Crônicas Da Cinzenta Cidade

I

Sylvia Plath se matou, Kurt Cobain também. Eu também já pensei em me matar uma vez, mas não deu certo. Todos juntos deveriam se matar, mas isto também nunca daria certo. Todo o mundo é suicida inconsciente e, sem atestar isso de um modo latente, pratica o harakiri existencial mais resistente e que é identificável pelos sintomas mais absurdos. Se um suicídio coletivo não seria uma solução para nada no humano mundo, resta que saibamos, então, aprender com as cinzas que construímos para nós mesmos com o passar dos milênios. Como membros de uma grande banda de Black Metal em essência e presença, aprendamos a nos cobrir com as cinzas que continuamente acumulamos neste planeta que agredimos e torturamos tanto.

Alejandra Pizarnik não teve filhos, Jean Jacques Rousseau abandonou os cinco filhos em um orfanato. Eu mesmo um dia quis ter cinco filhos, hoje não quero perpetuar a minha espécie detestável. A nossa espécie detestável, melhor dizendo, já que você e eu pertencemos a este amontoado de tomos de livros rasgados que é a Espécie Humana. Perpetuar esta desgraça que somos é loucura, uma loucura incessantemente praticada por quase todos. E nesta roda de nascimentos e renascimentos seguimos adiante, assistindo ao descontrolado crescimento da multidão de seguidores e herdeiros das milenares cinzas que nos compõem. “Crescei e multiplicai-vos” é a ordem dos dias de uma civilização que somente cresce e se multiplica no número, na quantidade, no efêmero, no limitado. Qualidade, permanência e infinitude em termos de uma verdadeira evolução de homo sentiens para o verdadeiro homo sapiens é uma quimera recheada de distâncias imutáveis da nossa diminuta realidade.

John Lennon foi morto a balas, Daniela Perez foi morta a tesouradas. Eu já quis matar alguém um dia e quase fui morto duas vezes por seres de nossa própria espécie. Animais sociais matam uns aos outros, homens e mulheres de bem desta falida cinzenta civilização são ditados de selvagerias das mais irascíveis. E a mitologia das violências várias povoam os jornais, as redes sociais, o inconsciente coletivo e a mente desperta de cada um que come as próprias cinzas nas refeições. Somos entes sanguinários, gostamos da agressividade, gozamos com a destruição e amamos todo tipo de crueldade. Ah, você aí não é assim? Você não é um ser humano como tantos outros propenso mais ao fator das más paixões do que das boas paixões? Você é um alienígena, então? Bem-vinda e bem-vindo sejas, alienígena, ao Terceiro Milênio de uma cinzenta Espécie arruinada! Sente-se na melhor fileira, o filme da humana realidade é exibido de segundo a segundo diante de seus olhos! Um bebê é estrangulado! Uma mulher é estuprada! Um massacre em uma escola! E você se cobre de cinzas e goza da tua própria vida vazia! Ora, confessemos, nós todos somos assim, não é mesmo?

Santo Estevão foi apedrejado até a morte, São Pedro foi crucificado de cabeça para baixo. Eu mesmo já fui muito apedrejado, eu mesmo estou crucificado de cabeça para baixo. E quantos hoje resistem aos apedrejamentos de uma doente sociedade? E quantos podem resistir às diárias crucificações de suas cinzentas realidades? Pensar e Ser autenticamente hoje em dia é uma obra para quem quer realmente se isolar das falsas buscas de um mundo hiperconectado ao Nada, ao Limbo, ao Vazio, ao Deteriorável. Pensar e Ser entre aqueles que repetem e repetem e repetem as mesmas palavras de sempre é correr o risco de ficar a falar sozinho entre tantos que gritam suas mediocridades. Pensar e Ser dentro de um mundo cheio de autômatos sofredores das mais diversas lavagens cerebrais é pedir para beber o melhor veneno capaz de matar todo tipo de conexão para com o cinzento contemporâneo mundo. Poucos verdadeiramente Pensam hoje, logo, passam a ver o que é na verdade o mundo. Raros verdadeiramente São hoje, logo, não se identificam com as deletérias coisas do atual mundo. Deuses entre vermes. Ou apenas baratas em meio a gigantes no quesito imbecilidade.

Giordano Bruno foi queimado vivo na fogueira da Inquisição, Friedrich Wilhelm Nietzsche passou os dez últimos anos de sua existência mentalmente perturbado. Eu mesmo estou sendo queimado vivo, eu mesmo sou perturbado. E das minhas cinzas escrevo sobre as cinzentas crônicas da Cinzenta Cidade. Esta é todo o nosso mundo. Você é parte dele tanto quanto eu. Fugir da Terra é impossível e se há vida inteligente em outros mundos, o principal sinal da altíssima inteligência de tais seres está no fato de que jamais entraram em um efetivo contato conosco. Nossas cinzas os destruiriam, eles sabem. As nossas cinzas, destruidoras de todo a Terra. E quase ninguém se dá conta. E quase ninguém liga. E quase ninguém vê as cinzas por toda parte.

Arthur Rimbaud foi para o deserto, George Gordon Byron morreu em cima de uma cama. Eu não vou para o deserto. Eu não vou morrer em cima de uma cama. Eu já estou morto, coberto de cinzas. Você também é um cadáver, coberto de cinzas.

Então, vai me acompanhar, cadáver, pelos passeios pela Cinzenta Cidade?

Inominável Ser

CINZENTO

CRONISTA

INOMINÁVEL

Imagem: Colhida no Pixabay