O Muiraquitã e nossos modernismos desnecessários.

De 2006 a 2014, trabalhei como ator profissional na cia. Antropofágica de Teatro, em São Paulo. Como o nome sugere, era muito cara para nós a ideia oswaldiana de antropofagia: devorar o que não é nosso, digerir e transformar em uma outra energia artística.

No nosso campo de estudos literários, sempre paralelo ao fazer teatral, além do próprio Oswald de Andrade, Mário de Andrade era uma figura fundamental porque havia escrito o primeiro romance realmente antropofágico: Macunaíma.

Em ocasiões especiais — aniversários do grupo, festivais, celebrações de prêmios, participações em atividades culturais nas várias ocupações da Reitoria da USP etc. — nós apresentávamos uma performance com um conjunto solto de cenas que incluíam alguns trechos de Macunaíma.

Também fazia parte do nosso dia a dia a pintura ritual do corpo e uma coleção de músicas indígenas coletadas pelo diretor musical, que também integrava de um conjunto de professores que se utilizavam do método Orff, que dá muito valor para esses achados culturais folclóricos no ensino da música. Fazíamos ainda, ocasionalmente, audições de obras de Villa Lobos, inspiradas nas suas viagens amazônicas entre várias outras referências indígenas que iam desde a estética até à organização política do grupo, que inspirava-se na organização tribal.

No entanto, em toda essa experiência com a cultura indígena, mediada sempre pelo modernismo, nunca estudamos muito as artes visuais indígenas, para além dos grafismos rupestres que inspiravam algo da identidade visual do grupo.

O preconceito da nossa sociedade, que tem uma compreensão eurocêntrica da arte, nos faz acreditar que não há nada de muito interessante no trabalho visual indígena, ainda mais nos achados mais antigos, de mais de mil anos atrás. Imaginamos que somente trabalhos toscos feitos em barro com grafismos repetitivos e sem muito significado podem ser encontrados.

Como todo preconceito, este também é fonte de grande ignorância.

Parte do acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP em São Paulo, o muiraquitã de jadelita (abaixo), originário da Cultura Santarena no Baixo Amazonas, com data entre 1000 e 1500 d.C. é uma das provas mais eloquentes da potência estética indígena que já vi.

Em nosso preconceito, seguimos procurando a mera função pragmática para o objeto, tentando imaginar porque ele foi feito, ou melhor: para que, imaginando que os indígenas que viviam na região que veio a ser o Brasil muito antes da chegada dos europeus não eram capazes de fazer um objeto belo pela própria fruição estética. Contra essa idéia, Darcy Ribeiro adverte:

“O esforço e a diligência que um índio põe no fazimento das coisas é muito maior do que o necessário para que elas cumpram suas funções pragmáticas. Esse esforço adicional e dispensável seria inútil e fútil, se beleza não fosse assunto tão sério para seres humanos equilibrados e íntegros. Com efeito, os índios — como em geral as gentes das sociedades não estratificadas que conseguiram desenvolver uma economia de subsistências que os liberte da penúria — vivem como se fossem criaturas de um deus dionisíaco que lhes deu corpos armados de prodigiosas possibilidades de gozo, espíritos fantasiosos e mãos capazes de recriar o mundo vivificando a matéria em formas de beleza exemplar.” [1]

Não tendo acesso à própria obra, podemos fazer uma leitura da fotografia da obra apresentada. Com uma simetria bilateral de grande precisão, o objeto se compõe em duas partes: uma superior, em formato mais esférico, e uma inferior, em formato mais cilíndrico, com incisões e cortes em ambos os lados. O material (jadelita verde) bastante polido, confere a esse muiraquitã um aspecto brilhante e, ao mesmo tempo, um pouco translúcido, de um verde muito e pouco saturado, claro e escuro, de acordo com a incidência da luz sobre as partes do objeto. Na parte de cima, a cabeça, podemos ver olhos nas laterais. Na parte de baixo, o corpo, podemos ver representações bem geométricas de pernas. O objeto parece representar um sapo.

Antes de conhecê-la, e assim como ela se apresenta, se me fosse dito que era uma escultura modernista, particularmente cubista inclusive, eu acreditaria sem pensar duas vezes.

Em Macunaíma, o muiraquitã é um objeto de muito valor e absolutamente necessário ao herói porque traz boa sorte. Correndo atrás dessa sorte, esse sujeito, ora índio, ora branco, ora negro, segue como uma representação pungente, ainda que polêmica, do povo brasileiro: procurando a todo custo um milagre para resolver todos os seus problemas sem muito esforço: “ai, que preguiça!”

O próprio sapo, além das histórias de viajantes como Hans Staden, foi o disparador na cabeça criativa de Oswald de Andrade para a ideia de Antropofagia. Conta-se que foi em um jantar, no qual serviram rãs como prato principal, que o escritor olhou para aquelas perninhas e viu muita semelhança com as de um corpo humano e começou a pensar sobre a antropofagia. “Só a antropofagia nos une!”, diria ele depois no seu Manifesto Antropófago.

No entanto, é a economia de elementos, a precisão formal, a escolha do material, a simbologia polissêmica, a temática mitológica, o perfeito arranjo de incisões angulares e volumes curvilíneos, o equilíbrio da composição, tudo isso faz desse muiraquitã uma obra de arte realmente admirável, em si mesmo.

A relação com o modernismo, com minha história no teatro, com a literatura brasileira, com o cubismo e com o nosso entendimento do conceito de “arte” é só mais uma forma na qual se manifesta o nosso próprio preconceito que não quer ver o muiraquitã por si mesmo, mas precisa dessas justificativas externas à obra para tentar conferir a ela um estatuto de arte.

Mas quem disse que é isso que ele quer ser?

O Muiraquitã não precisa do modernismo, o modernismo é que precisa do Muiraquitã.

De todo modo, concordamos com Darcy Ribeiro: a pessoa que se ocupou em fazer esse Muiraquitã deu-se ao trabalho de fazê-lo belo. E acertou em cheio! Essa beleza, encontrada nesse e em milhares de outros objetos, é também a beleza criativa e sensível originária do nosso povo brasileiro.


[1] RIBEIRO, Darcy. Arte índia. In: ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Instituto Moreira Salles, Fundação Djalma Guimarães, 1983.