The end



http://www.widbook.com/profile/eliane-da-costa-nunes-brito

THE END

Encontraram-se e olharam-se com mesma estranheza. Lorde Silverkain, ou simplesmente O Lorde, como era conhecido, puxou a espada e colocou-se em posição de ataque.

- Deve ser mais uma aberração de Meghara! — ele citou a poderosa bruxa das ilhas de Atwyn — Se for o responsável pelo sumiço de Justine, hei de lhe matar e deixar seus pedaços para que os lobos se refastelem.

O capitão Guy Swiller até pensou em puxar o sabre, mas ficou no pensamento. Sorriu daquele homem vestido estranhamente e que falava coisas sem sentido. Sob o olhar dele, afrouxou um pouco a cinta de couro, retirando a camisa branca e larga de dentro da calça de couro, e rapidamente apanhou uma garrafa metálica, levando-a aos lábios e bebendo os últimos goles de rum que havia ali, sem se preocupar com a expressão do desconhecido.

- Como ousa me ignorar, bastardo! — bradou o lorde, ainda mais nervoso com a indiferença daquele tipo estranho.

Guy gargalhou e seus olhos cinzentos se estreitaram. Não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, mas depois de enfrentar os mares mais violentos e os guardas reais, não estava intimidado.

- Pelo jeito já conhece minha família, o meu pai tinha um dom magnífico para colocar bastardos no mundo. No entanto, não posso reclamar, tive mais sorte que meus irmãos. Pelo menos ele raptou minha mãe, levando-a com ele para bem longe de onde a fúria do marido poderia alcançá-la — ele sorriu amplamente — Logo, pode-se dizer que sempre fui o bastardo favorito.

- Não quero saber de sua família, quero saber de minha Justine — o Lorde disse sem paciência — O que Meghara ordenou que fizesse com ela?

- Abaixe essa sua arma — Guy mais pediu do que ordenou, imaginando que jamais trocaria seu sabre por uma coisa daquelas — Não faço ideia do que está falando, tampouco de como cheguei a esse maldito lugar quente. Só tenho uma certeza: o barco está indo a pique, e estamos juntos nessa.

- Está acometido de alguma doença? Estamos em terra firme! — o Lorde esbravejou.

- É um modo de falar, criatura sem humor — Guy deu de ombros — Eu me lembro de que estava no Star e quando pisquei, o chão estava se abrindo embaixo dos meus pés, e se não estivesse em boa forma, teria caído num mar de fogo.

O Lorde ergueu uma das sobrancelhas, pela primeira vez pensando que o forasteiro podia estar dizendo a verdade. A terra também havia se aberto aos seus pés e não se recordava de como parara ali. Vira Justine voltar à vida, em seus braços, graças à magia de Mythias, o jovem mago, mal saído dos cueiros, e que diziam ter o mesmo sangue de sua maior inimiga: Meghara. O certo é que o jovem vencera todas as suas desconfianças ao devolver a vida à sua amada. O cavaleiro lembrava-se apenas de ter depositado um beijo na testa de Justine, após certificar-se que ela estava bem. Precisava seguir sozinho dali em diante, deixando-a sob os cuidados do mago. Iria vingar-se, sentia-se finalmente pronto para isso. Derrotaria Meghara e voltaria para Justine.

Porém, nem bem saiu do vilarejo de Homlen e, primeiro ouviu um estrondo, depois teve de passar pelo mar de fogo. Sem entender como se viu próximo à floresta dos anões, sem ter ideia de como vencera uma distância tão grande em segundos.

Cansado, suspirou, e finalmente abaixou a espada. Mas, isso não tornava o homem à sua frente menos estranho. Um homem com os cabelos encaracolados e a pele bronzeada não podia ser levado a sério. E não trazia nenhum brasão, nenhuma bandeira. Talvez nem soubesse montar a cavalo e usava uma espada curva. Quem, por Deus, lutava com uma coisa daquelas?

— A temperatura não para de subir e você não tem vontade de tirar essa coisa da cabeça? E essa capa, presa por essa joia? — ele subitamente se interessou pela joia — Ela é valiosa?

