Gil sonhou

“O sonho acabou

Foi pesado o sono pra quem não sonhou”

Assim termina a canção de Gilberto Gil composta em 1971 durante a edição daquele ano do festival inglês Glastonburry. O final da canção retoma a ideia de seus primeiros versos. “Quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou”. A referência aos “sacos de dormir” faz alusão à geração hippie da década de 60, que pertence ao movimento da contracultura. O fim dos Beatles em 69, considerado à época como a encarnação das revoluções de seu tempo, marcou para muitos o fim de uma época, e, portanto, do sonho.

O grupo foi o mais emblemático representante da música popular e carregava consigo o símbolo da possibilidade da mudança, do todo trabalhando através do amor e da paz a fim de conquistar uma nova realidade. E isso, claro, em um contexto de Guerra Fria (mais tarde o próprio Gil cita o singular personagem da década de 60 de Kubrick, Doctor Strangelove). No mesmo ano em que os Beatles se separaram, John Lennon escreveu a descrente “God”, que mostrava a nova fase introspectiva do líder do grupo. O todo agora transformava-se em unidade — no caso de Lennon, um casal, ele e Yoko. Como o próprio compositor colocaria: “the dream is over”.

Em entrevista à revista Bondinho em 72, Gilberto Gil explica como surgiu “O sonho acabou”. A música representa para o artista o fim de um processo de aceitação e percepção de uma nova realidade, um fechamento de ciclo. É bastante simbólica a data da composição da música. Logo no início de uma nova década, que traria consigo, mais tarde, um movimento de fato contrário ao da década de 60. O movimento Punk. A letra carrega certa carga premonitória

Gil diz na entrevista que aquele momento representava para ele o fim do pop, da própria vivência vanguardista dos jovens da década de 60, da psicodelia.

“O sonho acabou

Dissolvendo a pílula da vida do doutor Ross

Na barriga de Maria”

A pílula da vida do doutor Ross foi um remédio que prometia resolver todos os problemas. Uma metáfora que simboliza o rompimento com a realidade vivida. Segundo Gil, os versos que antecedem a pílula do doutor Ross explicam que ele estava em paz com essa ruptura, que ela era natural.

“O sonho acabou hoje, quando o céu

Foi de-manhando, dessolvindo, vindo, vindo

Dissolvendo a noite na boca do dia”

A próxima estrofe, no entanto, faz referência a personagens da época. Ambos nutriam um sentimento ruim e destrutivo pela humanidade. Doutor Silvana foi um cientista amargurado de história em quadrinho, enquanto doutor Fantástico é o personagem de Stanley Kubrick que ameaça a humanidade usando armas de destruição em massa. Em comum também são as origens. Os personagens vinham de produtos pop, o cinema e as HQ’s. Logo em seguida, Gil completa e lembra que o sonho também implica no fim de seu “melaço de cana”.

Tudo isso para explicar o que estava por vir, uma juventude talvez mais revoltada e sufocada pela euforia da década de 60, como coloca Heloisa Buarque de Hollanda, em seu texto “Depois do Poemão”. Enfim, Gil constata com certo saudosismo que o sonho acabou, mas que quem não o viveu, certamente, teve o “sono mais pesado”.

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