Nota de uma tarde de setembro

Peguei um livro pra me fazer companhia. Dedilhei a estante sem critérios, como se com os olhos enferrujados, estivesse pelo tempo destituída de fazer escolhas intolerantes. Na ordem certa, o livro é que deveria me escolher. Há alguns meses já não era meu direito julgá-lo entre as suas pilhas; como quem retorna depois de um longo silêncio e diz coisas impulsivas, apanhei um de capa branca e azul-porcelana, sobre José Saramago, Jorge Amado, cartas e mar. Parecia tão bonito, mas hoje não importava se não conseguisse ler. Eu só queria ele comigo na mesa, e quem sabe deduzir. Sentei com o livro e pedi um chá vermelho estranho — nunca gostei de chá — para olhá-lo longilíneo através do vidro, dando movimento às mãos recém-pintadas. O chá vermelho estranho, como sempre mais bonito do que gostoso, era o terceiro elemento do triângulo.

Até agora o breve passeio era estar ali e olhar as samambaias, me sentir a pessoa menos interessante da livraria e brigar no trânsito. Na minha cabeça explodiam as ofensas pontiagudas que eu acabara de despejar sobre uma mulher mal-humorada, determinada a me tirar do sério no caminho. Daquelas mulheres do sul, com cara pálida e amarga, resistindo às tentativas de discutir pacificamente, tão ignorante quanto seus adesivos políticos colados na traseira do carro. Acontece que também não ando muito pacífica, e acabei dizendo que o mundo tá doente por causa de pessoas como ela. Ela fez silêncio, um silêncio ácido feito o que existia entre os meus olhos e os livros. Desconfiei que eu saí de casa com a missão particular de encarar silêncios agudos. E olhar samambaias. E fotografá-las com a Yashica dos anos 90, dentre as metáforas que boiam nos copos e rodopiam nas calçadas sujas.

Acabei abrindo o livro. No primeiro momento, esperei uma surpresa de parâmetros poéticos inalcançáveis, quentes de Bahia, de ruas abafadas de Lisboa. Devo ter levado uma porção de minutos até entender que a graça estava evidente nas banalidades. Saudações e desfechos sempre iguais, nomes longos e desconhecidos. Até os grandes escritores precisam se livrar das grandezas às vezes. Fechei. Sua ausência de espírito fazia mais sentido.

Não havia ninguém que eu quisesse por perto, a não ser o livro de banalidades e o chá ruim. Eu não li, não gostei do chá, briguei no trânsito e de fato era a pessoa menos interessante da livraria. De alguma forma, era exatamente o que eu queria fazer. O melhor antídoto para a ansiedade é a interpretação subjetiva. O tempo não passa tão rápido quanto geralmente julgamos, apenas esquecemos de sentí-lo. Assim soprava o jazz sarcástico do fundo da sala.

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