A dinastia de Omri

Giovanni Alecrim
Nov 20 · 6 min read

O reino do Norte no caminho do apogeu

A política vigorosa da Casa de Omri salvou Israel do desastre, tornando-o uma vez mais uma nação de certa força. [1]

Os primeiros conturbados quarenta anos do Reino do Norte, sob os reinados de Jeroboão I (930–910 a.C.), Nadabe (910–908 a.C.), Baasa (908–886 a.C.), Elá (886–885 a.C.) e Zinri (885 a.C.), é sucedido pela chegada ao poder de Omri, a primeira tentativa de se formar uma dinastia após a divisão do reino unido de Israel. O texto bíblico reserva apenas cinco versículos em 1 Reis 16 para falar de Omri, pois o autor prefere investir mais tempo em Acabe (874–853 a.C.), por conta de sua convivência com o profeta Elias.

A tomada do poder

Omri é um chefe militar que chega ao poder após a morte Zinri, derrotando o rival Tibni. Omri era chefe do exército. O seu primeiro feito, ao chegar ao poder, é a fundação de uma nova capital: da cidade de Tirza, a capital passa para a cidade de Samaria, fundada por Omri. A escolha de Omri é estratégica. Samaria está localizada entre as vias importantes do reino e no meio de colinas férteis.

O reino do Sul, visando se precaver ante o poderio militar do reino do Norte, fez uma aliança com Damasco. Omri, para não ficar em desvantagem, faz uma aliança com os fenícios de Tiro, aliança essa selada pelo casamento de seu filho Acabe e Jezabel, filha do rei de Tiro:

E, como se não bastasse seguir o exemplo pecaminoso de Jeroboão, casou-se com Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios, e começou a se prostrar diante de Baal e adorá-lo. 1 Reis 16.31

Com esse casamento, Omri alcança um status gigante para a pequena insignificância de Israel no cenário internacional. Ele ataca a cidade filisteia de Gebeton e tomo parte do território da Transjordânia, que estava nas mãos dos moabitas. Esse fato extra bíblico veio à tona quando, em 1868, foi descoberta por beduínos na Jordânia, uma estela de basalto negro, que foi reconstruída e nela decifrou-se um texto de 34 linhas que remonta aos anos 842–840 a.C. A estela dá testemunho sobre as conquistas de Omri e a derrota por Acabe para os Moabitas. A estela narra como Moab também venceu Jorão, filho de Acabe. O mais impressionante, contudo, não são os relatos acerca dos reis, mas sim o seguinte trecho da estela:

Camos me disse: “Vai, toma Nebo de Israel”. Eu fui e combati contra ela da aurora até o meio-dia. A tomei e matei a todos, sete mil homens, com crianças, mulheres, jovens e escravos, porque eu tinha destinado ao extermínio para o deus Ashtar-Camos. De lá tomei os “vasos” de YHWH e os trouxe à presença de Camos. [2]

Nesse trecho da estela temos a menção ao tetragrama que simboliza o nome de Javé. É o testemunho histórico de um registro extra bíblico da existência da religião de Israel.

Acabe

Com a morte de Omri, em 874 a.C., chega ao trono seu filho Acabe. Ele assume num período bastante conturba de mudança de eixo de poder regional. No início do século IX a.C, o Rei Assurbanipal II, vindo da cidade de Nínive, às margens do Tigre, alcança e conquista a Síria e a Fenícia, expandindo o império Assírio. Essa expansão continua a Oeste, sob reinado de Salmanasar III, alcançando a Palestina. Em 853 a.C., acontece a batalha de Qarqar, às margens do Rio Oronte, norte do atual Líbano. Os reis locais haviam se organizado numa liga anti-Assíria e combateram, refreando a expansão. Sabemos disto por conta de uma inscrição descoberta num monolito em 1845, datado do período rei Salmanasar III. Nesta inscrição é feita menção a duas mil bigas e dez mil soldados enviados por “Acabe do país Sir’ila”, que se conclui ser Israel. Se for fato tal inscrição, Acabe era um rei com uma força militar bastante considerável para sua época. A arqueologia mostra que durante o reinado de Acabe, diversas cidades foram amplamente fortificadas, entre elas, Samaria, Hazor e Meguido.

