Primeiro, desculpe se me expressei mal ou se fui ofensivo de alguma forma.
Matheus Santana
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Imagine, Matheus Santana, de forma alguma você foi ofensivo. Estou gostando muito de nosso papo e não vejo porque publicar nada em nenhum lugar sem que se possa ler, ouvir, aprender e replicar todas as discordâncias. Isso é enriquecedor. Aliás, só é possível aprender de fato na discordância. Quem concorda não ensina.

Sobre coerção… Há uso desse termo stricto sensu e lato sensu, claro. No caso dos libertarianistas (desculpe-me por não chamá-los de ‘libertários’, pois também me penso como um e não comungo das mesmas ideias), você definiu o caso em que vocês designam a coerção. Penso que esse termo designa situações bem mais amplas e abrangentes que essa definição. Até porque, em se tratando do uso da propriedade privada dos meios de produção gerando renda através do trabalho social, poderíamos entender sua existência como coercitiva, na medida em que fere frontalmente a liberdade.

Sobre benefícios circunstanciais… Concordo que o conceito de “culpa” não tem porque entrar na questão de benefícios circunstanciais. Mas se partimos do pressuposto de que o ser humano age racionalmente, e concordarmos que somos dotados de dois tipos de racionalidade (a de meios; instrumental, circunstancial e pessoal, e a dos fins; social, coletiva — embora subjetiva), precisamos compreender que aquele que defende um benefício circunstancial do qual ele não controla e vive em detrimento daquele que, também circunstancialmente, não se beneficia, tende a coagir e impedir que a balança penda para seu oposto, o que significa a cercear a liberdade de outrem. Mais racional seria, portanto, lutar para que os benefícios sejam estendidos de maneira mais justa e igualitária, mesmo que isso signifique limitar sua liberdade para além do “posso, então devo”.

Sobre o “homem in natura”… Nenhum ser nasce com garantias de que suas necessidades serão atendidas, da mesma forma que nenhum ser nasce sem necessidades externas para sobreviver. Nossa diferença dos animais é que possuímos uma autoconsciência, ou uma consciência recursiva, reflexiva, que nos permite antecipar racionalmente situações ao invés de apenas reagir a elas. Temos instintos assim com animais possuem racionalidade, embora menos complexa que a nossa. Não fosse assim, chimpanzés teriam deixado de usar ferramentas. É comum pensarmos que toda ação humana artificializa o mundo, mas não vejo de forma dualista isso. Se, naturalmente, somos dotados de razão, o que fazemos com ela é natural, embora não seja nem fixo e nem essencial.

O homem só se define homem através de sua capacidade sui generis de usar o trabalho como forma de suprir suas necessidades. Só somos homens por causa disso e só trabalhamos porque nos socializamos. Ou seja, somos homens por causa de nossa socialização. É nela que o homem aprende a trabalhar e a usar sua racionalidade, seja para o bem ou para o mal.

Sobre historicismo… Certo, a Escola Austríaca não nega a história, mas a submete a Leis apodíticas. Do fato de que a partir uma análise histórica não seja possível chegar a conclusões que estariam “sempre certas”, não se segue que negá-la ou submetê-la a “leis” isso aconteça. Lei é uma regularidade no tempo que se interpreta historicamente e não uma emergência histórica que se conhece de forma apodítica.

Sobre divisão de trabalho e geração de riqueza… Matheus, aumento da eficiência produtiva não gera riqueza, apenas dinamiza a riqueza, realoca os recursos; não cria novos. A renda futura se dá de realocação de quem acumula e direciona para o consumo ou via antecipação via crédito. Não há outra alternativa. Realocação não gera novo, apenas movimenta o que já existe. Não há aumento da produção sem potencial de consumo e não há aumento de potencial de consumo se não houver poupança. Ao não enxergar quem acumula ou poupa, você parece negar a existência desse recurso e atribuir seu surgimento como criação do novo a partir da produção.

Sobre crédito, expansão monetária e etc… Sim, eu sei que os libertarianistas não defendem nada disso, mas contraditoriamente insistem em não ver que sem isso, não há lucro, pois pensam que a eficiência produtiva “cria” recursos do nada. Não há produção sem consumo do montante produzido acrescido do lucro, correto? Se o recurso para esse consumo pago em salários é, necessariamente, menor do que o valor produzido + lucro, de onde vem esse recurso adicional necessário? Ou se cria moeda ou se antecipa o consumo. Não há outra alternativa, a não ser que se acredite mesmo que recursos caem do céu ou o capitalista irá consumir o que falta, o que seria um contrassenso. A conta não fecha e foi calafetada pela ideia de que a eficiência da produção cria riqueza, quando a riqueza é fixa em um determinado tempo e apenas tem a capacidade de mudar de lugar.

Pense na afirmação de que “maior eficiência produtiva cria riqueza”. É um axioma indemonstrável que apenas é repetido ad eternum e se tranforma em um dogma que mascara o que, de fato, acontece. Mais uma vez, tentando dizer de maneira diferente, o lucro só acontece quando se vende o que se produz em um valor que acrescenta a tudo o que se gastou para produzir um montante que o empresário deseja ou é praticado no mercado. Quanto mais eficiente o sistema de produção for, mais lucro ele gerará potencialmente. Porém, só será gerado se houver consumo e consumo depende de recursos pagos pelo próprio ato de produzir, e deve ser necessariamente menor do que aquilo que se pretende vender. Ora, há uma diferença aí. Como ela é suprida? Não é com geração espontãnea de riqueza através de um dogma, mas apenas se aumenta a quantidade de moeda sem lastro ou se antecipando o consumo via crédito.

Daí se segue que, mesmo considerando o Estado malvadão, o liberalismo não existe sem o Estado cobrindo essa pirâmide que, periodicamente, cai e entra em colapso. Culpar o Estado, seja lá do que for, é a maneira mais eficiente de não vermos a falha do sistema ilícito de enriquecimento privado com uso social a que estamos todos nós submemtidos. A cosntrução ideológica daqueles que circunstancialmente se beneficia impede que se enxergue onde está realmente o problema.

Sobre exploração da força de trabalho…. Eu nem uso o conceito de mais-valia para afirmar sobre a exploração. Basta apenas sabermos que o interesse privado atendido socialmente pressupõe uma relação de exploração.

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