- É um ladrão, por acaso? — o lorde colocou a mão na bainha da espada novamente — Não é uma joia, néscio, é um brasão. Representa a minha casa. Aqueles por quem eu daria a vida.

- Eu daria a vida apenas para estar na minha cabine, de preferência fazendo cair o espartilho da Izzy. Tenho certeza de que a esta altura ela quem está comandando o Star — os olhos de Guy brilharam — Ela é linda como o diabo, pequena e ágil como um gato e jamais vi alguém manejar tão bem uma espada.

- Saiba que Justine pode acertar sua donzela a léguas de distância. Ela treina com flechas desde que era criança… Foi assim que atingiu um dos olhos de Meghara… Passamos por tanta coisa, não acredito que seremos separados por isso que está acontecendo, seja lá o que for — disse mais para si mesmo do que para o estranho.

- Izzy, donzela? Por mil demônios — Guy riu — Se uma donzela falar tanto palavrão quanto ela e aguentar três garrafas de rum sem ficar tonta, então eu não estou sabendo mais nada sobre as donzelas — Guy passou a mão na testa, os lábios estavam secos pelo calor e já estava com sede — Ela saberia exatamente o que fazer se estivesse aqui agora — ele fez-se sério — Mas, o que vamos fazer a respeito disso? Não sou de ficar parado vendo o meu mundo desaparecer. Imagino que também não seja.

- De maneira alguma — o Lorde estufou o peito — Já tinha começado minha jornada e apesar desse contratempo, não irei parar, não pelo menos até saber o que está acontecendo.

- Se aceitar a minha companhia, farei essa travessia a seu lado. Preciso sair daqui. Sou um peixe fora d’água, literalmente.

O Lorde hesitou, mas após pensar um pouco, estendeu a mão para o estranho.

- Ian Silverkain, mas me chamam de Lorde — disse formal como sempre.

- Guy Swiller — apertou com firmeza a mão que lhe era estendida — Agora, que não somos mais estranhos, podemos seguir? Está cada vez mais quente, não sei quanto tempo aguentarei. Nesses seus apetrechos todos você teria algo para beber? Rum, por exemplo?

- Não — o Lorde disse rapidamente — Mas, há um lago, talvez possamos caminhar até lá.

- Melhor se fosse uma praia… Tenho certeza que Izzy está a minha procura e vai guiar o Star pelos quatro cantos até me encontrar…

- É o lago ou nada — o Lorde disse sério — Que tipo de homem é você que espera ser salvo por uma mulher? — ele não se conteve e Guy riu com vontade.

- Não espero ser salvo por uma, mesmo porque elas são minha perdição — ele fez um sinal para que começassem a andar — Tem certeza que não quer se livrar pelo menos disso aí que coloca na cabeça?

O lorde respirou pesadamente, antes de tirar o capuz. Nunca a roupa de cota de malha se mostrara mais quente e incômoda. Ele olhou para o céu, certo de que o sol estava baixando e seria daquela forma que conheceriam o fim. Começaram o trajeto e ele foi o guia do estranho quando adentraram a floresta dos anões, embora nenhum deles tivesse aparecido.

E então, aconteceu de novo. Os dois homens caminhavam e ouviram um estrondo. O dia fez-se noite e quando clareou novamente, Guy e o lorde já estavam em outro lugar. Desconhecido aos dois.

- Mãos ao alto! Mãos ao alto! — os gritos fizeram com que os dois se virassem para o homem que gritava aquilo. Ao mesmo tempo, o policial Nicholas Stanton se perguntou que diabos era aquilo. Não sabia como aqueles dois homens fantasiados haviam ido parar ali. Era como se tivessem caído do céu. Também não soube o que acontecera com o bandido que estava perseguindo, ele simplesmente desapareceu entre os escombros daquele ferro velho. E agora apareciam dois lunáticos, e o nem estava perto Halloween estava longe. Será que estavam juntos com o homem? A força-tarefa havia afirmado que o Açougueiro agia sozinho. Além do mais, o maldito era muito espero para se juntar a dois idiotas daqueles.

