Conto

Eu queria contar um singelo episódio da minha infância, sem nenhum remorso ou nostalgia. As lembranças vêm em um desses sobressaltos das nossas emoções, cuja origem desconhecemos, mas que dão novas cores a momentos que poderiam ficar para sempre nos escombros da nossa memória. Eu aprendi a andar de bicicleta, pois meu prestativo pai comprou uma para mim. Ele deve ter feito um esforço danado, ainda devo o agradecer quando for em casa, talvez nos próximos dias. Quando ele quiser, sem dúvidas, comprarei a possibilidade dele ter um passeio de avião. É o mínimo para quem, sem qualquer necessidade, pelo menos penso assim hoje, possibilitou-me estar tentando, o verbo é previsível, eu sei…, voar. É, pai, estou voando! Confesso, tal como disseram para mim sobre Fausto, às me perco ou, para citar uma referência menos poética e, talvez mais próxima do seu robusto coração, cito Hegel: “es hat sich selbst verloren”. Olha, pai, aqui é para mostrar para você, e depois você contar todo orgulhoso para as pessoas a sua volta, que falo alemão. Para ser sincero eu não falo, só sei conjugar um verbo mesmo… Se eu morresse hoje ficaria feliz por poder ter tido a chance de dizer que sou seu filho. Você me ensinou a amar pela dor, e isso me lembra uma relação que estudo. Quanto mais falta de amor, mais amor: eis a identidade na diferença, e a diferença na identidade.

No final, entendo você, pai, pois os sentimentos não são coisas que simplesmente expressamos para qualquer pessoa, né? Lembro vivamente das únicas vezes em que você chorou. Uma foi por causa do seu pai, outra por causa de mim. Nos dois momentos estive ao seu lado. Nos dois eu o apoiei. Nos dois choramos juntos. Acho que basta, você não precisa provar mais nada a mim. Quero apenas poder provar para mim, talvez para nós… Bom, um dia talvez eu conto isso para você.

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