O culto a Javé

Com o fortalecimento de Israel, fruto da bem-sucedida dinastia de Omri, as melhorias econômicas e sociais logo apareceram, mas com elas vieram também os contrastes entre os que estavam no poder e os que eram liderados. O exemplo de tal realidade é o episódio narrado em 1 Reis 21 sobre a videira de Nabote. O texto bíblico nos conta que o vizinho do palácio de Acabe tinha um videira, herança de seus antepassados. O rei Acabe queria comprar a videira para ali fazer uma horta, mas Nabote se recusou a vender. Jezabel, tomando conhecimento dos planos frustrados do marido, arquiteta um plano para matar Nabote e tomar sua vinha. Nabote é apedrejado e Acabe vai para tomar posse da vinha. A caminho da vinha, o rei se encontra com Elias, que entrega a ele a mensagem de Javé, o condenando, e a Jezabel, pelo que fizeram.

O relato bíblico, menos interessado nos feitos políticos e militares da dinastia de Omri, mantem o foco de sua narrativa nas questões religiosas e, nessa perspectiva, dois personagens ganham destaque: Elias e Eliseu. A história de Elias se estende de 1 Reis 17 a 2 Reis 2, a de Eliseu vai de 2 Reis 3 a 2 Reis 13. Cronologicamente falando, Elias atua durante o reinado de Acabe. Já Eliseu atua de Acabe, passando por Acazias, Jorão, Jeú, Jeocaz e Jeoás. É difícil precisar o quanto da literatura acerca dos profetas em questão foi revista e ampliada ao longo da redação do texto, o fato é que a atuação de ambos é uma grande demonstração de que o culto a Baal ainda era praticado e era fortemente combatido pelos redatores do livro dos Reis. Não se tratava de uma apostasia religiosa, mas sim da concomitância dos cultos, um ao lado do outro. Para os reis de Israel, à época, era mais tranquilo conviver com o pluralismo religioso. Já, para os redatores do livro, as formas de expressão popular da religião eram um verdadeiro escândalo. Em certa medida, vemos como a influência do exílio endureceu o padrão moral dos redatores do livro.

E o reino do Sul?

O livro dos Reis demonstra certa tendência em mostrar que o Reino do Norte era menos fiel a Javé que o reino do Sul. Durante a dinastia Omri no Norte, as relações com o reino do Sul foram relativamente amistosas. Em Judá, ocuparam o trono nesse período Josafá (870–848 a.C.) e Jorão (848–841 a.C.). Após a morte de Jorão, sobe ao trono Ocazias (841 a.C.) que reina menos de um ano, quando então Atalia (841–835 a.C.), filha de Acabe e Jezabel, mata todos os herdeiros direto do trono, tornando-se rainha. Seu reinado termina com um golpe de Estado, provavelmente arquitetado pelos sacerdotes e a nobreza, que a retira do trono e leva ao poder o jovem Joás, filho de Ocazias.

Conclusão

A história contada no livro de Reis nos revela como a monarquia foi sempre alvo de ataques e contestações por parte do povo. Javé não deixava impune aqueles que faziam o que era mau perante os seus olhos. A justiça vinha para pôr em termos os maus e os bons. Assim, reis eram destronados e guerras eram aplacadas. Num cenário internacional de conflito constante, o reino do Norte consegue chegar a uma estabilidade tal que passa a viver o seu apogeu com a chegada ao trono de Jeú (841–814 a.C.), que é o que veremos em nosso próximo encontro.


[1] BRIGHT, John. História de Israel. Edições Paulinas. São Paulo, SP, 1978

[2] MAZZINGHI, Luca. História de Israel: das origens ao período romano. Editora Vozes. Petrópolis, RJ. 2017


O presente texto foi escrito para a aula da Academia Bíblica da Igreja Presbiteriana Independente de Tucuruvi, São Paulo, SP, escrito em 19 de novembro de 2019

Giovanni Alecrim

Written by

Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, atualmente na IPI Tucuruvi. Produtor de conteúdo do Café com Alecrim: https://cafecomalecrim.com.br

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