17.jun.2013 - avenida brig. luiz antonio/giannini

De volta às armas, a imprensa brasileira retoma ataques ao governo

Giannini
Jun 30, 2013 · 4 min read

A onda de manifestações que varreu o Brasil recentemente deixou governo e oposição desconcertados com os rumos do país. Principal alidada dos oposicionistas, a imprensa, também ficou desbaratinada com os protestos e sem saber que posição assumir.

Embora a presidenta Dilma Rousseff tenha sido muito criticada por seu pronunciamento de 22 de junho, ela foi hábil na ocasião em enumerar metas a serem perseguidas pelo governo. O que ela fez, na verdade, foi dar aos manifestantes e ao povo brasileiro um norte que antes parecia difuso e sem propósito concreto.

O resultado, na semana seguinte à aparição de Dilma na TV, se fez sentir no Congresso. Muitas das iniciativas que estavam empacadas na pauta foram milagrosamente colocadas no fast track e aprovadas. A destinação dos royalties do pré-sal para Educação e Saúde foi apenas uma delas.

No entanto, era de se esperar que oposição e imprensa, sempre andando de braços dados desde a ascenção de Lula e do PT ao poder, não fossem ficar imobilizados diante dessas movimentações. Neste sábado, a Folha de São Paulo divulgou pesquisa do instituto DataFolha sobre a popularidade de Dilma, que registrou queda de 27 pontos percentuais nas últimas três semanas. A repercussão, claro, foi mundial.

A agência Reuters, por exemplo, abre sua reportagem sobre o assunto com o seguinte lead: “President Dilma Rousseff’s approval rating sank by 27 percentage points in the last three weeks, a poll showed on Saturday in the strongest evidence yet that the recent wave of street protests sweeping Brazil poses a serious threat to her likely re-election bid next year”.

Notem que a tese é a de que os índices podem influenciar na “possível” reeleição de Dilma em 2014. E a reportagem continua: “The drop was the sharpest for a Brazilian leader since 1990, when Fernando Collor outraged the population by freezing all savings accounts in a desperate attempt to stop hyperinflation. Two years later, Collor resigned the presidency as Congress moved to impeach him over corruption allegations”.

Colocar a reeleição em cheque é um primeiro movimento, associado à aproximação da presidenta com Collor, que após ver sua popularidade cair sofreu impeachment por causa de alegações de corrupção - que no caso dele foram comprovadas.

Veja e Rede Globo ainda não entraram nesse movimento, mas certamente devem seguir a mesma toada, se ambos os veículos se comportarem como sempre e virem uma oportunidade de colocar Aécio Neves para substituir o pateta do José Serra como principal aposta de volta ao neoliberalismo.

Não é de se surpreender que nenhum dos governos estaduais, especialmente o de São Paulo, que levou ao início e à escalada das manifestações tenha sido avaliado. Se fizerem isso nas próximas semanas, me calarei olimpicamente, Mas duvido que essa pesquisa ganhe destaque merecido, se vier a ser feita - com honestidade e idoneidade. A não ser que o objetivo seja enterrar a ala a que pertencem Serra e Alckmin no PSDB.

ATUALIZAÇÃO

Neste domingo (30), a revista IstoÉ, que costuma correr por fora - em todos os sentidos - da turma da grande imprensa , publicou uma entrevista com o sociólogo espanhol Manuel Castells, 68 anos, um dos maiores especialistas da atualidade em movimentos sociais na era da internet.

Entre outros trechos que valem a pena ser ressaltados e falam por si, eis um que vale a pena ser reproduzido:

ISTOÉ - A presidenta Dilma agiu corretamente ao falar na tevê à nação, convocar reuniões com governadores, prefeitos e manifestantes para propor um pacto?

MANUEL CASTELLS - Com certeza, ela é a primeira líder mundial que presta atenção, que ouve as demandas de pessoas nas ruas. Ela mostrou que é uma verdadeira democrata, mas ela está sendo esfaqueada pelas costas por políticos tradicionais. As declarações de José Serra (o ex-governador tucano criticou as iniciativas anunciadas pela presidenta) são típicas de falta de prestação de contas dos políticos e da incompreensão deles sobre o direito das pessoas de decidir. Os cargos políticos não são de propriedade de políticos. Eles são pagos pelos cidadãos que os elegem. E os cidadãos vão se lembrar de quem disse o quê nesta crise quando a eleição chegar.

Mais um, que resume contra quem Dilma está lutando enquanto tenta colocar o pais de volta aos trilhos:

ISTOÉ - Como resolver a crise de representatividade da classe política?

MANUEL CASTELLS - Com reforma política, com uma Assembleia Constituinte e um referendo. A presidenta Dilma Rousseff está absolutamente certa, mas, nesse sentido, ela será destruída por sua própria base.

    Giannini

    Written by

    Giannini

    Jornalista, crítico de cinema e, mais importante, pai do Antônio, minha obra-prima

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade