Prazer

A gente precisa disso. Precisa tirar o prazer da sarjeta de coisas mundanas ou menores ou sujas. Experimenta. Experimenta estar com alguém pelo prazer. Experimenta pra ver como o amor pode nascer, crescer e morrer numa frágil existência de bolha de sabão e TUDO BEM. Experimenta só pra saber como é mágico ser temporariamente cúmplice de quem não te disse um sim na presença de uma pequena audiência que depois virou foto central num álbum que você abre a cada aniversário de casamento (ou em intervalos ainda mais espaçados). Reciprocidade. Experimenta respeitar alguém a esse nível: estar ali para servir e ser servido, para descobrir e ser descoberto na sua inteireza, na intimidade dos sons que você emite quando uma língua passa sem avisar, na cor do elástico meio gasto da sua roupa de baixo. Esquece o que deveria vir antes e a promessa do depois. Vem pra cá. Agora. É de tirar o fôlego de tão bonito que é uma pessoa estar inteira com você, com o melhor e o pior dela, independente da forma, peso, tamanho e outras coisas da física. Vem pra química ver o que acontece quando junta essa ideia com essa mão com esse hálito com esses pelos com esse timbre com esse peito com esse fluido com essa língua com esse olho e o olhar que veio com ele ao som das palavras não ditas porque faltou vocabulário pra exprimir. O pau meio torto, um peito maior que o outro, a barriga que sobra, a depilação que não deu tempo de marcar, a estria aparente, deixa isso pra lá só hoje, por favor. Só hoje faz sexo entregando a alma envolta no corpo como veículo possível e não como espetáculo estético de fisiculturismo. Pelo menos uma vez na vida experimenta a intensidade honesta do que acontece quando você não está pensando no jeito como deveria soar e apenas deixa sair de dentro o que tem disponível. Nossa, sim, pelo menos uma vez na vida sai desse papel que você supostamente deveria performar — você não precisa protagonizar esse pornô asséptico de caras e bocas pré-fabricadas pela indústria do entretenimento sexual. Deixa sair, deixa entrar, deixa o sexo de verdade te bagunçar os cabelos e as certezas e-vai-go-zan-do-com-pri-do-e-gos-to-so, pedra que cai retinha lá pro fundo de um lago pacífico. Experimenta não compreender a água, apenas sentir o prazer de estar envolto por ela. O corpo que formiga. O barulho de tudo vibrando de dentro pra fora. Respira. Depois olha bem pro outro. A pessoa essa do seu lado na cama, no carro, na escada, no chão, na mesa. Encontra um jeito de agradecer sem prometer, porque assim fica ainda mais bonito. Valoriza isso porque igualzinho, igualzinho, nunca mais. Foi hoje. Foi essa. Foi lindo. Foi um prazer.

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