A verdade sobre si, nem o próprio dono reconhece.

No sexto dia do aquartelamento da PM no ES ousei fugir de minha confortável prisão e dar um passeio na orla da Praia de Camburi. Era um finalzinho de tarde, conviviam pacificamente os raios de sol que passavam o turno para uma entusiasmada lua cheia. Pareciam conversar sobre amenidades. O Sol contava sobre o dia calmo, sem muito movimento que havia iluminado, e a Lua narrava seus planos de encantar a todos, brincando de, eventualmente, se esconder entre as nuvens. Comecei a observar os semáforos; estavam ali como luzes de natal enfeitando os postes. Meras alegorias decorativas, ninguém lhes prestava atenção.

Eu bem que tentei, esperei que o ornamento, muito lento, levasse 60 segundos para “piscar” do verde para o amarelo e, enfim, para o vermelho. Um taxista, muito sagaz, até diminuiu a velocidade enquanto eu cruzava a faixa de pedestres, mas como não corri, (o que era de se esperar de uma pessoa que está corajosamente colocando sua vida em risco dando um passeio à beira mar), avançou com o carro em minha direção. Indignada, reclamei meu “direito” de pedestre. Ele me olhou bravo, como se eu estivesse reivindicando algo inconcebível.

É interessante analisar como pode ser fácil apontar erros alheios e ignorar nossa própria subversão. Invadir propriedade alheia, depredá-la, vilipendiá-la é uma conduta altamente condenável, porque viola o direito à propriedade, porque se está destruindo ou usurpando objetos aos quais não faz jus, e principalmente, porque os autores não somos nós! O fato de não cometer aquele ilícito especifico parece nos isentar de examinarmos a consciência a respeito da responsabilidade sobre várias outras de nossas ações. No nosso tribunal, todas as condutas costumam ser justificáveis ou classificadas como de pouca monta.

Saquear um comércio é errado, comprar objetos furtados é imoral, e fazer uma assinatura da Sky e compartilhar a senha e o sinal com várias pessoas, é certo? Descarregar todas as suas frustrações espancando até a morte um meliante que furtou uma bicicleta é exagero, e desrespeitar o semáforo sem necessidade, é correto? Pedalar na via destinada ao skate/patins enquanto a ciclovia permanece vazia ali ao lado, à disposição, tá ok? Correr ao supermercado e se deparar com enormes filas e deixar uma pessoa guardando lugar enquanto você enche o carrinho é algo recomendável, não é mesmo? Porque todas as demais pessoas que ali estão têm tempo sobrando, não possuem a mesma urgência, não são tão prioritárias como você, na verdade elas só foram às compras para socializar, saber das novidades.

Tem uma proliferação de pessoas com respostas inquestionáveis para a situação de balburdia em que nos encontramos. Se a culpa é do governo, das esposas, da polícia, da sociedade ou das estrelas eu não sei, ouço argumentos muito contundentes de todos os lados, e acredito que estamos numa Torre de Babel, todos dizendo as mesmas coisas, mas em línguas diferentes. Está faltando um tradutor universal. Agentes políticos, cônjuges, militares, população, todos são, antes de tudo, pessoas, e, por vezes, exercendo na sociedade vários desses papéis ao mesmo tempo. Sem perceber, em suas acusações acabam por apontar o dedo em riste para o espelho à sua frente.

O primeiro valor do ser humano é o reconhecimento. Mais do que a quantia reivindicada para o reajuste, temos homens querendo a admiração de sua importância vital para o bom andamento da vida social, seja como garantidor da segurança, como agente político ou cônjuge zeloso, e nesta carência de quem lhe afague a cabeça (e o bolso) e lhe diga o quanto é importante, extrapolam em suas atitudes para infligir aos seus algozes a punição por terem lhe ferido o orgulho. É olho por olho, dente por dente? Não, porque esse conceito se traduz em equilíbrio, os prejuízos precisariam ser equivalentes. E melhores salários, melhores condições de trabalho, elogios e congratulações não são equivalentes a vidas suspensas ou interrompidas em definitivo. Eles sabem disso. Exige-se mais. A reparação do dano sofrido deverá ser feita de forma pecuniária, mas também há que se deixar uma cicatriz na memória, para que ocorra um arrependimento eficaz.

