Puro acaso escrito entre tantos
Parei tudo, mesmo atarefado como nunca.
A cara de cansaço junto com a caneca cheia de café não me deixavam negar, eu estava realmente cansado e acabado.
José estava do meu lado.
Saí, no frio, sem camiseta. Pés descalços de encontro com a grama.
O orvalho me fazia lembrar a infância, enquanto a quentura do café me fazia lembrar a vida adulta.
Olhei a lua - José ainda estava do meu lado.
Eu disse: "você já viu a luz da lua com um óculos de grau?”
-Lua? Jura que você me fez vir aqui fora pra isso? Quem liga pra lua? Não temos tempo. Evolua.
-O óculos expande a luz, e ela parece ter raios… enfim…
Me embaralho, mas retorno.
Continuo: “eu ligo, porque ela liga, e hoje ela está mais bonita que o normal”.
-A lua está mais bonita?
-Não, a lua é só o laço que une. É só a personificação da singularidade, da inter(essência), da profundeza, do mistério. Quem está mais bonita é a…
José me corta.
-Laço que une? Interessência? Quantas taças de vinhos você tomou, tem certeza que foram só duas? Você tá bem?
José para, me olha admirando a lua e continua: “ahhhhhh não, não me diga que é ela”.
-Sim, é ela.
-O que tanto ela tem? Só sei dos olhos verdes. Ela és bela?
-Quem dera se ela fosse só bela. É muito mais do que isso. Chama-lá de bela é um insulto, na verdade.
…
Ela é a paz entre assírios e babilônios, o amor e o antônimo
É tipo cafeína pura: um pouco de adrenalina e aventura
É uma taça de um bom vinho em uma boa companhia
É a personificação da coragem e da profundidade que me tiram da realidade
Minha opinião? Ela é de deixar as letras de Caetano no chão
É uma droga pesada que te arranca de casa
E ao mesmo tempo é o motivo de voltar pra casa
Tipo nicotina pra quem fuma, uma estrada com neblina sem luz alguma
É um crime, do qual eu não posso abrir ocorrência
Pois, sem ela, eu sofro de abstinência
…
Só sei que, em meio a rimas e mais rimas, eu me perco
E no mesmo momento
Me encontro nela
Me encontro no seu sorriso que carrega uma luz divina
Me encontro em seu mistério, na sua garra e na sua intensidade
Me encontro na sincronicidade de nossos pensamentos
Me encontro no alinhamento de nossas energias
Me encontro numa mulher transcendente
Me encontro na sua vibe: bebendo vinho, de lingerie no quarto, como se o mundo ao redor já não importasse (toca na minha cabeça: o mundo inteiro vai acabar e ela só quer dançar, dançar, dançar)
Me encontro na sua essência pura, no seu gosto de loucura
E eis que o cético não é mais um cético
No final das contas
Essa mulher é como a lua: tão cheia de pudor que vive nua
Tão distante que, numa singela dualidade, parece perto
Muito perto
Tão perto que praticamente sinto o calor de sua pele
Tão perto que sinto o pulso de seu coração
Tão perto que me sinto anestesiado
Tão perto que me pego apaixonado
Tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe
…
José, pálido, abismado com a história, pegunta: “tá esperando o que para ir vê-lá?”
-Também não sei. É o mistério de existência da madrugada do dia 23 de abril.
E seguimos assim: ela na charmosa Buenos Aires, eu na caótica São Paulo.
A distancia nos limita, ao mesmo tempo que nos une.
Estranho é que cada um reflete as características da cidade que habita
Eu: aflito, estranho, indeciso
Ela: magnífica, única, singular
…
-Boa noite, moça. Tudo bem? Me vê a próxima passagem para Buenos Aires, por favor? Classe econômica.