A Fila

Entrei na fila às 10:32, puxei a senha 109, estavam chamando a 72, sentei.

10:58, ainda não haviam me chamado, senha 81. Eu já estava cansado de esperar, já havia gasto todas as formas de preencher meu tempo: dobrei e desdobrei minha senha de mil e uma maneiras, observei os demais condenados à longa espera pensando como seria a vida deles fora da fila (mesmo já duvidando que houvesse alguma vida além da fila), brinquei com meu celular, vi e revi minhas atualizações nas redes sociais, 11:20, senha 87. Nesse meio tempo, um homem de idade avançada e cabelos falsamente castanhos chegou, pegou uma senha, levou um susto e se sentou ao meu lado. 11:32, senha 90.

Apesar de não ter esperado nem um terço que os demais no recinto, o velho de cabelos tingidos começou a reclamar a esmo; cada palavra posta para fora soava como um pedido de socorro ao marasmo devastador que era aquela longa espera. O resgate foi atendido, não por um salvador, mas por outro idoso próximo, que também blasfemou contra a espera e aliviou o pedido de socorro do senhor de cabelos cínicos. 11:45; subitamente, aqueles dois idosos foram absorvidos por uma amizade instantânea que se sustentava pelo ódio à longa fila que não se cansava em aumentar.

Senha 98, 11:59. Os novos amigos ao meu lado, como se as reclamações à desorganização e ao descaso do estabelecimento não bastassem, levaram o diálogo de concordâncias a um novo nível e passaram a culpar os altos cargos públicos e suas ações dúbias, seus pequenos subornos, sua improbidade vinda de berço. O cacarejo dos senhores começou a chamar a atenção dos demais habitantes da fila: alguns entortavam a boca e logo retrocediam à eupatia do ambiente, outros balançavam a cabeça em concordância e completavam as frases raivosas dos dois amigos com pequenos “aham” e alguns “realmente”. Todos corruptos, todos gatunos, estelionatários, a razão não só daquele recinto ser incompetente, mas também da prefeitura, do governo estadual e federal, todo absurdo que permeia a política impresso naquela situação da fila; fiquei admirado pela convicção com que os senhores balbuciavam suas certezas.

12:18, senha 102. Toda aquela falação entre os dois idosos parou de repente, quando um homem de jaqueta marrom segurando uma pasta velha entrou no recinto desviando-se da imensa fila que já dava a impressão de ser uma cobra gigantesca precipitando-se para a calçada. O senhor de cabelos castanhos olhou para o recém chegado com esperança, levantou-se e cumprimentou-o prontamente. Percebi que era o responsável pelo local; o senhor começou a falar sobre a inconformidade pela situação em que se encontrava, pelo absurdo de se esperar mais de uma hora e meia numa repartição pública, entre outras reclamações as quais todas as pessoas da imensa fila já haviam escutado. O homem da pasta velha deu alguns tapinhas nas costas do senhor, pediu desculpas e chamou-o para dentro do seu escritório. O senhor de cabelos castanhos abandonou seu novo amigo e partiu para dentro do recinto com o homem da pasta velha.

12:37, senha 106. A porta lateral se abriu e o velho de cabelos castanhos saiu de lá com um par de papéis na mão e um sorriso no rosto. Voltou à companhia do novo amigo e despediu-se reiterando que são homens como aquele da pasta velha os responsáveis por fazer “o negócio” funcionar, praticamente um herói; o chumaço de lamentáveis cabelos castanhos deu meia volta e saiu o mais rápido que pôde, desviando-se do mar de gente que se acumulava na entrada do recinto antes que aqueles olhos cobiçosos notassem o que acabara de acontecer. Às 12:43, fui chamado.