O Presidente me deu um abraço sincero e se despediu. Pensei em esboçar um último argumento, a ideia do suicídio ainda me chocava. Mas senti que não tinha direito, mesmo que em sonho, de mudar o curso da história. Fitei fixamente os olhos dele e, cabisbaixo, disse adeus.

Acordei sobressaltado com o despertador tocando. Nove da manhã. Tinha um compromisso formal às dez e não podia chegar atrasado de maneira alguma. Repeti meu ritual matinal de sempre: café com leite, misto frio, mamão papaia, banho, escovar os dentes e me vestir. Quando fui escolher o terno, lembrei-me do sonho e fui checar meu celular. A internet estava funcionando, respirei aliviado. Na Folha, edição de 24 de agosto de 2014, Jânio de Freitas escrevia: “No dia 23, o Brasil estava endoidecido de ódio a Getúlio. No dia 24, enlouquecido de saudade”. Engoli em seco. Fui ao meu armário, enfiei a mão no bolso interno do terno e tremi quando descobri um cartão ali dentro. Retirei devagar, quase não querendo ver. Quando finalmente criei coragem de encará-lo, li, gélido: Major Hélio Dornelles de Mello — Ajudante-de-Ordens do Presidente da República.