Sobre um livro e seu percurso dentro da minha bolsa
Ou: sobre uma história que eu não queria ter vivido pra contar

Sentada num banco do Conjunto Nacional, eu esperava a hora de ter um lugar pra onde ir.
Tentava usar, ao mesmo tempo, meu 3G para capturar um Pokémon de cujo nome não me recordo e minha mente para decidir: compro ou não compro aquele livro?
Já tinha ido e voltado umas duas vezes da livraria. Meu espacinho no banco, nesse meio tempo, se mantinha intacto — um fato curioso, já que era horário de pico e aquele velho que toca Raul & Caetano & Toquinho & às vezes Kid Abelha já tinha começado a abençoar os ouvidos de todos os presentes com seus dotes musicais. A cada ida e volta da livraria, eu me sentava exatamente ali.
Já tinha ouvido falar daquele livro na internet, uns meses atrás. Salvei o link na aba “kero” dos meus favoritos — aquela que separa as coisas que um dia pretendo comprar das “leituras” que, por obra do destino, nunca chego a fazer.

Naquele dia, aquele livro apareceu sem que eu sequer o procurasse. Foi justamente esperando a hora de ter um lugar pra onde ir que o encontrei. Era importado, era bonito, era pesado, era razoavelmente caro e era o último de sua espécie, em pé, naquela estante do canto esquerdo.
Aquele velho tocava Aquarela — por algum motivo, a música padrão nos karaokês de aniversário da minha infância, nos anos 2000. “Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo…”.
Aproximava-se a hora em que eu teria, finalmente, um lugar pra onde ir. As escolhas em minha vida costumam ser fortemente influenciadas por esse fator chamado pressão — não sei qual dos signos do zodíaco, em qual dos meus planetas, seria o grande responsável por este traço.
Aproximava-se, então, a hora em que eu teria finalmente um lugar pra onde ir. Além disso, poucos dias antes daquele dia eu tinha recebido um dinheiro-sem-propósito da minha vó.
O universo conspirava. Comprei aquele livro.
Foi só duas semanas mais tarde, no dia também conhecido como ontem, que pude começar a lê-lo. Importado, bonito e pesado, ele se mostrou também interessante o suficiente para a despesa do dinheiro-sem-propósito que recebi da minha avó — e para que, hoje de manhã, ele continuasse firme e forte, dentro da minha bolsa. Junto da carteira, do celular, do bilhete único e da banana que eu comeria às 9h37 na minha mesa no trabalho, aquele livro saiu comigo de casa.

Cheguei no escritório às 9h13. Nesse horário, não costuma ter muita gente por lá. Abri a bolsa e, aos poucos, fui tirando de dentro as coisas que costumo usar na mesa.
Busquei pela banana. Minha mão sentiu algo molhado, e eu não consegui entender.
Era ela. A banana.

Por algum dos objetos de dentro da minha bolsa, ela havia sido parcialmente cortada ao meio. Por algum dos objetos de dentro. Parcialmente cortada. Ao meio.
Minha mão se viu paralisada em meio ao susto, e eu não consegui entender.
Podiam ter sido todos eles — todos os objetos dali de dentro. Na fila de suspeitos, teoricamente a carteira, o celular, o bilhete único…
Mas não. Sei como a vida funciona, e, desde o primeiro susto, a verdade é que eu já sabia como esse enigma se encerraria.
Importado, bonito, pesado, razoavelmente caro e o último de sua espécie. Aquele livro também estava na lista de suspeitos.
E foi ele, de fato, o culpado.
Eu nunca vi uma banana ser parcialmente cortada ao meio dessa forma, sem que uma faca — sabe, uma faca — estivesse envolvida na equação.
Eu nunca vi um livro cortar assim, sem querer, a casca de uma banana.
Mas foi o que me aconteceu.
Atualmente, aquele livro está bastante amassado — e com um leve aroma adocicado. Sobre isso, eu ainda não sei muito bem o que fazer.