tona profunda
25/02/14 — sobre 2 Coríntios 3:17-18
Debruço-me sobre o poço.
Procuro ver-me.
Desejo me olhar nos olhos
E admirar em mim qualquer virtude.
Mas só vejo minha carne:
A escravidão do existir
Nas correntes do tempo e do espaço.
Não me vejo, não.
Vejo no poço minhas máscaras em camadas
Que não consigo remover.
Só vejo o que pareço
Olhos e luz refletida
Imagem, simulacro,
O corpo apodrecendo.
Mergulho para me ver de perto
Mergulho em mim
E me falta o sopro
No fundo do poço
Morro.
E encontro outro espelho
Este com luz própria.
Mas não me vejo,
Nem meu rosto
Nem essa tagarelice
A que chamo mente
Nem os sentimentos
Efêmeros e vulneráveis.
Vejo quem sou: um.
E — um — naquele
no qual todos são um.
Um sopro, um vento,
Uma luz, uma beleza,
E T E R N A.
Volto à tona
mais profunda.
E sigo livre
como única brisa nu
que somos.