Minha empresa fez 7 anos. O que aprendi neste tempo?

Giovani Rocha
Jul 10, 2017 · 9 min read

Há 7 anos, no mês de Julho, eu abri o CNPJ da minha empresa. Claro que ela havia nascido na minha cabeça bem antes desta data. Se bem me recordo, pelo menos uns 5 meses antes, durante o carnaval de Olinda.

Eu queria abrir um negócio e tinha algum dinheiro guardado, mas não tinha certeza se deveria continuar no mesmo ramo em que trabalhava há dez anos.

Eu estava solteiro na época depois de um relacionamento de 5 anos. Tava feliz por estar solteiro em Olinda, mas triste por estar de fato sozinho de novo na vida. E essa reflexão me ajudou na decisão de me manter no ramo da joalheria.

“Sério? Mas que que isso tem a ver com qualquer coisa?”

Tem muito a ver. Pelo menos pra mim, na época. E ainda hoje.

Ali no meio daquela loucura boa, eu percebi que minha ideia de felicidade não era possível sendo solteiro por muito tempo. Eu podia estar muito alegre e curtindo como se não houvesse amanhã. Mas sabia que era passageiro e vi que eu precisava encontrar um amor.

Eu entendi que quando a gente tá em um relacionamento, a gente se torna melhor e mais compreensivo de maneira geral. É como se você tivesse mais um motivo pra ser sua melhor versão. Você passa a ter um propósito que é estar ao lado de outra pessoa e construir alguma coisa junto. Não tô falando de nada material, tô falando das vivências que um relacionamento proporciona e que podem tornar você, o seu parceiro e o mundo melhores. Eu sempre saí uma pessoa melhor de todo relacionamento longo que eu tive.

Claro que isso não é verdade pra todas as pessoas. Mas se era verdade pra mim, existia uma boa chance de ser verdade pra bastante gente.

Voltando aos negócios.

Eu havia começado a desenhar joias de maneira mais intensa aos 18 anos (em 1999), quando comecei a trabalhar com meu pai na loja de joias que ele abriu em 1980. Eu tinha (e ainda tenho) um fascínio pela possibilidade de ver uma ideia que estava dentro da minha cabeça se materializar em um objeto que as pessoas podem usar no dia a dia. E no caso da joia, pode ser usada por muitos e muitos anos, talvez pela vida inteira.

Pulseira Giovana, desenhada por mim em 2004.

Sempre achei isso um pouco mágico. E quando a primeira peça que desenhei foi comprada eu acreditei que seria muito legal viver desta magia.

Mas, voltando pra 2010, eu costumava atender casais em busca de alianças na loja do meu pai. Na época a empresa não tinha uma linha de alianças própria, fazia sob encomenda quando alguém procurava, mas não existia um olhar diferente sobre aquele nicho. Os casais se queixavam frequentemente de ver os mesmos modelos em quase todas as lojas. Eles estavam certos. Na época, a grande maioria das lojas trabalhava com alianças produzidas em fábricas que ficam na região Sudeste do Brasil. Estas fábricas, apesar de vender produtos de alta qualidade técnica, tinham um número de modelos limitado e não ofereciam nada muito diferente em termos de design.

Percebi que o mercado não tava dando a devida atenção pra uma coisa muito importante e que, na minha recente conclusão carnavalesca, tinha o potencial de transformar o mundo: a união entre dois seres humanos.

Eu juntei a minha vontade de ver minhas idéias se materializarem com essa análise de mercado e a análise que tinha feito no carnaval e decidi abrir um negócio que iria olhar pros relacionamentos de um jeito diferente.

Iríamos oferecer opções de alianças com design exclusivo (criado por mim) desenvolvido sob temáticas das relações conjugais, poesia e sentimentos, com alta qualidade.

Foto de Aline Spezia, parte do editorial produzido por Luiza Abelin para ROCHAH em 2010.

Assim nasceu a ROCHAH, empresa que desenvolve pequenas obras de arte usáveis, feitas à mão, com nome, personalidade e história próprias. Nosso propósito é usar nossa paixão por criar pra ajudar pessoas a demonstrar seu amor e assim contribuir com a transformação que o amor é capaz de fazer nas pessoas e no mundo.

