Brasil, cultura, samba: a arte de resistir

Giordano Pienegonda
Nov 1 · 11 min read

A música que sai dos quilombos para os palcos revela como os donos do ritmo preservam suas tradições desde os primeiros jongos de escravos até a música que reivindica uma vida melhor para os afro-brasileiros

Giordano Pienegonda

Surdo do Samba de Dandara, no Bar do Baixo na Vila Madalena. Foto: Giordano Pienegonda 26/09/19

“O samba aproxima pessoas, agrega e salva vidas. Conscientiza a comunidade e é resistência mesmo.” É com essas palavras que a compositora, cantora e deputada Leci Brandão (PCdoB) define o papel do samba na sociedade brasileira em entrevista concedida no dia 17/05/2019 na Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP).

Leci e Zoio, presidente da escola de samba Unidos de Peruche, explicam porque o samba é arte de resistência. Os músicos Péricles Cavalcanti e Maíra da Rosa, do grupo Samba de Dandara falam sobre o lugar do samba na sociedade brasileira.

O cantor e compositor Péricles Cavalacanti (72) fala nesta reportagem das origens do samba, relaciona-o a momentos históricos da música brasileira e contextualiza a poética da resistência.

“Nas escolas de samba, nos terreiros, nas comunidades o samba é político, porque o samba é intervenção social, ele fala da vida das pessoas. Não tem como separar samba e política”. Afirma Maíra da Rosa, vocalista do grupo Samba de Dandara, composto por mulheres negras com a proposta de exaltação às mulheres do samba.

Zoio, presidente da escola de samba Unidos de Peruche, concorda com as artistas e afirma que “é uma expressão cultural e um modo que o compositor usa para se manifestar politicamente. O samba é uma expressão popular”. A seguir ele explica a influência das escolas de samba nas comunidades a que pertencem.

Ambas as artistas e Zoio esclarecem a função desse gênero musical afro-brasileiro para além da esfera artística ou estética. O samba, dentro e fora dos palcos, sempre foi instrumento de conscientização política, difusor de noções de cidadania justiça social, e um modo de resistência contra a marginalização e falta de oportunidade dos afrodescendentes.

A carioca Leci Brandão (75) confessa não saber que compunha músicas de protesto até conhecer amigos que lhe explicaram a função social da arte. Foram o jornalista Sérgio Cabral (82) e Lygia Santos, filha do músico Donga (1889–1974) — “Sempre vi na minha música uma forma de expressar a minha ideologia, minha luta e meus enfrentamentos”, diz a cantora e política.

Sobre a resistência na música, Péricles Cavalcanti diz que, “se olharmos as canções de Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, até mesmo da Leci, alguma coisa fala em questões sociais e, mesmo quando não falam explicitamente, elas são uma expressão da resistência que se afirmou independentemente dos poderes”.

Zoio afirma que as escolas de samba são uma espécie de instrumento de conscientização política mesmo sem se dar conta disso. “O foco da escola é o Carnaval, mas os projetos sociais e culturais não são deixados, caminham juntos e as escolas lidam com todas as classes sociais, é normal que se debata política. Muitas vezes os músicos fazem crítica social por meio dos enredos, acho essas manifestações positivas.”

Alessandro Lopes Rodrigues, conhecido como Zoio, foi entrevistado em 21/05, na Subprefeitura regional de Casa Verde. Ele foi taxista e, em 2016, candidato a vereador de São Paulo pelo PODEMOS (na época PTN).

Para Péricles, “aquilo [as escolas de samba] funciona como uma espécie de socialização, é muito impressionante, milhares de pessoas trabalhando o ano todo, coordenadas por alguém e para aqueles dois dias”. O compositor explica que o Carnaval trata de temas relevantes nacionais e diz que o samba tem uma “função agregadora e civilizatória” devido à forma como os integrantes se organizam para construir uma festa que tem, muitas vezes, funções conscientizadoras

Composições que protestam em favor de maior representatividade de parcelas da sociedade, sobretudo negras, é comum entre sambistas. Segundo Leci letras como “Identidade” de Jorge Aragão (70), “para a população negra é muito importante, tanto é que, quando a gente canta esse tipo de música, na plateia, quem é negro vibra e se enche de orgulho”.

