“Pessoa” do povo

Sensações. Foto: Giovanna Breve

Seja bem-vindo, pode entrar, estou de portas abertas, quer dizer portões. Não se acanhe, pois apesar do meu tamanho sou muito aberto, fique à vontade, veja e conheça, pois aqui eu tenho tudo o que precisar, aliás é mais fácil listar o que não possuo de que possuir, pois se fizer a lista demoraria anos e anos.

Minha rotina é movimentada: acordo cedo como qualquer cidadão trabalhador, pois também tenho serviço, muito serviço. Abro antes das sete e fecho meus portões pelo final da tarde, umas seis. Recebo visitas desde cedo e por aqui já recebi várias pessoas de diferentes origens, idades e jeitos. Não sou médico e nem cabeleireiro para receber visitas, clientes ou pacientes, sou o Mercado Municipal de Campinas, também conhecido por aí como Mercadão para os íntimos. Fiz 108 anos em abril, fico entre as avenidas mais conhecidas da cidade, as movimentadas Francisco Glicério, Benjamim Constant e Senador Saraiva. Apesar da minha vida ser parecida como as de vocês, não fui gerado por uma mulher, mas sim um homem, saí do imaginário de Ramos de Azevedo, reconhecido arquiteto campineiro, que também gerou meus outros irmãos na cidade como o Colégio Politécnico Bento Quirino, a Catedral Metropolitana de Campinas entre outros que estão espalhados pelas cidades do Estado de São Paulo como o Mercado Municipal de São Paulo, o Museu Casa das Rosas, etc.

Varas que vão ao céu. Foto: Giovanna Breve

Até onde me conheço, não possuo descendência árabe, mas meu estilo que fui moldado é chamado neomourisco, ou neoárabe para ser mais claro. Meu pai me criou com 143 boxes, mas não prefiro esse termo por ser muito técnico, prefiro lojinhas, sou do povo, confesso. Há lojistas que abrigam o comércio há décadas aqui e há um camelódromo na parte de fora, mas esse falarei depois.

Como disse, em mim há uma diversidade de objetos, comidas, sabores e cheiros, foram pouquíssimos os que saíram de mãos vazias, posso garantir. Como um típico “mercadão” possuo carnes de animais a mostras, temperos exóticos e sacos com uma imensidão de grãos de diversos tipos espalhados, ao ver as pessoas passando por esses sacos é nessas horas que gostaria de ter mãos, pois vejo desde crianças acompanhadas de adultos até senhoras enfiando as mãos bem fundo nos sacos sem pegar um grão sequer, apenas para sentir a sensação dos grãos nas mãos, que parece ser um prazer sem igual!

Além de animais mortos, tenho os vivos, peixes e mais peixes como os betas coloridinhos e tenho o verídico peixe palhaço, aquele do filme dos peixinhos que as crianças vivem comentando na loja quando passam, um tal de Nemo, conhece? Por falar em peixe, gosto de perceber o tamanho das varas das lojas de pescas que têm aqui, seria como se as varas fizessem uma competição de quem é a maior entre elas, chegam a serem mais altas que a própria loja, um barato.

Foto: Giovanna Breve

Apesar do clima harmonioso que mantenho aqui, as lojas mantém uma “indireta” disputa por cliente, se não é a competição de quem deixa mais expostos os alimentos e produtos, é também a bagunça olfativa que fica em mim, com principal acorde das carnes defumadas, com fundo de fritura da famosa coxinha de massa de mandioca, os nuances do couro e a essência de tempero, esse último aliás há uma loja aqui com tanta pimenta, mas tanta pimenta que as pessoas mais sensíveis tampam o nariz ao passar por ela pelo forte odor, isso misturando com a única lojinha de perfumes para ficar tudo junto e misturado. Mas não reclamo, o que faz o mercadão ser diferente dos outros é o povo, e junto com eles vêm seus mais diversos odores e sabores.

Se espreitando pelo Mercadão. Foto: Giovanna Breve

Das diferentes figuras que passou e abrigo por aqui, gosto de analisar mesmo são os animais, mas afinal o que eles querem de mim que chama tanta atenção, as pombas que sobrevoam em mim, criam ninhos e atiram dejetos em mim, se você já recebeu um torpedo de pombo, eu recebo ao menos umas dez por dia. Dentre essa bicharada de pombos agitados e cães disputando por um pedaço de comida entre os feirantes, o que mais é sossegado são os gatos, em especial um “sia-lata” que fica na loja pet do lado de fora de mim, o gato sem vergonha, além de dormir na loja fica espreitando nas minhas paredes pedindo carinho e um dengo dos que passam. Um fato dessa loja pet é como ele exibe as rações da mesma forma como os sacos que falei, em sacos ou potes abertos a mostra as rações com plaquinhas das diversas marcas, como se tivesse atraindo os animais do que os humanos.

Diferentes, porém, com fé. Foto: Giovanna Breve

Aqui têm espaço para tudo, até mesmo para a religião, não importa se é católico, umbanda, candomblé, qualquer uma delas você pode encontrar aqui, itens para pagar promessas, folhas para benzer e sal grosso, estátuas de santos, orixás e Jesus no estado físico e líquido, sim líquido, possuo aqui o Guaraná Jesus, uma bebida típica do Maranhão, mas que ganhou adeptos pelo seu gosto doce, isso é o que dizem pois eu não bebo.

Minha vista é muito ampla, mas fico de frente para o pequeno terminal que também leva o meu nome, e dentre os que mais me identifico são os olheiros, os que ficam de fora, apenas vendo o movimento, pois apesar das pessoas estarem em mim eu consigo observa-las o que fazem, ouço o que falam por aí (e você achava que paredes não tinham ouvido) , mas as mesmas não podem me ouvir, ler meus pensamentos, falar comigo, sendo eu apenas um observador de mim mesmo.

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