A jornada pra criação da empresa, escolha do nome e marca, a correria pra levantar o dinheiro e todos perrengues e glórias vividos serão contados em algum momento. Mas agora queria destacar alguns aprendizados que ficaram marcados nestes anos:

Só tá rolando até hoje porque alguém acreditou…

Desde o primeiro dia que eu decidi abrir o negócio eu acreditei. O fato de acreditar tanto me fez convencer as pessoas que podiam acreditar e hoje eu entendo que a confiança é algo exponencial. Mas teve um período que eu acreditei sozinho. A confiança tem que começar, mesmo que naquele momento não tenha mais ninguém botando a menor fé, até alguém botar. Meu trabalho era esse: fazer as pessoas acreditarem.

Quando nós éramos só um expositor numa vitrine com alguns anéis, alguns clientes acreditaram em nós. Essa confiança permitiu a criação de um site e pessoas de outros estados também começaram a acreditar. Acreditamos que seria legal colocar nosso nome na fachada da loja e as pessoas passaram a acreditar e indicar outras pessoas e este processo de realimentar a confiança foi gerando mais credibilidade e foi mantendo a ideia viva até hoje.

Expositor Ouriço desenvolvido por Lucas Lacerda e Maria Gabriela Sanches para ROCHAH em 2010.

Pra colher admiração, é preciso regar a confiança.

Retribuir é o motor da confiança, e consequentemente, da ideia.

A forma mais eficaz pra retribuir a confiança é entregar pelo menos 100% do que as pessoas esperam. Se for possível entregar mais, eu aprendi que vale a pena.

A confiança não é algo limitado ou estático. Ela evolui. Quando atinge um nível alto, ela pode se transformar em admiração. Se isso acontecer, a ideia estará turbinada pelas pessoas que a admiram. Isso foi algo que sempre tentei fazer. E as vezes tem um custo relevante pra empresa. Mas aqueles 5 ou 10% a mais na entrega podem se tornar muito valiosos depois. Conseguir a admiração dos clientes não tem preço.

Nunca foi fácil.

Todo mundo já ouviu aquele clichê: “Ser empresário no Brasil é pra louco”.

E ele é muito verdadeiro. Não vou entrar em detalhes, nem me lamentar pela escolha que fiz, mas é fato que as características do Estado brasileiro não incentivam as pessoas a abrirem empresas.

Além de minar a produtividade de uma empresa pequena como é o caso da minha, já que eu tenho que lidar diretamente com quase tudo, a burocracia causa revolta quando você percebe que precisa providenciar uma série de documentos (certidões e afins) para conseguir algum financiamento, apenas porque foi definido desta forma por algum órgão público, alguma lei.

Mas o Estado é só uma das dificuldades. Colocar um negócio de pé e fazer ele girar vai muito além de trabalhar com algo que você acredita, ganhar a confiança das pessoas e vencer a burocracia do Estado.

Um dos principais desafios na minha opinião é comunicar de maneira eficaz o que você acredita, como e porque você faz o que faz pras pessoas que pensam parecido com você e que tem relevância pra sua marca. Ainda estamos encontrando as melhores maneiras de fazer isso. Não acredito que tenha apenas uma forma correta, até porque tudo muda o tempo todo e o jeito de comunicar valor está totalmente conectado com estas mudanças.

Quando comecei a empresa, não existia Instagram. Hoje uma grande parte dos clientes tem o primeiro contato com a marca por meio do nosso perfil do insta. Muito provavelmente daqui 7 anos isso também será diferente.

Comunicar é tão importante quanto fazer. Você pode estar cheio de ideias legais e até executá-las. Mas se seu público não tá sabendo disso, você fica andando em círculos.

Crises vão existir sempre.

Se não for crise econômica, vai ser uma crise pessoal. Sua ou de algum parceiro, ou dos clientes. A verdade é que eu entendi que a crise é uma constante na vida da empresa.

Hoje não penso mais em cenário sem crise. Mas em como fazer para enfrentar cada tipo de crise.

Eu passei por uma crise pessoal que me afastou um pouco do meu negócio. O negócio não estava ruim, mas eu comecei a comparar meu sucesso com o sucesso de outras pessoas e interpretei que eu tava ficando pra trás. Um grande erro.

