Distorce o significado de coerção.
Matheus Santana
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Gostaria que você explicasse melhor de que forma o significado de coerção foi distorcido. Trabalho conceitualmente uma distinção entre “coação” e “coerção”, na medida em que a coerção não se impõe fisicamente e a coação sim, já que vem de co-agir, agir junto. Por isso meu trecho fala de “coação”:

Não cabe na cabeça dos libertários atuais, anarcocapitalistas ou congêneres, que as estruturas sociais a que nos submetemos já estão a serviço de um sistema cuja lógica privilegia e direciona a liberdade de uns enquanto coage e determina a realidade opressiva de outros.

Quanto à falácia kafkaniana eu discordo. Não há no meu texto nenhum tipo de acusação ou culpabilização daquele que se beneficia de um sistema injusto, embora possa ser esperado que as pessoas consigam pensar politicamente para além de seus próprios umbigos e perceber que aquilo que o beneficia é circunstancial e está para além de seu esforço pessoal. De outra forma não poderíamos falar em “pensar politicamente”, já que se pressupõe um “pensar para a Polis” ou pensar de forma cidadã. Ora, até um egoísta que se recusa a se prender exclusivamente numa razão de meios poderia perceber que ao legitimar um benefício que ele tem apenas circunstancialmente, um dia a balança pode pender para outro lado, o que o faria a questionar se aquilo que o beneficia, de fato, é um bem comum ou algo desejável, apesar de beneficiá-lo. Essa constatação é praxeológica, inclusive.

Gostaria muito que você pudesse caracterizar em meu texto onde ocorre essa falácia kafkaniana.

Quanto às suas observações:

1 — O homem in natura é pobre e precisa “trabalhar” pra sobreviver.

Penso que essa sua asserção nos traga algumas confusões conceituais. Você parece conceber um tal “homem in natura” cuja atividade de transformar o meio a seu favor fosse algo à parte de sua própria natureza. Desconheço um “homem in natura” que não seja homem já imbricado ao seu meio e atuante nele através do trabalho desde sempre. Homem não nasce pobre, nasce, como todo e qualquer animal, com necessidades e usa os meios que lhe são próprios para suprir essas necessidades, da mesma forma que um chimpanzé usa gravetos para pegar cupins em troncos ou orcas caçam focas na praia colocando todo seu corpo fora da água. O fato de serem atividades aprendidas e de uma cultura específica dessas espécies em uma determinada região do mundo, não signifca que seja apartado de seu estado “in natura” (seja lá o que isso queira dizer).

2 — Divisão do Trabalho aumenta criação de riqueza e facilita tal sobrevivência.

O problema dos “libertarianistas”, mais especificamente daqueles que adotaram o sistema de pensamento da escola austríaca, é um método epistemológico acrítico que rechaça a questão histórica reduzindo-a a mero historicismo. Dessa forma confundem a divisão de trabalho no seio de um sistema específico com toda divisão de trabalho histórica que já houve sob um mesmo conceito. Em geral, e podemos concordar, toda e qualquer divisão de trabalho beneficia a eficiência produtiva, aumentando a quantidade produzida no mesmo tempo ou reduzindo o tempo para se produzir a mesma quantidade. Com o incremento tecnológico aliado, a eficiência aumenta exponencialmente. Até aí, penso, concordamos.

Mas daí não se segue “criação de riqueza”, mas, sobretudo, circulação de recursos, criação de necessidades, expansão monetária, expansão de crédito (antecipação de consumo) e mudanças entre propoensões marginais a consumir e poupar.

O mito da “criação de riqueza” é algo que se repete como um mantra, mas não se explica para além daquilo que querem que seja verdade. Na época da Economia Política Clássica de Adam Smith e Ricardo, tudo o que se produzia era consumido. Era o suprassumo de uma economia, porém isso acontecia por conta dos estoques e acumulação existentes. Ou seja, fez-se circular a riqueza e não se criou nada.

Como vocês mesmos dizem: “não se tem almoço grátis”. Com a diminuição do estoque de riqueza acumulada, cada vez mais a fonte de consumo passou a vir de salários pagos. Mas a conta nunca fechou. Nenhum empresário desmobiliza sua riqueza acumulada para retornar menos do que foi mobilizado. Logo, para pagar X de salários eu preciso que o consumo seja X+’n’. Só que esse ’n’ (que é o lucro) de onde vem? De endividamento do consumidor via antecipação de consumo. O sistema se move e pensa criar riqueza porque cria crédito para que o consumo seja no mesmo nível de produção, e a conta nunca fecha, até que o sistema entra em crise, pois “não tem almoço grátis”.

Mas claro, os liberais colocam a culpa no governo inchado, impostos onerosos e nos programas assistenciais.

3 — Uns produzem mais que outros

Sim, evidente. Outros produzem explorando a força de trabalho de uns.

Abraço.

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