Quais são seus cheiros?

O olfato é meu sentido mais nostálgico.

Lembro do cheiro da escola no jardim de infância, todavia como nunca mais o senti, não sei se de onde vinha, se era de alguma massinha, canetinha ou tinta plástica. Quando eu abro as pastas de desenhos daquela época, respiro fundo para ver se vem um pouquinho do aroma armazenado, mas acho que os cheiros são muito voláteis e só vem odor de guardado. Aquele cheiro de velho, que não nos deixa esquecer quando estamos diante do passado.

E a essência de Alfazema da minha bisavó que já se foi, por sorte ainda existe na farmácia toda linha de sabonetes, talco e perfumes. Quando eu vejo dou sempre uma fungadinha na embalagem e fecho os olhos. Lá vem ela na memória, por instantes parece que está do meu lado, de saia no joelho, meias e pele enrugadinha.

São tantos cheirinhos especiais…de brigadeiro lembro-me quando voltava para casa da escola e tinha bolo com cobertura de chocolate da minha mãe, de bolo no forno remete a casa da minha avó na década de noventa e ela com cabelo enroladinho de quem fazia permanente, de homem perfumado lembro do meu pai indo trabalhar.

Tem também o ar das cidades, cada uma exala sua fragrância e consequentemente carrega história.

Na gravidez ganhei um super nariz e aquela explosão de odores significava vômitos diários, até cheiros antes favoritos viraram desagradáveis. Quando lembro do meu barrigão vem na mente o aroma da flor de magnólia, ela florescia bem na janela do meu quarto no auge dos enjôos. Sinto o arrepio até hoje da náusea. Uhgh!

Quando o meu filho nasceu descobri o melhor cheiro de todos, recém nascido era a essência de quem acabou de chegar ao mundo, pureza! Agora tem cheirinho de neném sapeca. Me dá vontade de apertar só de pensar. Fico abraçadinha cafungando o pescoço e o cabelinho…ah que paz e amor completam a alma.

Talvez por ser tão conectada ao olfato escolho perfumes por fases. Não consigo ter vários ao mesmo tempo, ficaria confusa diariamente; uso o mesmo até o momento que ele perde o sentido. Mas é tudo muito inconsciente, não consigo verbalizar o que determina a escolha, não sei se as vezes quero me sentir mais feminina, outras mais delicada, épocas mais sexy. Sei lá.

E quando passa alguém com um dos perfumes que já chamei “ de meu” em algum momento, vem logo muitas imagens, como um filme passando rapidinho de todos os instantes marcantes já vividos em determinada época. Que delícia! Essa memória visual associada ao olfato deixa tudo mais real e por um breve tempo dá a sensação de reviver, dá a oportunidade de viajar no tempo.

O perfume que estava usando já não está fazendo mais sentido para o agora, parece que ele já virou passado, quando o uso fico mais nostálgica do que intensa, preciso trocar. Que histórias este novo perfume irá carregar? Que sensações despertará? Por que lugares ele irá passar?

As fragrâncias por serem invisíveis e intocáveis são algumas vezes desprezadas, mas elas estão aí no dia a dia, a todo momento: despertando nosso apetite, nos fazendo sorrir, às vezes enjoar, apaixonar ou mesmo desapaixonar, oferecendo mais intensidade e beleza aos momentos presentes e dando também mais graça às lembranças.

Esses são os meus, mas quais são os seus?

Bora dar fungadinhas por aí!?

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