O lorde viu na atitude do homem uma ameaça e puxou a espada. Foi o suficiente para que Nicholas apontasse a arma em sua direção.

— Qual parte das “mãos ao alto” você não escutou? — gritou — Se não largar esse artefato aí no chão, vou ter que atirar — Nicholas disse tenso, as veias do pescoço saltando.

Guy olhou a situação. O lugar era o mais estranho que vira; as roupas do lorde não eram nada perto das usadas por homem. Uma roupa justa, preta, com um brasão prata no peito. Ele não era nem tão grande assim e tinha um rosto muito bem cuidado. Duvidou que já tivesse se metido em uma boa briga em uma taberna. Para piorar trazia nas mãos, presa entre os dedos, uma arma minúscula, preta, que ele não sabia muito bem como era usada. O tipo a sua frente era incapaz de assustar o mais bêbado de seus homens. Mas havia algo no olhar dele que lhe dizia que deviam ter cautela.

- Abaixe a espada, lorde. Não vê que aconteceu novamente? Estávamos na floresta e agora neste tipo de inferno — disse olhando os ferros retorcidos e tentando imaginar o que era aquilo tudo.

Onde estava sua parceira quando precisava dela? — Nicholas pensou. Só esperava que não tivesse sozinha confrontado o açougueiro. Afinal, ela tinha o mesmo tipo físico que as vítimas dele. Fora Gail quem o reconheceu na lanchonete, a poucos metros de onde encontraram a última vítima. Ela o chamou pelo nome de batismo, não pela alcunha conseguida pela forma brutal como deixava suas vítimas. Perseguiram-no, separando-se, quando ele entrou no ferro velho e agora ali estava diante: de dois pirados fantasiados.

- A espada, lorde — Guy pediu mais uma vez e ele cedeu ao pedido. Sentiu que nunca mais iria ver sua doce Justine. Era o fim.

- Joguem as armas para cá — Nicholas ordenou e Guy com o maior desprendimento jogou dois punhais, uma adaga e o sabre que levava com ele, deixando o policial espantado. O lorde hesitou, mas jogou sua pesada espada e o metal tilintou ao cair no chão — Que merda de malucos dos infernos vocês são? Podem colocar as mãos onde eu possa enxergar?

- Ele usa um linguajar ainda pior que o seu — o lorde comentou e Guy teria sorrido se a temperatura não tivesse subido ainda mais. Estava sentindo-se mal, quando se sentou naquele lugar frio e imundo. Sem acreditar que não morreria no mar.

- Gostaria muito de erguer as minhas mãos, mas temos problemas maiores– ele apontou para o lado. Nicholas e o Lorde olharem para o lado perceberam o motivo: o chão estava se abrindo novamente e havia um mar de fogo vindo em direção dos três. Por todos os lados.

Ao se ver encurralado pelo fogo, Nicholas se aproximou dos dois homens e abaixou a arma. Ficaram lado a lado, como se fossem parceiros. Estavam cercados pelo fogo, sem chance de escapar.

- Sem Justine já estou morto — o Lorde disse, livrando-se da capa.

- Izzy irá me encontrar, mesmo no reino dos mortos — Guy disse sorrindo.

“Devia ter falado para Gail, o que sentia. Espero que ela tenha conseguido fugir daqui, que o açougueiro não a tenha encontrado” — Nicholas pensou, mesmo sabendo que era improvável que ela estivesse bem. Se soubesse que o tal fim do mundo chegaria em um dia tão igual a todos os outros, não teria passado longe dela um só instante….

Epílogo

O incêndio acabou com um acervo de milhares de livros. Segundo o chefe dos bombeiros, o fogo atingiu primeiro as obras de ficção, mais especificamente a estante que abrigava grandes autores de fantasia. Porém, quando esta foi consumida pelas chamas, ela tombou sobre as demais, misturando este a outros gêneros literários. Desconfia-se que um curto circuito tenha iniciado o fogo que, em menos de uma hora, destruiu toda a ala norte da biblioteca. Hoje os fãs da boa literatura, amanheceram mais tristes.