Pássaros Pretos

Brincando em meio a pressa

“Rápido, tenho que chegar rápido!” “Não tenho tempo para isso!” “Faço depois, agora não dá!”

Ele nem sabe como chegou ali… Apenas tinha chegado, como um robô no automático, mas aquilo não importava, só tinha que chegar e sentar em algum lugar vendo alguém explicar-lhe como funcionava o mundo.

“Que chegue antes, mas atrasado, nunca!” “Trabalho, seminário, artigo, cursinho…” “Que vidão, hein? Você estuda!”

“Eu estou velha, mas eu quero, antes de morrer, ver você se formar!”

Ele parou o carro, tentando normalizar a respiração, estava tendo outras de suas crises de ansiedade… Fechou os olhos respirando…Inspira, expira, inspira, expira… Tinha o peso do (seu) mundo em seus ombros e para não sentir aquilo só pensava em se ocupar ainda mais, até seu lazer era uma ocupação.

“Você tem esse tempo todo, pois não tem filhos. Você não sabe o quanto isso cansa!” “Ah, mas eu tenho um filho!”

“Quando tiver seus filhos, você verá!”

Olhou para o lado, onde dois pássaros que brincavam pulando de galho em galho na bougainvíllea próxima ao muro, algo que prendeu sua atenção completamente, não pensava em nada, não queria pensar em nada, apenas olhava os dois pássaros pretos.

Um, dois, três pequenos saltos, eles se distanciavam e depois se aproximavam, pareciam brincar de pegador, outra hora de esconde-esconde, tinha a impressão que estavam ali para apenas tirar-lhe um sorriso, do tipo que não costumava dar com muita frequência, aquele que aquecia seu coração, e se fosse aquele o objetivo, foi alcançado com um enorme sucesso,enquanto davam curtos voos ao redor da florida bougainvíllea.

Depois de algum tempo, esfregou os olhos cansados, com a respiração normalizada, mas continuou ali, apenas observando e respirando naquele pequeno mundo de pássaros e desapertos. Precisava de muito mais do que um instante para si, mas aquilo seria o suficiente, por enquanto.

Não soube dizer quanto tempo havia passado quando saiu daquele lugar, mas sua mente estava calma e seu coração estava bem.