Sabe aquela história de que quem nunca comeu melado quando come se lambuza? O autocontrole, o senso de medida e adequação, e alguns significados não são interpretados de forma homogênea, é algo muito subjetivo, pessoal. Bandido bom é bandido morto? Mas como classificar o bandido? Vamos lá, o vizinho, que você conhece desde pequeno aparece na sua casa com um celular de última geração, muito além das possibilidades financeiras. Indagado sobre a procedência do aparelho, responde que comprou por uma bagatela de um indivíduo que participou do saque à uma loja de equipamentos eletrônicos. De acordo com o Código Penal, receptação de objetos roubados é crime. O artigo 180 pune com uma pena de até quatro anos de reclusão quem “adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte”. E ainda que ele alegue não ter certeza da origem do objeto, o terceiro parágrafo do mesmo artigo já esclarece: “adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso: Pena — detenção, de 1 mês a 1 ano, ou multa, ou ambas as penas”.

Então? Se o indivíduo que pratica atividades criminosas é um bandido, e a receptação de objeto roubado é crime, seu vizinho se enquadra na descrição. E aí? Bora matar seu vizinho!? Já posso ouvi-lo falando: espere um pouco, vamos conversar, não assim qualquer crime, ele é gente de bem, tem família (e desde quando bandido é filho de chocadeira?).

Todos temos muitas soluções e acusações para situação em que nos encontramos. Mas em nenhuma delas a responsabilidade recai sobre nós. Quantos de nós se dispõe a ser candidato a um mandato público e colocar em prática todas as teorias que desenvolveu para resolver a situação? Reclamar que não há bons candidatos para se votar é deixar de se incluir como uma possibilidade de mudança. Agora vamos brincar de dança das cadeiras: elegeremos um candidato e na entrevista apenas verificaremos se sua aparência não nos é repulsiva. Vota-se na intuição. Como a moda é ameaçar a todos com impeachment, os cargos públicos além do mandato de 4 anos, agora passam por um período de experiência, um estágio probatório. Quem fizer algo que desagrade a maioria (que o elegeu), está fora de combate, excluído, game over.

Quantos dizem que os militares estão certos em reivindicarem de forma tão radical o respeito da população, (não vamos discutir aqui que respeito não se obtém pela força) e passam por um PM fardado e agradece pelos serviços prestados? Eu ofereci de lavar fardas dos agentes das Forças Armadas que estão nos auxiliando neste momento de caos e rapidamente recebi comentários pejorativos sobre a minha iniciativa, justamente de pessoas que reclamavam ininterruptamente de estarem privadas de sua liberdade de ir e vir.

Chega de apontar para o outro, de exigir que a solução venha de fora. Indicar responsáveis não muda em nada a situação, só demonstra o quanto você é acomodado, e, desculpe a franqueza, merece estar nesta situação porque sua inércia a provocou. Não tem estômago para a vida pública? É compreensível, mas lembre-se de que existem muitas outras situações em que você pode sim fazer o certo, ser ético, agir corretamente independente de ter alguém lhe vigiando. E não vou dizer “comece pelas pequenas coisas”, porque não tem métrica, tamanho para o caráter. A índole é boa ou é má. Quem nunca presenciou uma contravenção ou até mesmo um crime e se calou? E antes que digam que macaco senta no rabo pra falar dos outros, faço exame de consciência constantemente e se constato alguma falha, procuro um ajustamento de conduta, sem mimimi ou justificar o que não admito argumentação quando a falha é de outrem. Mas isto também não me exime de errar. Aqui também vai o meu mea-culpa.

O que conclui ontem, na minha escapulida do cativeiro, é que se o conceito de ética, moral ou correto só forem aplicáveis aos outros, então podemos pedir licença à Machado de Assis e adentrar em sua pitoresca história O Alienista, considerando-nos ao mesmo tempo todos loucos e todos sãos, sem meio termo, bem e somente nas extremidades. Já fizemos a experiência da reclusão, agora só falta a da liberdade para todos.

“Simão passa a considerar outra teoria: louco seria aquele que possui a mente em perfeito equilíbrio e não o que tem o juízo doentio.”

O Alienista, Machado de Assis

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