A Era Confusa

Após séculos de aparentes certezas e verdades impostas, a humanidade dá início a uma era um tanto confusa, não por ser contraditória, mas por enveredar em um caminho totalmente oposto ao que vivemos até hoje. A lógica da família patriarcal já se desfez há décadas; a sexualidade não é mais um tabu; a sociedade deixou de tratar transgêneros como “eles”; as barreiras para se adquirir conhecimento de esfacelaram; a integração racial nunca foi tão bem vinda; pessoas pensam cada vez mais no coletivo do que em si mesmas. Uma era maravilhosa, não é mesmo?

O revés, porém, chega das mentes que ainda tem raízes no passado. Talvez a maior confusão dessa era esteja no homem branco, cristão e heterossexual. Ele foi há muito tempo registrado como protagonista da história, o pai provedor, a casa construída sobre a rocha, o líder familiar o. O mundo ocidental foi moldado sob a visão masculina do líder durante eras. Nas escolas, nós fomos ensinados segundo um modelo eurocêntrico de se enxergar o mundo, a presença do africano em nosso aprendizado só vai aparecer quando aprendemos sobre a escravidão, por exemplo (e isso diz muito); as mulheres são um mero ornamento dos grandes líderes — e mesmo aquelas que conseguiram algum êxito em quebrar o universo machista em que viviam, não tem tanto espaço quanto os homens. As famílias também reforçam a figura masculina como fonte de liderança, fundamentada pelo cristianismo conservador. A publicidade colocou em nossas cabeças a imagem do homem que manda e da mulher que reclama, da razão masculina se contrapondo a histeria feminina, sem mencionar a objetificação da mulher. Um passado não tão distante e que, se o revirarmos bem, achamos coisas que podem nos surpreender.

Mas nessa nova era, em que aqueles vistos como fracos mostraram ser fortes, em que a mulher aumentou significativamente seu papel na sociedade, que homossexuais não são vistos como estranhos, que a liderança deixou seu viés autoritário de lado em nome da coletividade, onde se encaixa o líder patriarca? A lógica seria que ele também se transformasse, mas aí há uma recusa ideológica.

Ao longo da história, toda revolução intelectual e cultural não foi prontamente abraçada cultura até então estabelecida. Vejamos o renascimento: ciência, arte e literatura questionando o teocentrismo, colocando o ser humano como o responsável pelas coisas do mundo e não um deus onisciente. O que antes pareceu um movimento isolado de pensamento, se alastrou por toda Europa e gerou uma resposta dura da igreja após essa “rebeldia”: a inquisição. Não preciso nem mencionar os atos cometidos pelo órgão divino durante sua existência, que chegaram a matar milhões de “pagãos”, além de aprisionar outros tantos infiéis. Uma resposta violenta e fundamentalista a uma inevitável transformação do pensamento.

A história se repete, agora com neonazistas norte-americanos e até a direita conservadora brasileira. São todos movimentos extremistas contra uma onda que promove mudanças, e quanto mais profundas elas são, mais dura será a resposta do que já se está pré-estabelecido. O estranho causa medo, o terreno da segurança de pensamento e das certezas fica extremamente abalado quando sua lógica é questionada, visto que até mesmo essas certezas são baseadas em crenças e expectativas de durabilidade, a solidez que se espera de um possível futuro fundamentado por experiências passadas.

Não há nada de impressionante nessas respostas violentas, diria até que alguém tem de fazer o papel de “vilão” na história (que também parte de uma noção de perspectiva). O impressionante, na verdade, é que são respostas que não tem nenhuma base lógica para isso — já que mesmo a Santa Inquisição tinha seu conjunto de valores para se justificar. Tanto o neonazismo norte-americano quanto a extrema-direita pró-militarista brasileira, ambos exemplos extremos que tem a figura da família tradicional e do homem provedor como protagonista, tem seus olhos voltados para um passado que provou-se ilógico, cruel e deveras estúpido. Imagino como iremos olhar, daqui alguns anos, essas expressões de bestialidade brandamente compartilhadas.

Resta-nos a esperança de que a razão continue a guiar o caminho da humanidade como tem feito há alguns séculos, e que os gritos de ódio entorpecido desses movimentos sejam abafados e olhados com vergonha por uma sociedade que é cada vez mais pautada pela ideia da igualdade.