O menino e o sorvete

Um trânsito inesperado no estacionamento fez com que voltássemos para o shopping, o qual já estávamos mais do que prontos para deixar, e meu pai resolveu que tomaríamos uma água com gás enquanto esperávamos o trânsito se desfazer. Nos pusemos a procurar um lugar aberto onde as lojas pareciam abandonadas já há tempos, quando achamos um pequeno restaurante que gritava sabores deliciosos de sorvete, por isso, não era de se espantar que na nossa frente da fila haveria uma criança.

Era um menino lindo. Muito pequeno. Devia ter uns três ou quatro anos. Tinha uma cara fofa de sono, talvez devida a hora que já não era pouca, mas chorava muito. Chorava e agarrava a perna de uma mulher que vestia branco e parecia ser a babá do menino. Ela olhava para os lados como se pudesse avistar algo que o fizesse parar de chorar e já na fila dizia “Olha o sorvete! Você quer sorvete?”, e o menino respondia sem dó:

— Eu quero dinheiro!

Dinheiro? Definitivamente não era um menino que realmente precisasse de dinheiro, mas ele o queria. E mais: queria mais dinheiro do que sorvete. Quando foi que deixamos isso acontecer com as crianças? Quando eu era pequena adorava um sorvete, mas preferia picolé, acho que só pelo fato de que sempre me sujava mais com picolé e ainda não tenho total certeza se hoje em dia sou capaz de não me sujar com picolés de uva. Depois de mais crescida eu tomava sorvete sempre de copinho para me sujar menos. Mas nunca pedi dinheiro ao invés de sorvete. Nunca neguei sorvete.

O que será que ele gostaria de fazer com esse dinheiro que pedia? Será que gostaria de guardar? De dar para alguém? De somente segurar o dinheiro? De fazer um aviãozinho de papel? De picotar o dinheiro e fazer uma festa? Espero que pelo menos gostaria de comprar seu próprio sorvete.

— Eu também quero dinheiro. — dizia meu pai para mim enquanto imitava o menino da fila.

— Eu quero um sorvete de Pistache. — disse minha avó.

Isso mesmo vó, escolha sempre sorvetes.

Like what you read? Give Giovanna Maia a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.