Tentando reagir a esta crise e correr atrás do suposto “sucesso”, arrumei um segundo emprego em uma área totalmente diferente da minha: venda de soluções de tecnologia educacional. Não foi só pra tentar ganhar mais dinheiro. Se tratava também de um desafio profissional novo. Eu trabalhei a vida toda no mesmo ramo. Será que eu era capaz de fazer outra coisa? Eu precisava saber a resposta.

Eu mantive meu negócio, mas meu foco ficou dividido. Durante este período alguns concorrentes surgiram, outros cresceram e meu negócio, apesar de continuar operando, não cresceu, não evoluiu. Ficou andando de lado. E pra piorar, as coisas no meu outro desafio profissional não saíram como planejado.

Eu respondi a pergunta: Sim. Eu consigo fazer outra coisa. Mas veio uma outra pergunta: Vale a pena fazer outra coisa?

Não! Nunca vale a pena se afastar do seu sonho, seja qual for o motivo. Isso foi o aprendizado que ficou.

Decidi voltar pro meu negócio com força total, mas agora eu tinha outra crise pra enfrentar. Meu faturamento tinha diminuído devido ao esforço menor que estava sendo empregado. Pra manter uma margem que me garantisse a mesma renda que tinha com o outro emprego, eu precisava cortar custos. Fiz um raio x e descobri que só tinha um custo que poderia melhorar a minha margem naquela proporção: custo de confecção.

De 2010 até o final de 2013 eu desenhava as peças e outros profissionais confeccionavam. Eu sabia fazer e tinha conhecimento de todo o processo de cada joia que criava, mas eu não fazia as peças. Eu havia tentado resolver a crise anterior recorrendo a soluções externas. Dessa vez eu sabia que a solução da crise tinha que vir de dentro. E foi aí que eu comecei a confeccionar todas as joias que desenhava. E isso mudou tudo.

Eu fundindo metais no atelier da ROCHAH.

A mudança mais significativa foi na forma de pensar o negócio. Antes de fazer as minhas próprias peças, eu já tinha uma relação muito forte com elas. Mas depois que comecei a executar uma por uma, realmente me apaixonei de novo por cada detalhe. E isso foi refletido em tudo. No meu discurso, na comunicação da empresa e claro, na relação com os clientes. O olho no olho ganhou outra dimensão. Mergulhei no meu próprio negócio e retornei mais forte, com mais vontade de mostrar pro mundo que o que fazíamos era realmente incrível e único.

Foi uma ótima maneira de reagir à crise. Os anos seguintes foram os melhores da nossa história. Sem dúvidas, impulsionados pela força que ganhei quando me envolvi na produção.

“Qual o próximo passo?”

Estamos nos preparando para uma mudança considerável este ano. Ela inclui um novo site, renovação da marca, um novo espaço físico e um nova proposta de valor, baseada na troca que acontece entre a marca e as pessoas.

Vamos apresentar um espaço criado para proporcionar experiências. Com o formato de uma galeria/atelier de arte, o espaço integra atendimento, criação e produção. Os visitantes terão oportunidade de conhecer nossas obras, entender um pouco do processo de confecção e entrar no universo da marca.

Este passo acontece num momento de maturidade da marca e tem como um dos seus objetivos aumentar o contato das pessoas com aquilo que acreditamos. Cada detalhe do projeto foi pensado para criar um diálogo com as pessoas que irão visitar o local e proporcionar um momento marcante.

Futuras instalações da ROCHAH.

Tenho muito o que agradecer!

Nesses sete anos participamos da vida de muita gente. Foram mais de 500 alianças produzidas e muitas outras joias, todas à mão. É muito legal pensar que nenhuma de nossas peças existia 7 anos atrás e hoje tanta gente usa no dia a dia, vivenciando histórias e construindo seus caminhos. Isso é a consolidação do meu sonho de viver da mágica que transforma ideias em artefatos usáveis e com significado.

Deixo aqui o nosso agradecimento pra cada pessoa que acreditou. Sem vocês nada disso teria sido possível. Nós aprendemos todo dia com vocês e queremos entregar cada vez mais valor pra cada um que compartilha sua história conosco.

Trabalhar pra vocês faz todo o sentido!

Muito obrigado!

Giovani Rocha

Written by

Uso minhas mãos para transformar idéias e histórias em artefatos marcantes que ajudam a demonstrar sentimentos. www.rochah.com

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