Deus acima de tudo?

Giovanni Alecrim
Nov 28 · 4 min read

Lutem pelo Estado laico, pelo amor de Deus

Um dos aprendizados que tenho, lendo a Bíblia Sagrada é como Javé se relaciona com seu povo, mostrando que a infidelidade a ele é ruim. A infidelidade a ele não está, de modo algum, relacionada apenas a questões religiosas. Não é apenas nos dízimos que e na frequência da prática religiosa que são condenados os infiéis, mas também na sua relação para com os necessitados e os aflitos, principalmente para com os que creem diferente, pois pertencem a outros povos. O profeta Jeremias, que atuou em Judá provavelmente entre os Séculos VII a.C. e VI a.C., deixa isso bem claro:

Não se deixem enganar por aqueles que lhes fazem falsas promessas e repetem: ‘O templo do Senhor está aqui! O templo do Senhor está aqui!’. Contudo, só serei misericordioso se vocês abandonarem seus pensamentos e atos perversos e começarem a tratar uns aos outros com justiça, se pararem de explorar os estrangeiros, os órfãos e as viúvas, se pararem de cometer homicídio e se deixarem de prejudicar a si mesmos ao adorar outros deuses. (Jeremias 7.4–7)

Os tempos eram outros, a composição social também, mas a realidade do cuidado e dos direitos sendo cumpridos está aí, basta ler os profetas bíblicos. Vivemos dias tensos de combate a extremismos políticos. Quando abro o noticiário e leio que o secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania, embaixador Fabio Mendes Marzano, falou num evento na Hungria que o principal feito do Governo atual é colocar a religião no processo de políticas públicas, eu fico profundamente temeroso com o que teremos pela frente, principalmente porque os princípios religiosos são de uma vertente deturpada do cristianismo, que acredita que o cristão precisa ter uma influência na sociedade a fim de transformá-la aos moldes de seus pressupostos de fé. Não é o que nos ensina Jesus.

“Então deem a César o que pertence a César, e deem a Deus o que pertence a Deus”, disse ele. Sua resposta os deixou muito admirados. (Marcos 12.17)

O que Jesus está nos ensinando é que devemos nos relacionar com a realidade vigente na perspectiva do Reino de Deus. Se é necessário se submeter e pagar impostos, que se pague, mas que se lute para que Deus seja o centro de tudo na sua vida, é na perspectiva do Reino que devemos nos relacionar com o Estado. Quando a religião abraça o poder estatal, ela perde sua principal função social, a de botar o dedo na ferida e apontar o dedo na cara do governo e dizer que ele está tramando e agindo com perversidade, sendo injusto, perseguindo o que pensa diferente, os necessitados e matando quem deveria proteger. A atuação da religião em relação ao Estado deve ser a de fiscalizar e denunciar, estendendo a mão para ajudar, e não se envolver nas entranhas do poder. Todas as vezes que a religião assumiu o poder político de um Estado, o resultado foi perversidade. Não precisa ir longe na história, basta olhar os Estados teocráticos do presente século.

Fuja da teocracia. O cristão deve se lembrar que é um súdito do Rei dos Reis, Senhor Jesus. Em resumo, não esperamos uma teocracia, mas a Monarquia Absolutista do Rei de Amor, Jesus. Até lá, qualquer um que se coloque em posição de poder, usando Deus como bandeira ou fiador de seu cargo, está usurpando o lugar de Cristo. Não devemos desejar uma nação cristã, mas sim laica, pois na laicidade do Estado há diferentes formas de expressão política, social e religiosa, mas há também democracia, direito a pensar diferente e se expressar de maneira diferente do outro. Há convivência, coisa que a religião filiada ao poder político não gosta, basta ver o que aconteceu nos tempos do rei Jeú, em Israel.

Jeú reinou em Israel, Reino do Norte, no Século IX a.C.. Sob a bênção de Elias, e de Javé, Jeú perseguiu os profetas de Baal, massacrando-os, ainda assim, a narrativa que se encontra em 2 Reis 9 e seguintes deve ser contraposta à palavra profética de Oseias 1.4, onde Javé condena Jeú pelas mortes em excesso. São duas visões diferentes de um mesmo episódio e que revelam como as circunstâncias políticas são sentidas de maneiras diferentes por pessoas do mesmo período.

Lute pelo Estado laico, pelo amor de Deus. Precisamos, como cristãos, da laicidade para que possamos expressar nosso amor e nossa gratidão a Deus pelas pessoas que são diferentes, para que possamos ter pensamentos e atos misericordiosos e justos, cuidemos dos que nos são diferentes, amparemos os necessitados e fragilizados, não mais matemos, mas sim promovamos a vida e a justiça. Para isso, precisamos parar de adorar o deus Estado, o deus Dinheiro e o deus Poder. Quando adoramos qualquer outro deus, as injustiças proliferam, mesmo que façamos tudo “em nome de Deus”.

Giovanni Alecrim

Written by

Pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, atualmente na IPI Tucuruvi. Produtor de conteúdo do Café com Alecrim: https://cafecomalecrim.com.br

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