Essa vai pra toda MPB da periferia

Xis, no começo de sua música “só por você”, faz um manifesto a quem se direciona o seu som em 1999. Mas nos deixa com vários questionamentos a partir dessa afirmação: A periferia tem sua MPB? Qual é ela? Quem a escuta? Onde ela toca? Onde e quem a da viabilidade? Ela estava nas mídias em 1999 como em 2016?

Capa do álbum “Seja como for” de 1999

Pra analisarmos esse cenário vou partir das referências que me ajudaram a arquitetar esse textinho, que são três principais: o que é a MPB e qual é o perfil de quem a escuta/produz; a produção musical periférica e como esta é exposta (ela é?) no cenário social e midiático.

Não tenho propósito de fazer resgates históricos mas sim uma análise simples social sobre a marginalização da produção musico-cultural periférica; soa redundante uma vez que a periferia é de fato uma consolidação da marginalização, mas consideremos que estamos num momento em que elementos da cultura de identificação do indivíduo periférico está em popularidade, como o funk dos bailes de favela sendo tocados em espaços fechados (baladas) em bairros nobres de SP para que a jovem burguesia possa curtir nosso funk tomando uma Heineken num estabelecimento com seguranças na porta e com um público idêntico ao seu: majoritariamente branco.

Percebemos que esse mesmo público dos bailes fechados são também os ouvintes e produtores da chamada música popular brasileira (MPB)! Fizeram o link? A música popular brasileira não pertence, não reflete e não representa o povo popular que no caso é a periferia; Chico Buarque (que eu adoro, aliás) com seu movimento à Tropicália não faz parte da massa popular, a burguesia não é a massa, Caetano Veloso não é a preferência nos nossos churrascos de comemoração de casamento. Que o ser humano é contraditório é um fato, mas além da contradição nessa construção de preferência musical nacional, há também uma irônia com outro fato importante: o Brasil gostaria de ser 100% burguesia?

Grafite em frente a sede do Ponto de Cultura Capão Alimentar

Enquanto isso nas margens da cidade… Os favelados produzem seus sons, suas festas de arromba, suas danças, suas casas, seu estilo, suas palavras e complementando a frase do mestre Criolo: a periferia é também um universo. Produzem pra si mesmos inicialmente, mas se seus sons tocarem nos bailes do centro melhor ainda. Há quem dirá que a problemática está aqui. Mas em frente a toda essa richa no olhar de analista “politizado”, ao invés de encanarmos com o produtor cultural periférico defasado social e politicamente (com intencionalidade institucional) de lançar seu som pros playboys dançarem nas baladas, vamos impulsionar o som dos caras, dar uma força sim, pra que eles consigam ganhar seu pão de cada dia com sua próprias criações a partir de quem pode pagar , porque pobre também tem o direito de trabalhar no que gosta. No final das contas, nós não somos os irônicos e contraditórios, produzimos o nosso, somos quem somos com gente da nossa gente, não precisamos nos deslocarmos pra espaços planejados pra nos sentirmos vivos.

Estamos adentrando os recursos midiáticos com o funk, forró, o rap, o hip-hop e suas personalizações estão cada vez mais presentes nos meios “aburguesados”, mostrando que existimos e resistimos mesmo que eles pensem que nos manipulam: a favela pensa, mano. E ela pensa fora dos padrões, ela pensa e cria com sua originalidade inspirada em algo que experimenta muito desde cedo: a realidade.

A cultura musico-periférica é produzida, valorizada, caracterizada, refletida no e para individuo periférico, afinal, quem tem raiz sempre volta pra terra.