De onde vem o samba

Maíra disse que o samba tem um lugar definido em nossa sociedade tanto nas composições musicais como na vida política. “Desde os primórdios, desde a escravização as pessoas negras fazem movimento, para falar de si, para, a partir disso, criar transformação social. Isso é o samba. É o caso das composições de Leci, que falam das dificuldades da vida cotidiana brasileira.”

Segundo Leci, “ houve sempre preconceito [contra o samba] porque o samba é ligado aos negros”. A sambista conta uma história sobre Tia Ciata, cozinheira e mãe de santo considerada uma das figuras mais influentes para a criação do samba carioca:

“Os compositores iam para a casa da Tia Ciata, na praça Onze [RJ], e, quando a polícia chegava, eles diziam que ali estava acontecendo uma sessão. ‘Estamos aqui no terreiro praticando nossa religião [umbanda].’ Não diziam que era roda de samba. Como ela Tia Ciata era mãe de santo, passava despercebido pela polícia”.

Até a década de 1960 o samba e, consequentemente, suas matrizes culturais negras foram duramente perseguidas, quando a bossa nova, que era um “samba cool e com outro tipo de tratamento harmônico, reverteu a condição de perseguição e o colocou o samba nas rotas internacionais da música.

A bossa nova não deixa de ser o samba em nova fase. O João Gilberto falava que ele fazia samba. Como o jazz é uma forma complexizada do blues, que é música negra, eu vejo o paralelo; o João Gilberto tratou o samba da mesma forma que o jazz tratou o blues”, afirma Péricles Cavalcanti que se diz indiretamente influenciado pelo samba devido a sua sintetização musical, característica da bossa nova, aspecto presente no seu novo álbum, “Clássicos Daora”.

Para Péricles a marginalização está “na origem do samba, que é uma música que vem dos negros, pós-escravos ou escravos libertos, depois da abolição [13/05/1850], que não foi uma abolição completa, né? Essas pessoas ficaram marginalizadas e o samba nasce com isso, além de ser estigmatizado como música de bandido e confundido com religião”.

A presença de escolas de Samba próximas aos morros abriu espaço para o surgimento de projetos sociais dentro das comunidades, “a maioria das escolas de samba está ligada à comunidade, então você lida com pessoas vulneráveis a droga, a bebida e há até mesmo moradores de rua, temos parceiros das escolas que ajudam nesse âmbito social [com projetos de reabilitação ou sociais] e conseguimos encaixar essas pessoas em empregos ou clínicas de reabilitação”, afirmou Zoio.

A existência de críticas politizadas dentro de agremiações também é comum para o presidente da escola de Samba Unidos de Peruche. “Falar de política dentro da escola de samba, é natural, você debate política, muitas vezes a escola faz críticas, até mesmo com enredos.”.

Essa manifestação social a partir de composições que, muitas vezes, são a expressão do posicionamento político de quem escreve, é reflexo de toda a memória do samba, em sua trajetória, de resistência, sobretudo por parte daqueles que criaram essa música, os negros, que até hoje se manifestam, como é o caso de Leci Brandão e o grupo feminino Samba de Dandara, em relação às injustiças sociais comuns no Brasil.

Na década de 60, Vinicius de Moraes (1913–1980), um dos criadores da Bossa Nova, por meio da letra de “Samba da Benção”, define o gênero como “a tristeza que balança”. É a música de matriz africana genuinamente brasileira.

Vinicius, ou o poetinha, como era chamado, se identificava como “o preto mais branco do Brasil”. Durante toda sua vida, o poetinha se manteve ligado às matrizes africanas, frequentava o candomblé na Bahia, no terreiro de Gantois especificamente.

