Um relacionamento saudável é livre de senhas

Que tal um assunto polêmico? Destes que não tem como ficar em cima do muro, ou cai para um lado ou cai para o outro ou finge que não leu.

Pois bem, o tema é sobre compartilhar senha de celular com seu parceiro ou sua parceira de relação. O que acha disso?

Estas senhas são historicamente novas, meu primeiro celular com senha foi em 2011, eu achava um saco ter que colocar o código antes de cada uso. Mas aos poucos elas foram virando interessantes, os celulares começaram a armazenar segredos.

Antes deles haviam as senhas de e-mails e do Orkut, que eram também guardadas à sete chaves.

Mas anteriormente à era digital, códigos eram raros, tinham os do banco e se a pessoa possuísse algum cofre, basicamente eram estes.

A comunicação se dava pessoalmente, por telefone fixo( ligar para celular era caríssimo) ou cartas.

Ao mesmo tempo que era mais fácil esconder segredos( não haviam tantas câmeras on-line por aí), também não tinha muita mamata. Se conhecesse alguém diferente, para manter contato tinha que passar o telefone da tua casa, no caso qualquer um da família podia atender( zero privacidade, era engraçado quando a mãe atendia os paqueras).

Se quisesse ver fotos de pessoas nuas era preciso ir a uma banca de jornal, andar com a revista por aí e levá-la a um lugar privativo. Ter Playboy em casa era assunto conversado.

Cartas chegavam endereçadas porem nem sempre em mãos, ninguém costuma abrir carta de outra pessoa, mas se chegasse para o marido alguma correspondência diferente, a curiosidade tomava conta e bonitão teria que lê-la sob vigilância. Mas e depois onde ele guardaria uma carta secreta?

Só se tivesse uma gaveta com chaves. Que marido antigamente tinha uma gaveta com chaves que a esposa não tinha acesso, ou vice versa?

As tretas eram outras…elas sempre existiram por qualquer motivo que fosse. Mas não era comum guardar, debaixo do mesmo teto de quem amava ,confidencialidades; havia uma espécie de medo e respeito maior.

Hoje os celulares estão com senhas e é tabu pedir a senha da namorada/o, afinal eles ganharam o nome de dispositivos móveis pessoais e imediatamente foi atribuído o status de eu tenho o meu, você o seu e ninguém precisa fuçar no do outro.

Mas não é bem assim mermão! Quando namoramos, casamos, noivamos topamos dividir “o mesmo teto”, assim cada relacionamento tem suas regras, alguns não se importam com fidelidade, noutros ainda há celibato antes do casamento, enquanto para alguns tudo é livre.

As normas dos relacionamentos são criadas juntas, um mix de sentimentos e opniões que tem o objetivo de serem respeitados, se for para fazer diferente, mude primeiro as regras. Assim, se tudo isto está conforme combinado, por que ter uma senha tão sigilosa?

Por que não compartilhar a senha e confiar que o outro não vai fuçar? Aliás ninguém vive bem bisbilhotando a vida de outrem( se você vive para espionar seu parceiro/a, vale procurar ajuda profissional ou pensar num termino).

Compartilhar senhas hoje em dia é sinônimo de -pode confiar em mim; mas mais do que isto, é um lindo- eu posso confiar em você!

Posso confiar que vai ter acesso à tudo mas não vai ler assuntos particulares de amigos e família, não vai bisbilhotar meu dia todo, não vai usar meu nome indevidamente( nem que seja para brincar).

Acredito ainda que o ápice de um relacionamento bem sucedido, seja quando ambos tenham as senhas do outro e sequer tenham a vontade de mexer.

Importante lembrar que os caminhos que trilhamos na internet não são como um passeio por um universo paralelo que as leis vigentes são outras. Muito pelo contrário, tudo que acontece lá afeta diretamente a vida cotidiana.

Acredito que dentre todas as modernidades que estamos tendo dificuldade em aprender a lidar, está o relacionamento moderno. Este relacionamento é muito mais exposto, tanto nas redes como às redes. Ele que deve ser tratado com muito carinho, pois nunca corremos tanto o risco de trocarmos o real pelo virtual.

Uma das formas de preserva-lo é trocando senhas. Se entrega assim?