A vida sem mãe — tipo um “use filtro solar”

Perder os pais dói. Dói mesmo quando você é adulto.

No meu caso especificamente, perder a minha mãe mãe é como se eu perdesse parte de mim. Muita gente fala: ah, mas ela está aqui presente, em energia, olhando por você. Sim, pode até estar, mas a perda não é só física, é emocional. Mais emocional do que física até…

Perder a mãe é perder uma referência, perder o que você acredita ser o modelo ideal de ser humano, de conhecimento, de amor incondicional. Perder quem te ama mais que tudo na vida, perder o primeiro amor da sua vida.

Perder os conselhos… incansáveis! Para serem repetidos quantas e quantas vezes forem necessário. Os conselhos mais puros e imparciais, livre de viés, de inveja, de interesses.

Perder as memórias. Perder você quando era criança, perder as lembranças mais interessantes da sua infância, suas manias, as histórias mais bizarras…

E não importa como foi sua perda. Se foi repentina, se foi vagarosa, quando você era jovem demais, ou depois de adulto. Não importa. Nunca estaremos preparados para perder nossos pais. Eu nunca estaria preparada para perde-la, mesmo convivendo por 7 anos com uma doença terminal. Porque a relação mãe-filho é tão profunda, está tão intrínseca na sua existência, que vira e mexe, por uma fração de segundo, você se esquece que ela não está mais aqui e pensa: “vou perguntar pra minha mãe como que ela…” PLAFT! Vem a consciência e te lembra: “não, não dá”. Acontece direto. Porque você é parte dela. E porque você sempre vai achar cedo demais, pouco demais.

Ouço muito as minhas amigas reclamando das mães, e acho que se a minha estivesse viva, também reclamaria da pegação no pé, da carência, das ligações fora de hora. Mas se eu puder dizer, e na verdade nunca digo para não constrange-las com essa depre “não tenho mãe, você tem, não reclame”, eu diria: “aproveite”.

Peça e ouça todos os conselhos. Abra seu coração pro estoque de amor que ela tem a oferecer, coloca tudo numa gaveta reserva e guarde pra quando precisar.

Faça cia a ela. Saia com ela, pergunte sobre a vida, sobre sua infância, sobre você bebê, sobre seu parto, sobre a relação dela com seu pai antes de você nascer, sobre como foi o casamento dela, sobre como foi a infância dela, como ela cresceu, a relação com seus avós… se abasteça de muita, muita história.

Atenda quando ela ligar, nem que seja pra dizer: “já te ligo”. Ligue vez ou outra pra saber como ela está… incorpore isso na sua rotina. Ensine algo quando ela pedir, na hora. Tenha paciência com as limitações dela. Não reclame quando ela contar a mesma história repetidas vezes, ouça como se fosse a primeira. Entenda que, mesmo sendo mãe-filho, você amadureceu muitas ideias e vcs tem pensamentos diferentes. Aceite as opiniões dela e as diferenças, mesmo que não concorde. Não deixe de dividir suas opiniões com ela por conta disso e nem de ouvi-la.

Se preocupe com a saúde dela e com as limitações físicas. Lembre dos exames de rotina, carregue o peso, vá dirigindo, se ofereça para buscar algo e deixe na casa dela.

Cuide dela. Quando vamos ficando adultos, o papéis se invertem — filho cuida da mãe — mas acredite, você nunca será velho demais para precisar do colo e da compreensão de uma mãe. E acredite também, quando você virar mãe/pai, vai passar a amá-la ainda mais, porque vai compreender a profundidade do amor dela por você.

“Aproveite.”

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