“Quando ele diz que é o branco mais preto do Brasil, é a identificação dele com o samba. A peça ‘Orfeu’, do mito grego, que ele adaptou para a história se passar no morro e levou essa peça para o [Teatro] Municipal com atores negros, basta para mostrar a forte ligação de Vininha com o samba e a cultura africana”, diz Péricles.

Segundo Zoio, “as escolas de samba em geral são quilombos vivos dentro da cidade e do Brasil. Escolas afrodescendentes, ligadas a sambas afro por enredos de reflexão para falar do povo negro”, afirmando a preservação das culturas afrodescendentes através do samba.

Hoje não só o Carnaval tem grande representatividade cultural, mas também as rodas de samba são tão populares quanto a festa do Carnaval (que ocorre quarenta dias antes do feriado católico da Páscoa.) a ponto de existir o “Circuito das Rodas de Samba de SP”, guia que reúne as principais rodas da cidade com suas datas, endereços e horários, organizado pela deputada estadual Leci Brandão e pelo deputado federal Orlando Silva (PCdoB).

A música ativista

Ilustração de Marielle Franco (1979–2018) no Bar do Baixo, 26/09. Foto: Henrique Junqueira

Quando Beth Carvalho (1946–2019) completou 50 anos de carreira, em 2015, declarou ao jornal “Folha de S. Paulo”, que “o samba é mais de esquerda, é o povo”. Esse posicionamento, da menina que pertencia a classe média carioca e frequentou os encontros da bossa nova na zona sul do Rio de Janeiro (lugar onde morava), permaneceu durante toda a sua carreira.

Leci Brandão responde: “Eu concordo, porque os sambistas têm verve para fazer música social”. A ideia de que o samba é ligado à esquerda não é consenso, mas que o gênero é do povo, isso sim é consenso. Para Zoio, “o samba é do povo, é uma expressão popular. Não acredito que seja voltado totalmente à esquerda, é voltado para o povo”.

Para as mulheres do grupo Samba de Dandara, “ser esquerda no Brasil não é ser de determinado partido, ser esquerda é ser progressista e o samba é progressista. A gente acredita que o samba é de esquerda, não porque é ligado a partido azul ou partido vermelho. Esquerda e direita têm a ver com modos progressistas ou antiprogressistas de se viver”.

Canções de protesto

Artistas e grupos que criaram muitas composições de protesto durante o período da ditadura militar brasileira (1964–1985). Manifestações de combate ao regime se multiplicaram. É o caso do Teatro Oficina e de Arena, em São Paulo e o Teatro Opinião no Rio de Janeiro, criados nas décadas de 50 e 60. A aparição desses grupos deu espaço para o surgimento de artistas e intelectuais como Zé Celso Martinez (82), Augusto Boal (1931- 2009), Plínio Marcos (1935–1999), Nara Leão (1949- 1989), Maria Bethânia. Leci Brandão também estreou nesse momento. Todos formavam a crítica resistente ao regime militar de 64.

“Nara Leão quando gravou [as músicas] Zé Keti (1921- 1999), já cantava crítica social, porque a Nara morava na zona sul [do Rio de Janeiro], mas ela sempre procurou gravar essas músicas [de crítica]. ‘Acender as Velas’ (1965), tem tudo a ver com samba de protesto.”, diz Leci.

É impossível o samba não tratar do cotidiano brasileiro, que encarnou a figura do malandro, a representação o sambista por muitos anos.

Nos versos, “… ele até trabalha/ Mora lá longe e chacoalha/ Num trem da central…”, Chico Buarque (74) define o personagem em sua música “Homenagem ao Malandro” (1978). Essa figura vive no morro e escreve sobre seus “perrengues” do dia a dia, compõe com eles diversas músicas, está no imaginário popular. “É uma pessoa esperta, sábia, sagaz e que tem a inspiração comprometida com o dia a dia dele”, define Leci Brandão sobre o personagem típico brasileiro, sobretudo carioca.

