Eu disse que o amor era um jogo perdido

Estávamos ouvindo Amy e eu citei esse trecho da música enquanto fazia a tradução ao mesmo passo em que ela rolava.

— O amor é um jogo perdido. — você encheu o peito e falou — Para quem não sabe jogar. — Respirei fundo.

Que decepção, ouvir uma resposta clichê dessa bem no final da noite. Era o tipo de coisa que você poderia dormir sem, mas fazer o quê? Fiquei quieta e você acendeu outro cigarro porque disse que essa música merecia, concordei. Eu estava inteiramente voltando ao luto ouvindo aquele álbum, sentindo frio e arrepios que se estendiam por todo meu corpo a cada esganiçada dela. Você estava em outro mundo, luto devia ser a última coisa que sentia. Pudera estar pensando nas experiências que teve, dessas que a gente nem se apercebe mas pensa o tempo todo, como a transa do sábado passado.

— Sempre é.
— Não tenho tanta certeza disso. — Ele disse.
— Hm.
— Você não é boa com jogos.
— O que você sabe sobre jogos?
— De alguma coisa eu sei, por outro lado, você não permanece por muito tempo nele. Não tem paciência pra nada.

Naquele momento, deixei todos os meus questionamentos de lado pela valia de uma única certeza: ouvir toda aquela porcaria não podia ser outra coisa senão paciência. Mas não te falei, você não precisa saber. E no momento posterior perguntei-me inconsolada, em pensamento, para onde ia tudo aquilo. Para onde vai o amor, afinal? Para onde vai a segurança de tudo ficar bem? Pensei ser demais pra você, então discordei no mesmo momento, conversa fiada. Somos farinha do mesmo saco. Quem olha assim até pensa que não há carinho, pobres coitados, não aprenderam a sofrer ainda. Tenho de graduar o peso das minhas palavras, o peso das minhas ações, de cada passo que dou. As aparências devem ser mantidas.

— Ok. — eu disse, com pesar.
— Sobrou daquele vinho de sábado?
— Não, bebi tudo. Agora vai… Preciso dormir, amanhã acordo cedo.

Havia uma garrafa quase cheia mas lhe conhecia, sabia exatamente onde você queria chegar. Percebia-me, por diversas vezes, compenetrada no teu balanço e no teu movimento. Não iria perder tudo aquilo agora, pedi mais fichas. Ponderei um pouco sobre o assunto e por minha inclinação em lhe contrariar, fui indiferente em nossa despedida. Fria, calculada. O pior tipo de ser humano existente. Como Nietzsche diria, temos de ser superiores em desprezo. Eu fizera minha parte. Desculpas aceitas, terminei de ouvir o álbum e ocupei-me em tomar o vinho. Então, recebo uma mensagem: “Não sei pr’onde isso vai, mas não faz muita diferença. Você também não.” Desejei nunca ter jogado.

Ela deve acreditar mesmo que é o centro do universo, a minha menina. E é menina, não é mulher. Não me engana em nenhum tracejo, em nenhuma fala rápida e interminável, todos os seus versos quebrados me querem e eu sei disso toda vez que, em sua ignorância, tenta me machucar, pois me machucando ela conserva seu ego, beija sua alma. Aquela narcisista de merda. Minha menina acha mesmo que me engana colocando-me naquele jogo. Sente-se tão perdida e sozinha nos seus questionamentos infindáveis e eu não posso resolver nenhum deles. Certo dia, mentiu como uma criança pra me fazer ir embora, eu fui. Jogar às vezes cansa e você só aceita perder naquele momento pra aumentar a auto-estima do indivíduo, depois a gente sabe o que acontece. É delicioso. Não gostaria muito de estar fazendo isso, mas já aceitei como parte de minha personalidade. Não me negaria por ninguém, nem pela minha doce menina machucada pelo tempo. Minha pobre menina machucada pelo tempo.

Entendo que poderemos obter um resultado razoável para os dois somente se escolhermos o mesmo caminho. Coloca aí na cabeça… Se a gente continua com o jogo de gato e rato e comigo liderando, fica numa tabela de recompensa referente à 1 pra mim e -1 para você. Se quem lidera é o inverso, os resultados serão, dessa forma, proporcionais. Quem tem o jogo na mão, tem a estratégia dominante. E eu o tenho na mão, tenho o controle, vejo sua alma suja, sei dos seus passos. E tendo consciência de tudo isso, continuo.

As coisas permanecerão assim. Um arranjo de quem ama e quem sofre, quem joga e quem se entrega. E eu não irei me entregar. Guardarei você no meu abraço, na minha fala repleta de clichês, no meu julgamento propositalmente infundado. Vejo nos seus olhos, isto é medo. É medo de dispor do que sente, de me dizer sobre as coisas. Não esqueça, o tempo não passa pra quem finge não amar.

Sinto-me vulnerável. Talvez esteja acontecendo tudo novamente. O meu confronto é interno, é a dor de quem sente o amor e de quem sabe que não pode senti-lo. É se dar conta de que a solidão é uma propriedade intransferível. Ter a pífia esperança de ganhar um jogo que já está perdido.

O nosso jogo mal começou, baby.

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