Pesquisa mostra falta de negros no cinema brasileiro e reflete racismo na sociedade brasileira

Chris Rock na edição 88º do Oscar, onde fez discurso crítico e ácido sobre nenhum negro ser indicado ao prêmio. Imagem: Divulgação

A falta de indicação de atores negros ao Oscar gerou protestos e reacendeu a discussão sobre a diversidade racial nas produções cinematográficas. No Brasil, embora 53% da população se autodeclare negra ou parda, segundo A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) em 2014, uma pesquisa feita pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) analisou os lançamentos de maiores bilheterias de filmes brasileiros entre 2002 até 2014 e revelou que 80% dos personagens principais são interpretados por brancos.

O levantamento foi feito pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Geema) e considerou também variável como gênero. Das maiores bilheterias, 45% dos papéis ficaram com homens brancos, 35% com mulheres brancas. Os negros interpretaram 15% dos protagonistas e as mulheres, apenas 5%. Outra descoberta da pesquisa é que, em 2002, 2008 e 2013, simplesmente nenhum filme analisado pelos pesquisadores foi protagonizado por uma mulher negra.

Luiz Augusto Campos, professor de Sociologia do IESP-UERJ, coordenador e um dos pesquisadores do estudo conta que a ideia surgiu no grupo da universidade. “A pesquisa surgiu no Geema. Depois de alguns anos pesquisando a presença/ausência de pretos e pardos das universidades, decidimos pesquisar outros campos, mormente o audiovisual e a política”.

“Estamos na era da imagem, representação é tudo”

“O racismo que eu vivi lá (Portugal), fez com que eu lutasse mais fortemente contra o racismo aqui” relata Ana Vitória Prudente, atriz formada pela Unicamp, atualmente mora em São Paulo. Participante dos movimentos de militância, a atriz é membro do Núcleo Teatro Negro de Pesquisa, onde estudam sobre a história dos negros na história, o movimento Negritude e a representatividade na dramaturgia e de que maneira é abordado, o que ressalta a importância para este tipo de luta pelo movimento. “Estamos na era da imagem, representação é tudo, ao representar uma mulher negra assim, você mostra em que área do imaginário coletivo você quer que ela habite.” explica Ana.


Por trás das câmeras, a desigualdade é mais gritante. Os cineastas homens brancos são 84%. As mulheres brancas representam 14%. Já os homens negros são 2% dos diretores e nenhuma mulher negra dirigiu e assinou um roteiro durante os 11 anos analisados na pesquisa. Além disso, 69% dos que escreveram os roteiros são homens brancos.

Roniel Felipe, jornalista, fotógrafo e participante do movimento negro, conta que essa falta de diversidade no cinema é um reflexo econômico do País. “Um curso de cinema é caríssimo, o equipamento é caro, uma câmera no dólar alto não vai ser menos de R$9 mil. Para começar uma produção, precisa de uma captação, um programa bom e um notebook não pode ser ruim. São coisas que carecem de um suporte. Se, para o branco, já complica pelo financeiro, imagina um negro”, explica.

O jornalista acredita que existe uma relação direta entre a produção cinematográfica e a economia. De acordo com ele, ocorre um “engessamento cultural”. “Muito dos filmes são baseados em livros, como Cidade de Deus, BOPE também. Se temos bons livros, bons roteiristas, a gente consegue ter um cinema melhor. Nos Estados Unidos, se um livro vende muito, independentemente de ser bom ou não, alguém compra os direitos para fazer um filme, vide 50 Tons de Cinza que ganhou um Framboesa de Ouro [premiação que faz paródia do Oscar pelos piores filmes, atores, produtores do ano]”, conta.

Quem tem medo das mulheres no audiovisual?

Em uma outra pesquisa feita pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), dos 128 filmes brasileiros lançados ano passado, apenas 19 filmes (equivalente à 14,8% ) foram dirigidos por mulheres, enquanto homens dirigiam 77,3% das obras e os outros 7,8% foram direção mista. Para dar mais força à igualdade no cinema, o Coletivo Vermelha, grupo criado em 2014 por diretoras, roteiristas e mulheres do audiovisual, estiveram no dia 17 de março, no Museu de Imagem e Som (MIS) de Campinas para o ciclo de debates “Quem tem medo das mulheres no audiovisual?”, que reuniu mulheres do meio cinematográfico, movimentos feministas e intelectuais para mostrar filmes, com a temática e debater, refletir sobre os preconceitos existentes. A ação será realizada em diversos locais do Estado de São Paulo nos próximos seis meses.

Evento do Coletivo Vermelha, da esquerda para direita: as convidadas Gabriela Romeu, Vanessa Fort, Renata Martins e Jane Felipe. Foto: Giovanna Breve

Entre as convidadas, estava Renata Martins, cineasta formada pela Universidade Anhembi Morumbi, pós-graduada pela Universidade de São Paulo (USP) em Linguagens da Arte e ativista negra. Criou no ano passado a web série documental Empoderadas, criado junto com a cineasta Joyce Prado, que conta histórias inspiradoras de mulheres negras para empoderar outras negras que atuam em diferentes áreas. Durante a palestra “Nem príncipes, nem princesas: o impacto da produção audiovisual para crianças na manutenção ou transformação dos estereótipos de gênero”, Renata afirma que deve ter persistência pela representação de crianças e mulheres negras para ter o seu lugar no cinema. “Desde os anos 50 até hoje, esses lugares [cinema e teatros] estão determinados. Nosso desafio é representar a subjetividade na construção dessas personagens. A gente precisa construir imagens juntas e um monte, um monte de imagens e utilizando os canais que são alternativos à grande mídia, a gente pode usar a Internet como uma das vias para poder ampliar isso”.

Da esquerda para direita: as convidadas Gabriela Romeu, Vanessa Fort (atrás), Renata Martins e Jane Felipe. Foto: Giovanna Breve

A luta pela igualdade de gênero no cinema vai além da internet. Neste ano, foram criadas duas premiações nacionais para as mulheres no audiovisual: o Prêmio Cabíria, criado por meio de campanha de financiamento coletivo para premiar roteiros de filmes com boas protagonistas femininas que foi realizado no dia internacional da mulher, dia 8, no Simpósio Global sobre Gênero na Mídia do Instituto Geena Davis. O outro é o Festival Internacional de Cinema de Realizadoras (Fincar) que premia curtas, médios e longa-metragem dirigidos por mulheres que ocorrerá de 6 a 9 de julho será realizada em Recife (PE).

No exterior, o próprio Coletivo Vermelha foi inspirado pelo Film Fetales, rede global que reúne cineastas para criar projetos e discutir a relação da mulher na indústria cinematográfica por meio do suporte de financiamento coletivo. Na Europa, o Instituto Sueco de Cinema é dirigido por uma mulher e tem como objetivo dar visibilidade para as mulheres no cinema, proporcionando curso e empoderamento. A Suécia se tornou o primeiro país a ter igualdade de gêneros no cinema.

Os movimentos estão exteriorizando no Brasil, pelos países e a Internet, a Academia têm o tradicionalismo e elitismo, mas as lutas permanecem e criam novas oportunidade para pessoas não apenas os negros, mulheres, como também os deficientes mentais e físicos terem sua representatividade e, esperando assim, que eles tenham um resignificado e uma importância maior, que tanto o cinema quanto as artes sejam representadas pelo mundo onde não tenha a “brancura” de mundo representada.

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