Os líderes populares também fazem parte do elenco de personagens que produzem e constituem o Samba. “Zé do Caroço”, letra composta em 1978 e gravada em 1981 por Leci Brandão, é protagonizada por um líder popular que incomodava pessoas da classe média, moradoras de áreas próximas ao Morro do Pau da Bandeira, no Rio de Janeiro, com seu serviço de alto falante. Trata-se de José Mendes da Silva.

Leci Brandão soube de seu serviço de utilidade pública porque, em um alto falante, ele anunciava notícias de sua comunidade e atrapalhava moradores da Rua Petrocochino: “A altura do alto falante incomodava o pessoal que morava nos prédios e num deles morava uma senhora que o marido era militar e ela queria que não tivesse aquilo lá porque a incomodava para conseguir ver e ouvir a novela das oito”, conta Leci sobre a música “Zé do Caroço” que “fez tanta reviravolta de forma positiva na minha vida”, diz a artista e política.

Samba de Dandara e a representatividade negra

Grupo Samba de Dandara, em apresentação no Bar do Baixo em 26/09/19. Foto: Giordano Pienegonda

Samba de Dandara é um grupo formado por seis mulheres negras que se dedicam a promover as compositoras do samba e se apresentam como um grupo que faz samba de resistência. “O samba é político, não é um estilo musical, não é uma vibe. É um movimento, um modo de viver e surge como resistência, o samba é resistência. O samba é resistência ‘desde que o samba é samba’, das pessoas negras fazendo resistência na periferia do Brasil”, diz Maíra da Rosa em entrevista no Bar do Baixo (Vila Madalena) no dia 26/09/2019.

“O samba tem o seu lugar, passa movimento, volta movimento, passa moda, chega moda, e o samba está sempre lá [na sociedade]”, Maíra da Rosa diz que, apesar de ser uma música que já foi muito perseguida, o samba tem lugar fixo na sociedade como um movimento.

Sobre a figura de Dandara no nome do grupo Maíra diz que foram as mulheres que fundaram a banda com o intuito de falar sobre as figuras femininas, que colocaram essa personagem histórica no nome; “Dandara foi e é memória de resistência feminina negra, ela não é só a esposa de Zumbi. O símbolo de Dandara vem pra dizer sim mulheres resistiram no quilombo de Palmares e em outros espaços contra a escravização. Ela inspira a gente a ser quem a gente é a fazer o que a gente faz, a fazer resistência e a não ter medo”.

Samba e política representativa

Para Maíra da Rosa, “discutir política no momento polarizado em que vivemos é algo muito louco e necessário” e disse que considera impossível separar o samba de questões políticas e sociais. “O samba são pessoas se movimentando para falarem de si e a partir disso criarem transformações sociais.”

Feijoada das Marias do Jongo Dito Ribeiro em Campinas 24/03 Foto: Fabiana Ribeiro

Após a década de 1960 pessoas de origem humilde que cantavam samba ganharam espaço em grandes palcos do país e, do mundo. O olhar desses artistas para aqueles que continuam vivendo em comunidades carentes e enfrentando as mesmas dificuldades e preconceitos sem nenhuma perspectiva de amenização dessas condições negativas fez com que as caixas de som das casas de show emitissem músicas de protestos em favor das pessoas que compartilham a condição daqueles que, depois de muito esforço e dificuldade, ficaram famosos: “Minha atuação, é uma atuação popular. Eu frequento muito lugares que são subúrbios, vou em lugar mesmo do povão.”, diz Leci Brandão.

Sobre a atualidade brasileira Péricles diz que; “nós estamos em um momento de ignorância oficial, eles [o governo] são orgulhosos em serem ignorantes e perseguem livros, mas é um governo que foi eleito porque tem um clima no Brasil propício para isso. Estamos em um momento de afirmação cultural e da necessidade de informação.” Leci Brandão concorda e fala; “o papel do samba agora é fazer um enfrentamento, ser resistência.”

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